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No mundo dos livros de José Mindlin Imprimir E-mail

capaEm “No mundo dos livros”, obra de poucas páginas e linguagem despretensiosa – uma “conversa”, como o próprio autor o define – Mindlin socializa conosco suas experiências de leitura, principalmente sob o aspecto afetivo, procurando incentivar o hábito da leitura e o culto a seu representante mais simbólico: o livro.

 

“No mundo dos livros” de José Mindlin

Nestes tempos em que tantos vaticinam o fim do livro, é sempre bom ler o que um bibliófilo tem acapa nos dizer, principalmente se este for um senhor absolutamente lúcido de 95 anos de idade e que constituiu uma das maiores e mais importantes bibliotecas particulares do Brasil. Trata-se de José Ephim Mindlin, advogado e empresário do setor metal-mecânico nascido em 1914, mesmo ano em que uma Europa assustada via a ruína da Belle Époque e, sobre seus escombros, a ascensão da primeira grande guerra mundial. Mindlin é também membro da Academia Brasileira de Letras e autor de “Uma vida entre livros” (1997), “Reinações de José Mindlin” (2008) e “No mundo dos livros” (2009), este último alvo de nossa leitura e comentário.

Em “No mundo dos livros”, obra de poucas páginas e linguagem despretensiosa – uma “conversa”, como o próprio autor o define – Mindlin socializa conosco suas experiências de leitura, principalmente sob o aspecto afetivo, procurando incentivar o hábito da leitura e o culto a seu representante mais simbólico: o livro. Na tentativa de se fazer o mais próximo possível do leitor, entretanto, José Mindlin peca na estrutura da sua narrativa. Em alguns momentos interrompe sua exposição para lançar ao leitor perguntas do tipo “quem é que o(a) levou aos livros?”, “você já leu algum desses livros?”, entre outras, dando-nos a impressão de falar  a um público adolescente. Suas sugestões, porém, de títulos como “A retirada de Laguna”, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, ou “O espírito das leis”, de Montesquieu, inevitavelmente acabam por exigir leitores mais experientes e minimamente disciplinados. Há então esta narrativa pantanosa, uma espécie de desconforto quanto ao tipo de leitor que “No mundo dos livros “ pretende alcançar.

Também em seu inventário de obras e autores que lhe marcaram a memória, Mindlin não corre riscos, e limita-se a sugerir uma bibliografia já canonizada. Assim, na poesia brasileira, por exemplo, sugere poetas como Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, entre outros. Manoel de Barros e Adélia Prado são honrosas exceções. Cabe lembrar, a título de atenuante a esta pouca ousadia em não citar autores e obras de pouco ou nenhum reconhecimento, que a experiência de Mindlin a este pertence, e é desta experiência que fala “No mundo dos livros”.

Se há pecados, há também virtudes. Vale a pena conhecer um pouco mais da vida de bibliófilo de José Mindlin, como quando, já nas primeiras páginas, conta dos estratagemas de que lançava mão para conseguir comprar seus primeiros livros em sebos paulistanos, em 1927, aos 13 anos, e de como começa a qualificar suas aquisições, primeiramente procurando adquirir as obras completas do autor que apreciava, depois as primeiras edições e, por fim, as primeiras edições autografadas, transformando a sua biblioteca em algo único e precioso. Há nisto tudo verdadeira reverência não só ao objeto livro mas, fundamentalmente, à mão que o escreveu. Reverência exposta em trechos como este que aqui destacamos: “(...) comecei a procurar exemplares que tivessem passado mais diretamente pelas mãos dos escritores, com dedicatórias. Foi um novo mundo que se abriu para mim, uma espécie de contato direto com os autores e os leitores a quem os livros eram dedicados”.

Como dissemos lá em cima, nestes tempos em que tantos vaticinam o fim do livro, é sempre bom ler o que um bibliófilo tem a nos dizer. E a este nosso quase desamparo em meio ao universo de bits e bytes, consola-nos Mindlin quando diz que “o manuseio de um livro convencional não só estabelece o ritmo de aquisição de conhecimentos pelo autor, como chega a constituir um prazer físico”, e ainda: “o que aparece nas telas é necessariamente efêmero se não for transportado para o papel.”

Palavras de um apaixonado, sem dúvida!

Texto: Viegas Fernandes da Costa / Sarau Eletrônico.

 
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