Menu Content/Inhalt
Home
O poema está pronto, o mundo não Imprimir E-mail
foto

Martinho Bruning começou a publicar tarde, ainda assim legou aos leitores dezenove títulos, a maior parte da sua obra dedicada aos haicais. Neste breve ensaio, o também poeta Marcelo Labes apresenta e reflete sobre a obra deste importante autor, nascido em Tubarão e radicado em Blumenau, cuja obra pede por leitores atentos.

O poema está pronto, o mundo não.
(Uma reflexão acerca de poesia e Martinho Bruning)

Marcelo Labes
Escritor

fotoO mundo está todo na tela do computador. Viaja-se, veem-se fotografias e vídeos de lugares diversos e situações adversas; quase se sente, sentado em casa, o que se sentiria diante de uma experiência real. Se a Literatura carrega consigo a mesma capacidade de fuga da realidade de que dispõem a Internet e seus milagres tecnológicos, ela ainda apresenta uma diferença substancial: para além das redes sociais — das quais somos antes prisioneiros, para depois nos mostrarmos sujeitos ativos — a Literatura ainda mostra-se capaz de colocar o homem diante de si mesmo e, humilde e humanamente, fazê-lo refletir.
É o que propõe a poesia de Martinho Bruning. Nascido em Tubarão-SC em 1921, foi em Blumenau, ainda que somente na década de 1980, que o então sexagenário poeta inicia a publicação de sua obra. Bruning faleceu em 1998 e deixou atrás de si, no que nos diz respeito, um caminho a ser conhecido, pesquisado. E pensado, e sentido.
Porque Bruning é, por si só, uma surpresa: foge ao estereótipo do poeta adolescente, que publica tão logo encontra um meio. E ainda surpreende de uma maneira que, do auge de nossa modernidade, nos fere: vem da poesia de Bruning, de maneira quase provocativa, o convite para um contato reflexivo com a Natureza. Esse contato em si com o mundo natural mostra-se quase sempre na forma poética pela qual Bruning é mais conhecido e respeitado: o haikai (ou haiku, ou haicai, em português).

Complexidade do simples

Herdeiro da milenar tradição literária japonesa, o haikai desenvolve-se no formato hoje conhecido a partir do século XVII. São três versos: o primeiro com sete sílabas poéticas, o segundo com cinco e o terceiro novamente com sete. Além da métrica, o haikai surpreende pela concisão filosófica, etérea: fala pouco mas sempre se diz muito mais do que as dezessete sílabas contidas no curto poema. Um exemplo:

Por cima do muro,
O espanto do girassol
Diante do mundo.

Para o ocidental de vinte e poucos anos, acadêmico, consumidor de tecnologia e sabedor do que se passa no mundo, a poesia de Bruning poderá soar ingênua. Afinal, apesar de poderem conter questionamentos de ordem existencial, seus poemas muitas vezes remetem a uma cena presenciada no jardim de casa.  Mas vem, a seguir, uma advertência em forma de pergunta: o quanto a modernidade nos permite entrar em contato com o simples? Porque o simples, para esse ocidental acadêmico, tecnológico e “antenado”, soa não apenas como uma banalidade, mas também como um perigo. É como se, ao admirar (e refletir) o simples, o mundo lógico construído à sombra do capitalismo perdesse completamente seu sentido.
Lauro Junkes, escritor catarinense, em excelente artigo datado de 1986, enaltece Bruning como poeta-filósofo que soube respirar sua obra sob as luzes da filosofia grega (de Heráclito e Platão, principalmente) e de fontes místico-religiosas, sobretudo o pensamento Zen-Budista. Talvez seja essa a característica mais marcante da poesia de Bruning: a capacidade de contemplar e deixar-se refletir pelo cotidiano com a atenção de um observador que respeita a cena e/ou o objeto observado.
Ainda no artigo de Lauro Junkes, este ressalta como os poemas de Bruning tem em si antagonismos com os quais o homem moderno deveria se ocupar. Porque tem em si, o homem da contemporaneidade, acesso às facilidades tecnológicas de nossos tempos — ao mesmo tempo em que se torna refém do tempo despendido para pagar por estas facilidades. Ou seja: o benefício da modernidade não permite ao sujeito vivenciar o banal do cotidiano (sempre tão necessário, sempre tão confortável) porque precisa sempre correr atrás da máquina. Por que não deixar, por alguns instantes, a máquina de lado?

Atenção necessária ao necessário

Martinho Bruning publicou dezenove livros, a partir de 1980, tendo sua obra inaugurada por O Mesmo Canto Natural e Outros Poemas. A partir daí, consolidou-se como uma voz necessária para as gerações existentes e as vindouras. Ao falecer, em 1998, depois de quase três décadas de apaixonante voz literária, o poeta deixou atrás de si um caminho importante a ser percorrido.
Se por ser já um senhor de idade, se por serem aqueles (estes!) tempos duros, Bruning não foi ainda lido com a atenção necessária à sua obra. Um erro, certamente. Ainda mais se lembrarmos da recorrente máxima atual, que diz estar o homem contemporâneo recorrendo a textos breves pela dificuldade em dar continuidade a uma leitura ampla e atenciosa.
Nesse caso, os haikais e os poemas breves de Bruning soam como bálsamo. São em sua grande maioria curtos, menores do que um tweet. Mas pintados com as melhores tintas, reforçados com os melhores efeitos, e o mais importante: falam de um mundo que está aqui, mas que é necessário fazer algum esforço para enxergar.
 
< Anterior   Próximo >

Artigos já publicados

"Enquanto Isso em Dom Casmurro" de José Endoença Martins

capaProvocador e experimental, Enquanto Isso em Dom Casmurro, no tempo do seu primeiro lançamento, dividiu águas na literatura produzida no interior de Santa Catarina, e reaparece agora ainda mais atual, problematizando esta nossa sociedade do pastiche, das aparências, onde tudo pode ser valorado pela plástica e pela capacidade de se tornar mercadoria, inclusive a própria Capitu, que paga com seu corpo o cachorro quente vendido na esquina.

Leia mais...