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Deixem nossos estudantes ler Imprimir E-mail
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Diversos títulos e autores da literatura brasileira vêm sistematicamente sendo vítimas de uma censura velada, principalmente em nossas escolas. Livros são banidos de bibliotecas escolares sob a justificativa de veicular palavrões e temas relacionados ao sexo, violência e racismo. Em 2012 o Supremo Tribunal Federal discutiu se a obra “Caçadas de Pedrinho” poderia ser distribuída pelo Poder Público às bibliotecas escolares. Neste artigo o escritor e editor do Sarau Eletrônico, Viegas Fernandes da Costa, discute a impertinência e os riscos deste tipo de censura em nosso país.

Deixem nossos estudantes ler!

Viegas Fernandes da Costa
Escritor e Editor do Sarau Eletrônico

capaEm 2009 escolas catarinenses censuraram o livro "Aventuras Provisórias", de Cristóvão Tezza, sob a alegação de que continha palavrões e situações envolvendo sexo. Naquele mesmo ano, no município paranaense de União da Vitória, o vereador Jair Brugnago retirou das prateleiras de uma biblioteca escolar a antologia de contos “Amor à brasileira”, organizada por Caio Porfírio Carneiro e Guido Fidélis, e “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço”, do escritor estadunidense Will Eisner. A alegação do vereador para privar os alunos da leitura destes livros? “Pouca vergonha.”

Em 2010 foi a vez de "Caçadas de Pedrinho", escrito em 1933 por Monteiro Lobato, banido das escolas por decisão do Conselho Nacional de Educação, após ação do Instituto de Advocacia Racial, que acusou a obra de veicular racismo. O banimento foi revogado após a intervenção do Ministério da Educação no caso, mas o processo transcorre até hoje, e chegou aos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Neste ano de 2012 o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa censurou de seu vestibular o livro de contos "Violetas e Pavões", do escritor Dalton Trevisan, por tratar de temas como sexo, drogas e crimes. Ainda em 2012 o já citado Instituto de Advocacia Racial moveu ação contra o livro de contos "Negrinha", também de Monteiro Lobato, escrito em 1922, por considerá-lo racista. O curioso nisto tudo é perceber que ainda nos surpreendemos com as manifestações de grupos salafistas contra países que autorizam a publicação de charges consideradas ofensivas ao Islã, quando me parece que o Brasil caminha para um cenário parecido. Não se trata de negar aqui que, efetivamente, Lobato vinculou teses racistas em suas obras, ou que Trevisan e Tezza escrevem utilizando palavras cruas e descrevem cenas da realidade urbana; trata-se, isto sim, de qualificar nossos educadores, de prepará-los para trabalhar com estes conteúdos de modo que desmistifiquem autores e obras, que insiram discursos nos seus respectivos contextos culturais, sociais e históricos, e que auxiliem nossos estudantes a desenvolver uma leitura mais profunda, crítica e complexa das obras que lhes são apresentadas nas escolas.

Vale lembrar, no caso de Monteiro Lobato, um dos principais alvos da recente censura de livros no Brasil, que o racismo inerente a sua obra nunca esteve ausente. Ou seja, o texto de Lobato sempre foi racista, isto é um fato, tal qual o próprio autor o era, segundo apurou a escritora Ana Maria Gonçalves ao consultar cartas que o criador do “Sítio do Pica Pau Amarelo” trocou com Renato Kehl, Godofredo Rangel e Arthur Neiva. Entretanto, por décadas a crítica literária passou ao largo desta discussão, contribuindo para a mitificação de Lobato e sua obra. Discutir esta questão, assim como reconhecer o perfil ideológico de seus textos, é fundamental. Como já disse, e repito, não se trata de negar o racismo no universo lobatiano, muito menos justificá-lo à luz da conjuntura em que o texto foi escrito, mas é preciso compreender “Caçadas de Pedrinho”, por exemplo, como um monumento (conforme conceito do historiador francês Jacques Le Goff), para então desconstruí-lo. Porque negá-lo, bani-lo ou mutilá-lo é tão questionável quanto mitificá-lo, e isto vale para qualquer autor.

Nosso mundo não é higiênico, e todas estas atitudes arbitrárias de educadores medíocres e rábulas moralistas tentam justamente uma higienização impossível, excludente, fascista e perigosa. Banir um texto, censurá-lo, não impedirá as pessoas de perceberem o racismo, a violência, o sexismo entre outras questões complexas. Discuti-las, sim, pode contribuir para a construção de uma nova alteridade social, mais inclusiva e ética. E esta discussão tem, nas obras que educadores medíocres e rábulas moralistas procuram censurar, terreno fértil para se desenvolver. Afinal, autores não são santos, e livros existem para serem discutidos e desconstruídos, inclusive e fundamentalmente por nossos estudantes.

 
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