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Gervásio Luz: "O jornalismo entrou na minha vida como válvula de escape" Imprimir E-mail
O jornalista Gervásio Luz é um dos mais experientes e longevos profissionais da imprensa no Vale do Itajaí. Aposentou-se como professor e é autor de dois livros de crônicas. Em 2013 Gervásio recebeu o Sarau Eletrônico em sua residência, no bairro Garcia, em Blumenau, para esta entrevista na qual narra fatos curiosos da história da imprensa em Santa Catrina, sobre o exercício do magistério e revela suas memórias sobre a cidade em que escolheu para construir sua carreira.

“O jornalismo entrou na minha vida como válvula de escape”
Entrevista com Gervásio Luz

Viegas Fernandes da Costa1
Eloísa Cristina Souza2


INTRODUÇÃO

Gervásio Luz é a memória viva da imprensa e da história intelectual do Vale do Itajaí a partir da segunda metade do século XX. Nasceu em 1942, no município de Rio do Sul, mas desde a juventude radicou-se em Blumenau, cidade que conhece intimamente. Incorporou o pseudônimo Tessaleno dos seus primeiros escritos ao nome, uma referência clara da sua pena ferina às rochas da grega Tessalônia. Tanto que há, ainda hoje, quem chame por Tessaleno ao Gervásio.
Com breves passagens por Curitiba e pelo Rio de Janeiro (cidade esta que lhe “conformou a alma”, se me permitem a licença poética), Gervásio Luz dedicou sua história ao Magistério (do qual está aposentado), ao Jornalismo e à Literatura. Como professor, lecionou Língua Portuguesa, Oratória e Literatura em colégios importantes de Blumenau, como o Pedro II, o Santo Antônio e o Pontinho Estudantil. No Santo Antônio privou da amizade de Frei Odorico e dirigiu a Academia de Oratória Mont’Alverne. Foi professor de gerações.
Na condição de jornalista, escreveu para os principais jornais do Vale do Itajaí, como Ronda, Tribuna, Vanguarda, A Nação, O Estado e Jornal de Santa Catarina, além de inúmeros jornais de menor expressão. Fundou e editou os jornais Opinião, Entrevista e Pommer Zeitung.
Nesta entrevista, Gervásio tece um breve inventário da sua história de vida. Suas experiências no magistério, a amizade com Frei Odorico, sua militância no jornalismo e a candidatura ao legislativo blumenauense. Conta fatos curiosos de uma história pouco conhecida de Blumenau, como o empastelamento do jornal Ronda, a imprensa local nos tempos do Regime Militar e os bastidores da notícia na cidade, além de narrar suas memórias a respeito de personagens fundamentais da história intelectual e política blumenauense, como Norton Azambuja, Frei Odorico, Lindolf Bell, Geraldo Luz, Luís Antônio Soares, Martinho Bruning. Muitos são os personagens desfilam nas reminiscências de Gervásio Luz de forma inédita e íntima.
A entrevista foi realizada na residência de Gervásio Luz, no bairro Garcia, em dois momentos, durante o mês de maio de 2013. Foi conduzida pelo historiador Viegas Fernandes da Costa, e acompanhada pela estudante de História da Universidade Regional de Blumenau, Eloísa Cristina Souza, responsável pela transcrição primária, para o site de literatura Sarau Eletrônico, mantido pela Biblioteca Universitária da FURB. Na primeira parte da entrevista também esteve presente o historiador Darlan Jevaer Schmitt.

ENTREVISTA

Para começarmos. gostaria que falasses da tua família. Quem são teus pais, tuas origens?

Meu pai, Ademar Luz, advogado, e minha mãe Elga Thieme Luz. Eram de Itajaí, casaram-se e foram morar em Rio do Sul. Papai formou-se pela Universidade Federal do Paraná, acho que teve certo receio em iniciar a profissão. Chegaram a Rio do Sul em 1941, eu nasci em 1942, 25 de agosto, dia do soldado, do militar. Papai foi nomeado pelo Nereu Ramos delegado, na época se exigia que o delegado fosse advogado. mas que engraçado, o papai foi muito liberal, muito inteligente, foi ele quem me iniciou na literatura quando achou que chegou a idade de eu ler, apontou autores. Cobrava, mas soube dosar. Isso me influenciou, inclusive, como professor, de orientar os alunos em termos de leitura. Bom, o papai citava muito o farmacêutico Guilherme Gemballa...

Um dos fundadores da Universidade para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí.

... e o Dr. Erwino Gaertner, primeiro médico de Rio do Sul. Era época da guerra, e era aquela perseguição. Não se podia falar alemão. Papai ia tomar o seu café da manhã na rua em que eu nasci, Rua Sete de Setembro, onde tinha o café da Ford. À noite tomava o seu vinhozinho com esses dois amigos que eu mencionei, o médico e o farmacêutico. E o promotor da cidade, que era até casado com uma sobrinha de papai, denunciou o papai como protetor de nazistas. O Guilherme Gemballa e o Dr. Erwino seriam nazistas, e papai, sendo delegado, deveria prendê-los. Então, o Dr. Erwino procurou papai desesperado, “Acho que vou ser preso”. Papai disse, “Não, pega o primeiro ônibus, vai para Curitiba, te apresenta no NPOR3 – papai tinha se formado lá – e podes dar o meu nome, pede uma declaração de cidadania, brasilidade”. Assim fez o médico, chegou lá, apresentou-se ao comandante e falou que realmente era de origem alemã, que era costume falar alemão em casa, mas que ele era brasileiro antes de tudo. O filho chegou até a ser prefeito, era tabelião em Rio do Sul. Erwino voltou, “Ah, o militar começou a pressionar ‘mas o senhor não é mesmo nazista?’ – disse – ‘Ontem ouvi na Hora do Brasil o ministro da guerra – que era o Dutra, depois seria o presidente da República – em uma declaração”. Percebia-se bem que ele estava oscilando, assim como o próprio Getúlio, entre se aliar aos americanos ou então ficar com Hitler e seus seguidores. O comandante já se assustou. Era verdade. Enfim, ele voltou com o título de cidadão brasileiro. Bom, falaste da UNIDAVI, Universidade de Rio do Sul. Fui convidado ao lançamento de um livro de uma amiga de vários anos, Beatriz Pellizzetti, historiadora de Rio do Sul, filha de Ermembergo Pellizzetti, que foi deputado, prefeito de Rio do Sul, nome de praça na minha terra natal. Eu estava assistindo o lançamento do livro, saí para fumar um cigarro na Rua Sete, ao voltar, em uma antessala, mas que dava para o auditório onde ela estava assinando seu livro sobre a colonização italiana – ela é especialista nisso – , vi um senhor de terno, elegante, sentado, com as mãos já mostrando a idade com aquelas manchas próprias. Eu disse “O senhor é daqui?” – tinha cara de jornalista metido. “Não, sou de Curitiba”. O papo teria morrido por aí não fosse eu falar assim, “Eu nasci nessa rua”, ele “Nasceu aqui? Mas quem é você?” “Gervásio Luz, filho do Ademar e da Elguinha! O primeiro tapa na minha bundinha foi o senhor quem deu”. Naquele tempo o médico vinha em casa, meu parto foi feito em casa. Ele chamou um público e contou essa historinha, ele devia a vida dele ao meu pai, se não teria sido preso, o médico. Tudo por uma perseguição política tola, porque houve exagero dos dois lados, os alemães extremados e os brasileiros também, usando de muito abuso na perseguição. Bom, agora voltando na história, antes de falar de Rio do Sul, meu sonho era morar no Rio de Janeiro. Quando terminei o Científico, no Colégio Santo Antônio, eu vim com 12 anos, em 53 eu estava aqui “[em Blumenau]...

Vieste sozinho?

Não. Papai mudou-se para a Alameda. Até quatro anos atrás eu estava ali. O que aconteceu, em 60? Terminados os estudos no Santo Antônio, eu tinha que me decidir para fazer uma faculdade, e queria fazer direito, o meu pai era advogado. Na verdade eu não tinha certeza. E ainda papai me pressionou, disse “olha a luta que o teu pai desenvolve”. Só que ele queria que eu estudasse em Florianópolis, para estar mais perto da família. Mas eu queria cidade grande, na época a cidade era uma província. “Vou para Curitiba.” Arrependi-me barbaridades, por quê? Porque não gostei do curso, vi que não era a minha praia.

Na universidade do Paraná?

No Paraná, onde o papai se formou. E aconteceu um episódio muito engraçado, quando eu vi que tinha que fazer o vestibular. Naquele tempo tinha latim, a minha sorte é que eu tinha estudado com Frei Odorico quatro anos de latim no antigo ginásio – hoje é o primeiro grau.

No Santo Antônio o científico, mas também o ginasial?

O ginasial, e ainda tinha um pré-complementar, tinha que fazer o quinto ano.

Em Rio do Sul, onde estudaste?

Estudei na escola Paulo Zimmermann e no colégio Dom Bosco, com os Salesianos. Aí fiquei desesperado; “latim”. No científico não tinha latim, e corri a Frei Odorico, que na época tinha sido meu professor. Aquele homem de uma cultura incrível, que me deu aula de oratória, francês, espanhol, português, latim.

Ele foi uma grande influência na sua carreira profissional, não?

Foi. Sempre declarei que me tornei professor de português por causa dele. Embora não convidado, iniciei o português no colégio Dom Pedro II por descoberta. É aquela história, estava conversando com amigos no Palmital, uma churrascaria famosa, com um grupo de professores do Pedro II, aí disseram “Gervásio, por que não dás aula? Português, falas tão bem”. Fiz curso em Florianópolis, não havia faculdades aqui por perto, só em Florianópolis. Depois fiz curso de aperfeiçoamento, vários. Enfim, passei a lecionar sem ter feito Letras. Aí corri ao Frei Odorico, “Não vai ter tempo para me dar umas aulinhas de Latim?” “Te dou um conselho, meu filho, decora as Catilinárias4. Lá fui eu, decorei na ponta da língua. E tinha prova oral. Na escrita me virei. Naquele tempo tinha sorteio, um monte de papelotes na mesa, o aluno era chamado, eu pego o meu papelzinho. O professor era Vieira Lins, o inquiridor, Sebastião Vieira Lins, famoso, formado em Curitiba, partido socialista, foi candidato a Deputado, votei nele. Ele abriu as Catilinárias. O nervosismo sumiu totalmente, já fui ao primeiro verso e fiquei nesse primeiro verso. Ele disse, “pode ir embora, dez!”. Frei Odorico é santo. Dois anos de Curitiba bastaram, eu não gostava da cidade, não gostei. Tem uma piada do “Pasquim”, quando encontro um paranaense eu brinco. Curitiba para mim foi uma decepção em dois termos: o frio no clima e no coração das pessoas. Fiz um amigo lá em dois anos.

Consideras Curitiba mais inóspita do que Blumenau?

Acho que sim. Mudei depois. E o frio mesmo! A temperatura era de matar. Saía à noite com dor no peito, e eu detesto frio. Consultei papai, “Papai, quero ir para o Rio de Janeiro”.

Tinhas quantos anos nessa época, Gervásio?

Vinte e poucos anos. O Rio foi a minha realização. Mas voltando a Curitiba, passei quinze anos me recusando a ver a cidade, embora tenha parentes lá, tios maravilhosos. Na revisão que fiz – uma visita –  vi que é uma cidade muito bonita, merece o título de Cidade Sorriso, muito moderna. Mas o Rio foi a minha realização. No primeiro dia já me senti carioca. Tem uma frase que eu vi atribuída ao Vinícius de Moraes, depois já vi atribuída ao Millôr Fernandes, depois ao Nelson Rodrigues, não importa o autor, que é de uma verdade incrível: “Ser carioca é um estado de espírito”. Meu sonho mesmo era viver lá para sempre. Mas no comecinho de 64, estava chegando a revolução, o golpe, eu era considerado de esquerda, esquerda festiva, Bossa Nova. Veio a notícia, começo de 64. Um general do exército, meu tio Donato, veio me comunicar que papai estava doente, estava com câncer em fase terminal, questão de meses.

Tu não sabias de nada?

Não sabia de nada, foi um choque. Aí me mandei para cá. Ele viveu semanas, um mês. Eu digo que ele morreu dias antes de desiludir-se fortemente com o golpe militar.

Ficaste quanto tempo no Rio de Janeiro?

Dois anos e meio.

E ali também estudaste Direito?

Não, eu comecei e abandonei de novo.

Ocupaste teu tempo por lá em quê? Tinhas alguma profissão?

Trabalhei no Banco Inco5, fui bancário, uma triste experiência. Profissão horrorosa.

Por quê, Gervásio?

Você lida com dinheiro, sem dinheiro, ganhando pouco. Trabalhava no Banco Inco e morava na Zona Sul. Para mim Rio de Janeiro era na Zona sul, na Copacabana, Ipanema, Leblon. No Centro eu ia para trabalhar no Banco de Indústria e Comércio de Santa Catarina. Como é que eu consegui esse emprego? Papai era muito amigo de itajaienses, amigo de diretores do banco, os Miranda Lins. Nunca esqueço que, certo dia, saí para tomar um café, fazer um lanche, em um boteco que tinha em frente ao banco. De repente vejo aquela figura, terno branco contrastando com a negrura da pele; Ataulfo Alves, o compositor. Vê-lo me proporcionou muitas visões, passar pelo Bon Gourmet em Copacabana, ver Vinícius na calçada, Tom Jobim, Carlinhos Lyra e a Nara Leão.

E tu não chegaste para conversar com eles?

Não. Era muito tímido, aliás, não tinha dinheiro nem para o show. Era o show dos quatro, show famoso. Eu parei, fiquei encarando tanto que a “Narinha” olhou para mim e deu o maior sorriso do mundo, mas era muito tímido naquela época, nem sabia que iria ser jornalista, porque seria mais afoito. Então o Rio de Janeiro, para mim, foi muita praia. Mas engraçado que eu dei uma de carioca ao pé da letra. Lá em casa foi assim: papai se programou de três em três anos. Eu nasci em 42, três anos depois nasceu a minha irmã Maria Júlia, mora aqui no Bela Vista, 48 nasceu Maria Lígia que mora em Florianópolis.

E o Geraldo Luz?

Geraldo é primo. A Maria Júlia, minha irmã, apareceu no Rio de Janeiro, na excursão do Pedro II, ainda quando o Joaquim Floriani era o diretor. Fui convidado, aí que fui conhecer o Pão de Açúcar e o Corcovado, levado por essas circunstâncias. Se não, se eu tivesse saído do Rio, saído inesperadamente, aliás, sairia de lá sem conhecer os dois cartões postais. O que me encantava no meu reduto era a Zona Sul, zona da boemia. Saí do Rio muito sentido.

Nunca mais voltaste a morar lá?

Não. Voltei depois para fazer um curso. Essa história é engraçadíssima! Com a Maria Ribeiro, professora, e a professora Gilka Ewald, mãe de dois alunos meus, Marco Ewald e o Eduardo. Quando eu morava na Alameda, fui a uma pizzaria que hoje não existe mais, esqueci o nome agora, Napolitana, se não me engano. Esses dois ex-alunos meus, um é advogado e o outro é médico, quando me viram, eles estavam tocando, trouxeram até um CD, começaram a tocar Bossa Nova, Vinícius de Moraes principalmente, em minha homenagem. Bom, aí nós fomos para essa faculdade, era lá em Jacarepaguá, eu fiquei em Copacabana, a Gilka e a Maria em Ipanema, sacolejando o ônibus em uma viagem que não acabava mais. Eu fui entusiasmado com o curso, que tinha uma palestra com Mário Lago. Eu era fã do Mário Lago como compositor, como escritor. Cheguei lá, isso nos primeiros dias, o Mário Lago não pôde vir, estava doente. Colocaram um atorzinho da Globo que mal estava começando, não sabia nem falar, prometeram a presença de um gramático famoso, Cegalla ou o Bechara, e também apareceu uma figura da qual eu nunca tinha ouvido falar. Dei uma de CDF, quis fazer o curso até o final. Mas em uma das voltas, terceiro dia eu acho, “Gervásio, nós vamos parar aqui no Centro, tomar um chopinho, porque nós queremos conversar contigo”. Eu digo, “então vamos ao Amarelinho, famoso, em frente ao Teatro Municipal, tem mesas na calçada”. E lá disseram, “vamos abandonar esse curso?” Eu “Vamos, vamos para a faculdade de Ipanema, pronto!” Estivemos inclusive onde hoje é Rua Vinícius de Moraes, chamava-se Montenegro, da garota de Ipanema. Tenho fotos da garota de Ipanema, tenho a letra da música, a partitura está na parede. Foi onde o Tom e o Vinícius viram passar a Helô Pinheiro, a famosa garota de Ipanema, onde fizeram a música. Saí com o coração partido. Jurei que não iria voltar mais. Mas se eu tenho mágoa? Não tenho, porque Blumenau é a minha paixão. Dizem, “Gervásio, você não é Riosulense?” Eu digo, “não, nasci lá, não tenho nada contra a minha cidade. Tive uma infância maravilhosa, peguei o tempo da estrada de ferro, mas a cidade que me possibilitou a realização como professor, jornalista, depois escritor, foi Blumenau”. Então eu amo essa cidade de paixão. Aquela história de acharem que eu sou do Rio, por quê? Talvez eu tenha voltado com trejeitos de carioca. O que aconteceu é que estávamos em plena ditadura e eu colecionei o Pasquim do primeiro ao último. A enchente levou. O que aconteceu: eu dava aula no colégio em que estudei. Aluno de português não quer saber dessa matéria. Não posso começar de uma maneira muito austera. Então entrava na aula com o Pasquim embaixo do braço, sentava na mesa, lia o melhor texto, o mais engraçado. Tentava puxar meus alunos com humor, que eu acho que é a melhor forma de expressão. Acho que ninguém resiste a uma boa piada bem contada. Mostrava uma charge que desse para mostrar em um colégio de padre, embora nunca tivesse sofrido nenhuma censura. Eu tinha proteção do Frei Odorico. O que aconteceu? Naquele ano eu peguei uma terceira série de ginásio, hoje é a sétima. Um garoto perguntou, “professor, o senhor nasceu no Rio?” Pensei, vou dar uma aula de comunicação maravilhosa, “Nasci sim”, e continuei a aula. No recreio eles vieram, “Professor, é legal ser carioca?” “Quem disse que eu sou carioca? Não sou carioca.” “Mas o senhor disse que era do Rio de Janeiro.” “A pergunta de vocês foi incompleta, problema de comunicação. Se vocês tivessem me perguntado: professor, o senhor é do Rio de Janeiro, nasceu no Rio de Janeiro? Eu teria dito que não. Nasci em Rio do Sul, cidadezinha de rio também, Serra acima”.

Disseste que teu pai te influenciou, primeiramente com a leitura dos clássicos. O que lias? Quais os textos que primeiro te encantaram?

Papai era muito esperto, se ele tivesse me dado um José de Alencar, hoje eu não gostaria de literatura. Ele começou com Humberto de Campos, tinha a coleção toda, um cronista não muito famoso, mas grande escritor. Ele tem um humor... tem um livro, “Brasil Anedótico”, e aquilo me encantou. Foi o que eu procurei fazer com os meus alunos. Pegava um Stanislaw Ponte Preta, um Millôr Fernandes, eles adoravam! Eles, “professor, como é o nome desse livro?”. Depois eu seguia com Alencar, Machado de Assis, os modernistas principalmente, mas eles já aceitavam, tinham criado gosto pela leitura. Quando deixei o magistério, achei que iria sentir muito, mas não senti não. As turmas mudaram.

Creio que fui um dos últimos alunos teus. Em que ano largaste o magistério?

Eu abandonei, digamos assim, em 92. Faltando um tempinho, um ano talvez, para me aposentar totalmente. Em 92.

O que te levou a abandonar tão intempestivamente o magistério, Gervásio?

Eu estava farto do comportamento dos jovens. Sempre fui muito liberal, de não precisar chamar de “Professor Gervásio”, “pode chamar de Gervásio. Agora, quero respeito, o professor respeita vocês”. Pensei que tivesse encerrado a carreira em 92, quando me aposentei. Em 2004 resolvi dar umas aulas particulares. Bolei um anunciozinho, que saiu no jornal de Gaspar, O Metas. Eu colaborava com o jornal desde 2002. Estou há 12 anos no jornal Metas, semanalmente escrevo lá. Escrevia as quatro semanas, até que a Sociedade de Escritores pediu um espaço, e eu cedi. A quarta semana deixo que eles escrevam e ocupem o meu espaço na boa. Bolei aqueles cartazes do curso de oratória e imprimi. Resolvi botar pelo menos um no mural de cada prédio, são três prédios no colégio Pedro II, onde eu havia lecionado, também me aposentado por lá. Aí fui à diretora, a Regina Ingletto, mãe da Bianca que trabalha na RBS. A Regina, mulher muito bonita, inteligente, disse, “não vai botar anúncio nenhum”. E eu, “Vais me recusar a propaganda?” “Você não vai dar aula particular, você vai lecionar oratória”. Não sabia que tinha oratória, que era obrigatório no segundo grau. Encheu-me de turmas de manhã, de tarde e de noite, ano de 2004. Adorei! Dei-me muito bem com as turmas da manhã, as turmas da tarde, mas à noite era uma bandidada. Eu estava dando aula para uma das turmas, e de repente um cidadão se levanta, sandália de dedo, mal vestido, pegou o celular e começou a falar. Eu digo, “o que é isso, meu Deus do céu?” A essa altura já tinha percebido que eles levavam bebida alcoólica pro fundo da classe. Lembra daquele filme, “Ao mestre com carinho”6? Aí eu disse, “vou ser cinematográfico, encerrar a minha carreira aqui, à noite, e é agora”. Eu, “Gente, atenção, imaginem que o professor de vocês de oratória fosse um diretor de cinema e estivesse filmando essa sala. O que eu faria a partir de agora? Mandaria a câmera fotografar este ângulo aqui, daria atenção só para vocês.” Apontei para o marginal e disse, “onde esse marginal está, me desacatando, seria ignorado. O filme acaba aqui. A partir de amanhã não dou mais aula à noite”. Estava cheio de gente querendo essas aulas, acho que foi o Alfredo Scottini quem me substituiu. Mas continuei muito bem com as turmas da tarde e da manhã. Por que eu não prossegui dando aulas de oratória? A minha decepção, não com os alunos, com o estado do colégio, as paredes caindo, o teto, portas sem maçaneta, vidros quebrados, por incrível que pareça até papel higiênico eu tive que levar, não tinha papel higiênico nos banheiros. Estava abandonado, um caos, “eu não vou ficar aqui. Quero guardar uma imagem do Pedro II dos bons tempos aqui que eu havia lecionado”. Então foi só este breve retorno.

Além do Santo Antônio e do Pedro II, chegaste a lecionar em outras escolas?

Bastante. No Pontinho Estudantil...

Sempre Língua Portuguesa, Oratória?

Principalmente Língua Portuguesa, comunicação, aí surgiu a Teoria da Comunicação, dava para aproveitar e dar umas dicas de oratória. Mas o Colégio do Vale do Itajaí, O Pontinho, se expandiu. Tinha tanto aluno que foi alugando salas em colégios estaduais. Então lecionei no João Widemann, na Itoupava Norte, no Santos Dummont. Dei aulas no colégio dos Barbieri. Existia o colégio Dr. Blumenau, lá no Centro, na rua Curt Hering, onde dei aulas de português. Dei aulas em outros cursos também, principalmente os preparatórios para vestibular. Foi um episódio muito engraçado. Eu estava em Florianópolis, passeando, que é a minha segunda terra. Tirando o Rio de Janeiro, que está muito longe, me sinto muito bem em Florianópolis. Açorianos, eu tenho sangue português. Sempre digo que tenho sangue alemão da parte da minha mãe, mas predomina no meu proceder, no meu sentir, o Luz de Portugal.

O que poderias falar do Frei Odorico? Sabemos que Frei Odorico foi uma personalidade não só religiosa, mas também intelectual na cidade, marcando gerações. Tiveste uma convivência próxima com ele; qual perfil traçarias do Frei Odorico?

Frei Odorico foi o meu segundo pai, não pela proteção que me deu, mas pela cultura que transmitiu e pelo que eu pude assimilar. A cultura dele era infinita, sem exageros. Quem, aliás, me convidou para lecionar no Santo Antônio, foi ele. Eu já tinha alguns anos no Pedro II, encontro ele na Rua Sete por acaso, e ele, “Gervásio, não queres dar aula no Santo Antônio? A professora de português do científico, primeiro e segundo anos, Marina Wollstein, irmã do Rivadávia, vai casar e deixar o magistério. Mas tu vais com uma condição.” “Qual é a chantagem, Frei Odorico?” “É a seguinte: foste sócio fundador da Academia de Mont'Alverne em 1959...” Ele queria que eu fosse diretor da Academia. Ele já estava meio cansado, viajava às vezes, adorava Florianópolis, a terra dele era Santo Amaro da Imperatriz, perto de Florianópolis, mas estava sempre presente. Eu nunca me considerei diretor da Academia, considerava-me um subdiretor. Ele era intocável. Durante todo tempo em que lecionei no Santo Antônio, dirigi a Academia de Mont'Alverne, que ele fundou em 1959. Não esqueço, convocou as turmas do científico para um encontro, e era feriado, dia 13, dia de Santo Antônio. Fomos sem saber o que era, e no salão nobre do colégio foi fundada a Academia de Frei Francisco de Mont'Alverne. Por que esse nome? Quem foi Frei Francisco de Mont'Alverne? O Odorico justificou. Era um frade franciscano, o maior orador sacro do império que, já cego, mas ainda muito lúcido, atendeu a um pedido de D. Pedro II e fez uma oração, oficiou uma missa a pedido do Imperador. A Academia principiou e hoje está com 54 anos – aí que sinto o peso da idade. Nunca esqueço as minhas duas atuações Lembro até do terno, a cor que usava. Os rapazes tinham que usar terno, gravata, e as moças trajes sociais. Tanto que a academia ficou conhecida na cidade, porque as quartas à tarde tinha essa sessão, e era aquele desfilar pela Rua Quinze de jovens bem vestidos. “É dia de academia”, o povo já dizia. Meu primeiro discurso foi sobre Humberto de Campos, era mais pesquisa.

Como aluno, Gervásio?

Como aluno. Tive a impressão que eu tremia que nem vara verde, o sangue fervia dentro das veias. Digo, “sou um bambu, meu Deus do céu, estou para lá e para cá”., Estava de verde ainda por cima”. Fui elogiadíssimo! O Frei disse, “calma, o nervosismo era psicológico”. Eu me senti melhor para o retorno. Era uma antecipação do futuro jornalista sem eu saber. Critiquei e abordei uma polêmica aqui em Blumenau, entre um jornalista do Jornal A Nação, Frederico Allende, um senhor de idade que escrevia bem, com um português correto, e um jornalista meio desvairado, chamava-se Israel Costa, que tinha um jornal chamado O Combate. Ele era tão querido!

Qual deles?

Esse Israel Costa, entre aspas.

Querido é uma ironia?

É que ele se candidatou a vereador, isso é a coisa mais típica de açoriano, brasileiro. Pegaram um burro e fizeram um desfile com o burro pela Rua Quinze, “Vote em mim, Israel”.

Foi a própria população que fez?

Alguma facção.

Tu lembras em que época foi isso?

Final da década de 50.

Foi o teu segundo discurso...

“A polêmica” era o título. Então eu mostrava a minha decepção com o desnível da polêmica. Um homem com mais categoria no jornal diário, vi aquele jornalista enxovalhado. Frei Odorico ainda... Bom, eu morei no Rio, em Curitiba, e visitava muito Frei Odorico, quando podia. Depois, como professor, dava aula de manhã, sempre digo isso, durante trinta anos trabalhei nos três turnos, mas não era ganância, era necessidade, porque escolhi duas profissões que não dão dinheiro, mas realizam pessoalmente, o magistério e o jornalismo. Eu dava aulas de manhã no Santo Antônio e à tarde trabalhava em jornal, O Estado, o Santa, e à noite dava aulas no Pedro II. Às vezes eu estava saindo quinze para meio-dia, terminava as aulas no colégio Santo Antônio, vinha o bedel Batista, “O Frei Odorico tem um assunto contigo, importantíssimo.” Eu, “meu Deus do céu, o que será?”. Eu tinha jornal à uma e meia, ou aula, dependendo da época. Bom, vamos dar uma passada por lá. Na Academia está tudo bem, não tem sessão solene, sempre se festejava no dia do aniversário dele ou no meu aniversário, depois em comum acordo acabamos com aquelas homenagens, só dia 13, dia da fundação, era uma sessão solene. Cheguei lá com o Frei Odorico, “o que a Elguinha preparou hoje para ti?” Mamãe Elga. Ele a chamou de Elguinha mais por afetividade, conhecia ligeiramente. Eu disse, “acho que é uma feijoada”. Aí ele levantava, atrás da mesa e da cadeira dele a estante cheia de livros, a biblioteca fabulosa, retirava Os Sertões, volume grande, Euclides da Cunha, e lá estava o Underberg escondidinho. “Não vais sofrer nada com a feijoada.” E tomava um cálice... Outra feita, dependendo do prato, era uma coisa mais leve. Então hoje é diferente, foi lá no Larousse, pegou um volume daquele tamanho do dicionário, tirou duas garrafas. Era um uísque estrangeiro, não lembro se era Johnny Walker e uma cachacinha de Luiz Alves que tinha sido dada por um aluno que era produtor. “Diz, o que tu preferes?” Claro que por vontade preferia um uísque estrangeiro, mas optei pela cachaça porque sabia que ele gostava da caninha, para agradar. Ele era assim, uma personalidade incrível. Um dia entrei na sala dele, e disse assim, “Frei Odorico, vi um bloquinho de rifa, o senhor comprou tudo isso?” “Nenhum bilhete! Uma aluna veio aqui pedir que eu comprasse, é que eu não olhei na hora. Disse, passe depois, que eu estava ocupado, estava preparando uma prova, mas vou dizer para a moça. Nenhum bilhete!” “Por que, Frei Odorico?” “Olha o que está escrito ali: ‘contribuição expontânea’. Espontânea com X! Vem do latim Sponte, é com S, em português espontânea tem que ser com S”! Então ele tem umas passagens hilariantes.

Qual a maior contribuição da Academia de Mont’Alverne?

Na verdade, depois que deixei de dar aulas, quando encontro e esbarro com ex-aluno, ex-aluna, que não vejo há anos, eles não perguntam pelo colégio, mas “como vai a academia, está viva ainda?”. Interessante é que eles tinham pavor na época. Sabe o que é discursar em público? Não é fácil para qualquer um, treme-se feito vara verde. Mas passado aquele episódio, o retorno que o aluno tem, seu crescimento, estimulado pela crítica dos colegas, pelos elogios, ou mesmo algum reparo a sua fala, a sua postura, veem aquela experiência refletida na vida profissional, um político, advogado, ou qualquer outro profissional que tenha que falar em público. Hoje em dia é difícil escapar de falar em público. Aí o agradecimento vem. A academia marcou a cidade, eu me arrisco dizer que não há similar no Brasil. Não há nenhuma academia de colégio secundário que tenha perdurado por tanto tempo. Tanto que ela refletiu e outras escolas tentaram fazer academias, mas de curta duração, não foram longe.

Como o jornalismo entra na tua vida?

O jornalismo entrou na minha vida como válvula de escape. Já disse que tinha voltado do Rio de Janeiro, forçado não é a palavra. Tinha um grande amor pelo meu pai, mas a morte dele foi de me ferir e me fez obrigar a ficar aqui.

Por que te obrigou a ficar aqui?

Minha mãe ficou sozinha, já com duas irmãs, elas eram jovens.

E o jornalismo?

No Rio de Janeiro, já em Curitiba, eu era apaixonado por jornais. Acho que isso já estava prenunciando um futuro professor e um futuro jornalista. No Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil era a minha paixão, que hoje infelizmente não está mais impresso. Peguei o tempo da Última Hora, Samuel Wainer, uma época de bons cronistas, Antônio Maria, que é o meu cronista predileto. Ele é mais conhecido como compositor popular, “Manhã de Carnaval”, pernambucano e virou carioca. Tenho uns pontos de identificação com o Antônio Maria nesse sentido. Apaixonar-se pelo Rio de Janeiro não sendo de lá. Ele pernambucano e eu catarina. Também nunca ter pensado em lançar livro. Paixão era o jornal, e ele só foi impresso, digamos assim, os textos dele, as crônicas, depois da sua morte. A família estava em dificuldades financeiras, e o Vinicius de Moraes, Ivan Lessa, Paulo Francis, José Aparecido de Oliveira (que foi Ministro da Educação do Jânio Quadros) organizaram um livro chamado “O Jornal de Antônio Maria”, que era o nome da coluna dele nos Associados. Escolheram as melhores crônicas, e assim que eu soube, ganhei o livro, não sabia que tinha saído. Depois foi uma estudante de jornalismo, lançou “Com vocês Antônio Maria”. Na base, no fundo no fundo, a maioria dos textos está no “Jornal de Antônio Maria”. Eu mandava para as minhas irmãs, recortava. Por exemplo, no Última Hora você abria uma página e era só cronistas, o Stanislaw Ponte Preta, em cima, ladeado por gente de primeira.

Que também foi uma influência para ti, o Sérgio Porto...

Sim, foi uma influência muito grande na base do humor. Maravilhoso ele. Dizem que o crítico de literatura é o escritor frustrado. O Stanislaw escrevia muito sobre música e malhava o mau gosto imperante, mas ele foi uma exceção. Assinou aquele fabuloso “Samba do Crioulo Doido”. É um primor de humorismo! Ali ele mistura a história toda.
 
Cometeu uma pós-modernidade no samba.

Isso aí! Bom, eu mandava aqueles recortes. Já em Curitiba lia muito os jornais. Qualquer cidadezinha do Vale, onde eu fosse, a primeira coisa que eu procurava era o jornal da cidade, para ter uma visão da coisa. Acompanhei essa evolução do jornal, daquela forma tradicional. Por exemplo, na cidade em que nasci, Rio do Sul, tem um jornal que até hoje em dia vive, o Nova Era. O meu nascimento deu na capa, imagina! Isso nos dias de hoje não tem sentido.  Contei no jornal Expressão Universitária, a convite da Magali Moser, este episódio do Nova Era, um jornal grande, standard na época, hoje tabloide. E a capa e contracapa era batizado, aniversário, velório, bodas. O papai muito gozador, muito irônico, inticava com o diretor do jornal, Pedro Paulo Cunha. Quando ele saía e encontrava com Pedro Paulo, dizia “Pedro Paulo, me fizeste perder o dia de ontem” “Como?” “Fiquei sem trabalhar, só lendo o Nova Era.” O que não abalava a amizade. Bom, cheguei a Blumenau no comecinho de 64, aí surgiu aquela fofoca que eu teria fugido da militância política.

Tinha essa fofoca? Por quê?

A fama que eu tinha de esquerda, e eu nunca fui, como eu disse. Nunca fui pró-militar.

Também nunca foste filiado a partidos de esquerda?

Não, nunca fui filiado.

Por que, então, a fama?

Não sei, talvez pelas declarações contra os militares. Não contra os militares, mas contra o que eu considerei um golpe.

Nessa época, ainda não escrevias em jornal?

Pois aí é que está a história... Fiquei frustrado, papai faleceu, o que vou fazer em Blumenau? Bateu aquela saudade do Rio de Janeiro, do teatro, dos bons filmes clássicos, praia, aí surgiu a ideia.  Mas foi um episódio, o por quê fui parar em jornal e como. Comecei a sair, passaram-se os meses de luto, jovem, vinte e poucos anos, e a mamãe viúva, cheguei uma noite um pouquinho tarde. Ela estava aos prantos, preocupadíssima, que tinha ouvido no rádio – na época era rádio Alvorada, que hoje não existe mais – uma notícia assim, “foi atropelado um jovem na esquina da Sete...” Naquele trajeto que eu fazia da Rua Quinze para a Alameda, e não deram o nome do jovem. Ela ligou para rádio e não tinham dados. Não se dá uma notícia assim sem fundamento, ou se dá completa com algum dado. Aquilo me motivou, mas como é que eu iria começar? Tinha um jornal na minha rua, na Alameda Rio Branco, em um prédio de tijolinho à vista que ficava ao lado do prédio dos correios, em frente ao Cine Bush, chamado Ronda, do Nagib Barbieri, um gasparense que tinha um temperamento solto, agressivo, mas uma pessoa maravilhosa, e o jornal dele criticava Deus e todo o mundo. Mas por incrível que pareça, num estilo altíssimo. Por quê? Porque o redator chefe se chamava Paulo Jacques, carioca, casou-se com uma paranaense e veio morar em Blumenau. Era o redator chefe, tinha um estilo lapidar, a fofoca, o menor incidente ele transformava em notícia em uma linguagem muito elegante. Depois ele se transferiu para o jornal A Nação, com o fechamento da Ronda, e assinou por muitos anos uma coluna chamada Bunker. Estava gozando da cidade, ali do esconderijo tipo nazista. Ele criticava os políticos com muita elegância, e o Paulo influenciou também. Resolvi mandar aquele artigo, a timidez ainda estava imperando.

Um artigo?

Um artigo criticando a rádio. Falando do mau jornalismo. Não lembro agora do título que dei. Aí, eu todo entusiasmado, cheguei para a mamãe e disse, “Oh, mãe, vou estrear em jornal” “Em qual jornal você vai escrever?” (risos) “Ronda” “Pasquim!” – pasquim no mal sentido.  “De jeito nenhum!” Eu não podia assinar, a única forma de enganá-la era botar um pseudônimo. Qual pseudônimo vou criar? Ou fico nos nomes mais comuns, José de Souza, João da Silva, ou vou por algo mais estrambótico. Lembrei de um amigo meu, no Rio, que tinha o nome de Tessaleno. Então saiu. A coluna era assinada, por incentivo do jornal. Saiu em cima, até bem exagerado, alto e grande, “Tessaleno”. Gervásio não aparecia.

Ou seja, viraste colunista a partir da primeira matéria?

Já me transformaram em colunista. Bom, e esse jornal, Ronda, apesar de ter uma seção chamada Ronda Militar na capa, noticiário sobre o 23º BI, foi empastelado pelo quartel, e criticando, inclusive, os comunistas.

Fala sobre isso, então. Como aconteceu esse empastelamento?

O empastelamento foi o seguinte, coisa bem provinciana. O jornal criticou um engenheiro do DER7, que tinha pretensão política, e esse engenheiro era irmão do coronel, gente importante. O coronel pediu a cabeça, não interessa se estava perseguindo comunista, se tinha uma coluna elogiando os militares, era empastelado, fechado.

A redação foi destruída?

Foi só fechada. E as mesmas máquinas de escrever e de composição... peguei essas três espécies de impressão. A Ronda e a Vanguarda eram ainda tipo por tipo. Pegava um A da letra A na caixinha e colocava na caixinha, parafusava. Depois veio a linha direta, que é a linotipo. Depois o offset, peguei os três tipos. Comecei com o mais antigo, mais primário, mais difícil, digamos assim. O Nagib não se conformou e lançou o jornal Vanguarda, que durou bastante tempo, com o mesmo diretor, com o mesmo editor-chefe, Paulo Jacques. Era um jornal de coragem. Por exemplo, uma manchete assim: “Ingo Hering é visto entregando cheque ao PTB”. Tinha anúncio da Companhia Hering, ele nem queria saber, o Nagib. O fato tinha acontecido, o Ingo Hering era da UDN, queria apoio do PTB, que era aliado do PSD, então, teria entregue esse cheque, foi flagrado ali na Rua Quinze. No mesmo dia o Ingo, com aquele sotaque peculiar, “Seu Nagib, a partir da hoje, anúncio Hering cancelado” “Eu já esperava!”. Nesse tempo que  eu estava escrevendo para os jornais, já estava dando aulas. Para dizer que não fui vítima de perseguição injusta, vai entrar em cena agora no meu depoimento o famoso Coronel Brandão. Eu estava uma noite com o jornalista Norton Azambuja e outros amigos...

Tinhas amizade com Norton Azambuja?

Foi amizade fundamental. A morte dele me abalou bastante. Nós tivemos um jornal juntos, Entrevista.

Aqui em Blumenau?

Em Blumenau. Nós estávamos jantando em um restaurante Chinês, famoso, sempre está cheio, na frente da Flamingo8. Levantei para ir ao banheiro, e o Brandão estava na outra mesa, tomando o seu uísque, ele gostava muito de whisky, não fazia mal nenhum. No que fui passar, ele botou a perna para eu tropeçar, mas  pulei.

Ainda assinavas como Tessaleno nessa época?

Acho que não, mas eles já tinham a minha ficha. Só ouvi ele dizer, “muito inteligente, pena que seja comunista”. E eu, “Barbaridade!” Senti que de repente ele mudou. Nunca me ameaçou de prisão, nada. É que ele descobriu que os dois filhos, a menina e o menino, eram meus alunos no Colégio Santo Antônio.

Tu escreves no Vanguarda nessa época?

Já estava no A Nação. Já tinha saído do Vanguarda. Estava no jornal A Nação, coluna diária. Um dia, era aniversário de uma jornalista já falecida, Ula Weiss, famosa Ula. Ela me convidou para o aniversário dela no clube Olímpico, Alameda Rio Branco, onde eu morava. No que eu entro, esbarro com o Brandão já meio alto, tinha tomado uns whisky a mais, que me abraçou e disse assim, “Gervásio, queria pedir perdão pra ti, porque eu fui a favor do golpe, mas secretamente era João Goulart”. Dei um empurrão e disse, “Por favor, mentira não!”. Nem entrei na festa. Mas depois nos tornamos amigos. Gostava muito de cão também, “cachorreiro” como eu. Quando ele morreu, nos dávamos bem.

Escrevias sobre o que, Gervásio?

Comecei praticamente com crônicas, falei do rádio, da notícia ruim. O meu segundo artigo que repercutiu muito. Eu era fã da Bossa Nova e tinha assistido a um show no Rio de Janeiro do Luiz Henrique da Rosa, um compositor de Florianópolis, chegou a gravar nos Estados Unidos, foi namorado da Liza Minnelli, trouxe a Liza Minnelli para o carnaval de Florianópolis. Um boa pinta, bom compositor, mas ele gravou o samba que era do Zininho9, chama-se “Se amor é Isso”. Ele gravou e tirou o nome do Zininho, assinou sozinho, e aquilo é apropriação indébita. Fiz um carnaval em cima disso. Logo depois, uma semana depois, a Neide Maria Rosa, uma cantora de Florianópolis, cantava muito Luiz Henrique, veio com o Zininho dar um show aqui, em uma boate no Grande Hotel Blumenau. E os conheci. Eles ficaram chocados, “Você teve coragem? Não é verdade, esse samba não é do Zininho? Não é seu, Zininho?” “É, sabe como é”, mas gostando do Luiz Henrique está bom. Perguntaste sobre o que eu escrevia... Virei colunista, com notas pequenas.

Em qual jornal tu viras colunista?

Colunista foi no A Nação.

Então vejamos, só para entender: começas como colaborador do Ronda. Em que momento assumes como profissional? É no Ronda mesmo, ou no Vanguarda?   

Aí é que está. É até bom relembrar isso daí. Na Nação também era só colaborador- colunista, até que no ano de 1970 veio o convite para ser diretor da sucursal do Jornal Estado em Blumenau. Era um jornal que dominava o estado, assim como o Santa, que nasceu com essa pretensão de ser um jornal estadual, e hoje é um jornal regional. O único estadual mesmo é o Diário Catarinense. Fiquei dez anos lá, e foi aí que tive carteira registrada. Depois foi essa passagem pelo Santa. Engraçado, trabalhando dez anos no jornal O Estado, eu não sabia o que era uma redação, nunca tinha trabalhado em redação, escrevia à distância. Peguei a época da máquina de escrever, o telex, não havia computador. No Santa fui editor do Lazer, cinco anos.

Ficaste dez anos no Estado. Quem te fez o convite para trabalhar? Como surgiu esse convite?

O diretor da sucursal era o Lauro Lara, meu vizinho, pai do Denis. E não sei, ele não estava dando conta ou algo assim. Acho que o convite veio de Florianópolis, o diretor superintendente, Marcílio Medeiros Filho, que foi cronista e depois abandonou, hoje advogado. Marcílio foi meu colega de bancos escolares, aqui no Santo Antônio. Acho que veio de lá, merece até um agradecimento se alguém me indicou aqui.

No Estado eras diretor e também escrevias?

Eu fazia de tudo, e dando aulas, imagina, tinha que mandar diariamente notícias, assinaturas, e arranjar comercial. E não me davam repórter, não me davam nada.

Estavas sozinho aqui?

Sozinho. Nos primeiros tempos, não dá para dizer em anos, até que o jornal foi crescendo, aumentando, viram que valia a pena investir em Blumenau. Então, o que aconteceu? Surgiram os repórteres. Até citei naquele artigo que escrevi para o Jornal Expressão Universitária. Então passou por ali o Celso Jânio Moskorz, que também é médico em Indaial, o Newton Janke, que foi jornalista depois no Santa, trabalhou na Caixa Econômica Federal, foi juiz federal, hoje é juiz eleitoral, se não me engano. Ele está trabalhando na administração no Napoleão Bernardes. E todos bons de pena. Eu dava as coordenadas, dava a pauta, corrigia os textos, dava certa liberdade, mas todos abandonaram o jornalismo. E tinha esquecido uma personagem, eu era funcionário ainda, o Santa comemorou não sei quantos anos de vida, 33, e tinha uma festa lá na Rua Bahia. Assim que cheguei, estava na porta o Nelson Sirotsky, que me disse, “O Marcelo Rech começou com o Gervásio” “E agora?” Nem me lembrava. Marcelo Rech é hoje diretor executivo de redação do grupo RBS10. “Ele quer te rever, Gervásio, está andando por aí”. Marcelo recordou que tinha terminado o científico, o pai dele era comandante do 23º BI11, e ele tinha sido meu aluno. Formou-se no científico, passou em jornalismo na PUC de Porto Alegre e foi me procurar aqui na redação, “Professor, só vou iniciar daqui há tantos meses, passei na segunda turma, o senhor não me dá uma chance como repórter?”.

Isso no Santa?

Não, no Estado. Então, se ele não me lembrasse, eu teria esquecido desse episódio, uma passagem muito rápida. Dentro do jornalismo também sempre fui incentivador da charge. Nos anos que escrevia no Santa, década de 80, estava dando aula no colégio, Santo Antônio e Pedro II, via um aluno esconder um papel, disse “O que está fazendo?” “Ah, é um desenho.” “Mas que beleza, posso levar para publicar na minha coluna?”. E alguns deles se tornaram bons chargistas.

Em que momento vais para o Santa?

No Santa, na década de 80, fui colaborador semanal.

Sais do Estado para seres colaborar do Santa?

Do Estado saí em 80, e no correr de 80-90 tive uma passagem como colunista no Santa. Perto dos anos 90 fui editor. Funcionário contratado, com a carteira assinada, contratado para ser editor do Lazer. Mas saí quando o grupo gaúcho comprou. Saí por vontade própria. Não me dei bem com o editor chefe, chamado Nelson Ferrão, gaúcho, que me levou a ter trauma do computador. Os gaúchos chegaram e colocaram o computador. Nesse livro da “Da Olivetti à Internet”, conto essa passagem. Tem uma professora gaúcha, muito bonita, chamada Jane, jornalista, que nos deu as técnicas para iniciarmos nossa atividade quando foram instalados os computadores. Acontece que eu tinha, além de editar as cinco páginas do Lazer, uma coluna diária e ficava naquela aula pavorosa, já com aversão daquela geringonça. Aquela máquina queria mandar em mim. De repente eu sumia, ia lá para um quartinho, uma sala, máquina de escrever, batendo a minha coluna. Aí a Jane me surpreendeu “O que você está fazendo aí?” “Estou batendo a minha coluna.” “Fazemos o seguinte, ao invés de fazer os exercícios que os outros fazem, faz a sua coluna lá”. Fui obrigado a me adaptar.

A te renderes ao computador.

É, a uma lata de sardinha que quer mandar em mim. Agora eu gostaria de contar um episódio engraçado. Eu me indispus com esse redator-chefe, ele queria tudo ao mesmo tempo, queria que fizesse em dois dias o jornal da semana inteira. Pedi demissão, pois a Jane foi duas vezes lá em casa pedir que eu voltasse. Mas não. Então, admirei-me quando em 2004 eles me convidaram para ser cronista semanal. Trabalhei muito bem lá. A parte engraçada que eu nunca contei, estou louco para escrever, mas ela é minha amiga. Por enquanto não dá para contar. Não dá para contar em jornal. Eu descia a colina do Santo Antônio, em cinco dias de aula, eu voltava para a casa pela Rua Sete, mas naquele dia desci pela Quinze, não sei por que, encontro o Aurélio Sada. Ele escrevia sobre Esportes no Jornal A Nação, já é falecido, figura maravilhosa, trocadilhista de primeira. Um dia estou na esquina da Floriano com a Curt Hering com ele, conversando. De repente vem o alfaiate, sobrenome era Machado, Alcides Machado, abanou para o Alcides, o Alcides se aproximou, “Gervásio, conheces o alfaiate que faz ternos à Machado?” - e quando ele me irritava, chamava-o de “ossada”, “ossada, para! Ossada”. Trocadilho é uma forma meio grosseira de humor, mas às vezes funciona. E o Sadinha disse, “Gervásio, mas tu hein, como editor de Lazer, que fora que tu deste”. Eu digo, “Que fora?” “Vem ler o Santa de hoje!” “O que houve?” “A Neusinha era cronista social, ela ressuscitou o Leonardo da Vinci”. Digo “Isso não é possível. Não tenho culpa nenhuma, e sabe por quê? Assim que assumi a Neusinha não admitiu que eu fizesse a revisão da página dela”. Ela era toda poderosa, para mim uma página a menos, melhor, menos serviço. E realmente, quando cheguei à tarde no escritório, estava lá, no painel do jornalista “A Santa milagreira, Neusa ressuscita Leonardo da Vinci”. A Basf, eu tinha recebido o convite e tinha noticiado, resolveu fazer uma exposição itinerante pelo país das obras e dos projetos das máquinas e criações do Leonardo da Vinci, tudo em ferro, algo assim. Mas a Neusinha, que não permitia revisão, foi um grande erro dela, começou “O famoso escultor Leonardo da Vinci, pensador, está convidando para a exposição de suas obras”. Um dia tenho que registrar isso. Por falar em bate-papo, em entrevista ainda dentro da linha do jornalismo, quando sou convidado a dar uma palestra, nos tempos de Rio de Janeiro, Fernando Sabino conta que foi convidado para falar sobre a poesia, dar uma palestra, conferência sobre a poesia dos primórdios. Primeiros poemas brasileiros, passando por todas as escolas literárias até os dias de hoje. Passou meses estudando, fazendo pesquisa, era para as alunas daquele famoso Sacré-Coeur de Marie, colégio de meninas grã-finas, a elite. Bom, o que aconteceu? Falou, depois deixou livre, esperando uma pergunta inteligente. Primeiro dedinho que se levantou de uma menininha da alta sociedade carioca “É verdade, senhor Sabino, que quem escreve a coluna do Ibrahim Sued é o Henrique Pongetti?” Eu imaginava dar uma aula aqui falando sobre escritores e depois alguém me perguntar, “É verdade que quem escrever a coluna da Neusinha Manzke é fulano de tal?”. Não dá. Por falar nisso, conheci bastante o Beto Stodieck, irreverente, escreveu no Santa. O terreno dele era Florianópolis, ele chamava a Neusinha de “Neusa Luz Manzkenada”, Mas que nada, um trocadinho infame que por escrito ele registrava. Não no Santa, lá em Florianópolis, ele esteve no jornal do Beto. Colaborei com ele também.  Então, quando sou convidado para uma palestra, uma conferência, digo “Gente, bate-papo. Vocês podem me interromper a qualquer momento, mas, por favor”, aquela palavra ficou na minha cabeça, dar uma palestra e depois ter que engolir uma pergunta besta dessas.

Na década de 90, quando começo a conhecer o teu trabalho, sempre te via em uma série de jornais que eu chamaria de “alternativos”. Lembro que tinha o jornal do Pedro II, O Canal Novo, comentavas, escrevias. Tinha o Hora Ilustrada.

O jornal do Carlos de Freitas.

Sim, e depois em Gaspar. Também disseste que tiveste teus próprios jornais, não é verdade? Então, primeiramente, como surge essa ideia de criares os teus jornais? Por que a necessidade de teres teu próprio jornal?

Pois é, foi um ano depois de eu ter estreado na imprensa aqui, em jornais pequenos, eu criaria o Jornal Opinião. Um poeta que queria aparecer, Alroino Baltazar Eble, morava naquele castelo, eu chamo de castelo, em frente à Furb, em frente ao Giassi, onde foi o  restaurante Gruta Azul, que também já se foi. E o Alroino quis criar esse jornal, que teve dois números.

O Opinião?

É. Era um jornal moderninho, a diagramação totalmente diferente. A gente bolava os anúncios. Quando o Rubens Heusi deu para nós o anúncio da Óptica Heusi, nunca esqueço, coloquei um verso antes “Fotografei você na minha Rolleiflex. Revelou-se a sua enorme ingratidão” – Newton Mendonça, o letrista. Só tentei fazer um anúncio com a famosa Casa Royal, que era só aquele Standard, só a marca. Bolei um citando jornalistas, Nagel Milton de Melo, Aurélio Sada, João Vieira – o Mano Jango – , que não dirigiam, mas se precisassem comprar um carro, seria na Royal. Foi desaprovado, cortaram o anúncio, não tinha espírito inovador nem criativo. Sei que por falta de comerciais morreu ali, na casca, o Opinião. Depois fiquei com a fama de criador de jornal de bairro, de mesa de bar. Aí nasceu o Entrevista.

O Entrevista é de que ano?

Ah, o Entrevista foi na década de 80, 85.

Metade da década de 80.

A coleção toda está no Arquivo Histórico. O Entrevista foi um jornal bem inovador, bem doido. É influência do Pasquim, claro. A Vera Fischer veio a Blumenau trazer uma peça, a minha frustração era não ter dado aula para ela, era fã. A primeira vez que ela veio a Blumenau com uma peça, acho que era a “Negócios de Estado”. Ela deu uma coletiva no salão nobre da prefeitura. Estava belíssima, loura, no sofá, com jornalistas de tudo que é tipo de comunicação. Terminou, o pessoal foi embora. Eu disse “Vera, quero uma entrevista com você, sou seu fã número um”. Ela “Por que não aproveitou”. “Não quero perguntas de outros, meu jornal chama-se Entrevista e você, a partir de agora, é a musa do jornal.” Primeira pergunta, com o gravadorzinho, eu disse “Vera, tenho duas frustrações em relação a você. Primeira, detestei o teu filme de estreia, Sinal Vermelho, saí na metade”, ela ficou assim (expressa confusão) “Mas por quê?”, “Eu sou alemão, apesar de descendência portuguesa, tenho a pele clara. Fui a Florianópolis, estava na praia da Joaquina, tomei um sol exagerado, mas fui assistir ao teu filme, Sinal Vermelho. E o cinema não tinha ar condicionado, um dia de verão, eu cheio de bolhas, tive que sair do cinema.” “Mas tu não presta”; e “A segunda tu teres fugido das minhas mãos. Dei aulas no Pedro II, mas não tive o privilégio de dar aulas para ti”. Enfim, gostei dela, fui ver a peça. Entrevistei o Taiguara, políticos daqui, o único que fugiu da minha entrevista foi o Horácio Braun. Marquei entrevista com ele.

Tinhas boas relações com o Horácio?

Nos dávamos relativamente bem. Não era aquela amizade, mas acho que ele foi ‘endeusado’ demais, tenho coragem de dizer isso. Era um bom humorista, bom cartunista, o lado humano dele é que cativou as pessoas.

E o Entrevista, era apenas entrevista?

A entrevista era o miolo do jornal, mas tinha seções diversas, colunas diversas e muito picantes.

Picantes?

Tanto que o refrão era “O Pasquinzinho do Vale”. Seguimos aquela linha de “inticar” com todo mundo. É um reflexo da história do Nagib com o Ingo Hering. Um dos nossos patrocinadores era a Rádio Alvorada, se não me engano, na época era do Paulo Gouvêa da Costa. Não sei que assunto nós abordamos que o Paulo não gostou e cortou o Entrevista, cortou apoio do anúncio. Aí não tivemos dúvida “Entrevista desgosta Paulo Gouvêa da Costa”.

- FIM DA 1ª PARTE -

A entrevista foi interrompida neste ponto, e prosseguiu uma semana após, na residência do entrevistado.

- INÍCIO DA 2ª PARTE -

Poderias falar um pouco mais sobre os jornais que editaste? Como surgiu o editor?

Comecei, como disse, em 64, como colunista. Tornei-me, em 70, colunista de vários jornais aqui, pequenos. Trabalhei na Ronda, Vanguarda, Tribuna, que era do Germano Beduschi, um semanário do PTB12, mas eu escrevia sobre o que eu queria. A Nação, onde fui colunista diário. Até que, com o Jornal Estado, aprendi a fazer matérias mais diversificadas e, como eu diria, cheguei a fazer reportagem. Adorava entrevista, o meu segundo jornal chamou-se Entrevista. Adorava fazer entrevistas com artistas plásticos, escritores, fosse quem fosse, políticos. Então foi na década de 70 que ampliei meus horizontes como jornalista, atuando praticamente em todas as áreas, e graças a Deus, como já citei, tive bons repórteres no jornal Estado. Considerava abacaxi terrenos em que eu não sentia firme. Por exemplo, esportes nunca foi meu forte, tinha quem o fizesse. E um episódio engraçadíssimo, o Jornal Estado me telefonou, no tempo que a comunicação era por telefone, usava-se o Telex. Havia um jogo do Avaí, se eu não me engano, de Florianópolis, com um clube de Rio do Sul, agora não me ocorre o nome. E fui designado para cobrir o jogo. Não entendia patavinas. Naquela época não sabia o que era um pênalti, imagina a minha situação. (risos) E lá fui eu de ônibus, com o meu fotógrafo, que era o Guido Heuer, hoje famoso.

Quantos anos o Guido tinha nessa época?

O Guido não estava com 20 anos ainda. Era repórter e bancou o fotógrafo naquele dia. Interessante, com todo o nosso amadorismo e de ônibus, o único gol que houve, e não me lembro se foi do Avaí, ou do clube de Rio do sul, quem conseguiu a foto foi o Guido. Pudemos estampar no Jornal Estado. O Santa, com todo aquele aparato, carro próprio, o fotógrafo não conseguiu a foto do gol. Daí o meu drama, como narrar aquele futebol, não entendia nada, nunca gostei. Concordava com o Millôr Fernandes que dizia, “A solução para o jogo de futebol é uma bola para cada jogador e pronto, acabava a briga”. Cheguei lá, aquela arquibancada,  e vi o Bolinha, Carlos Eduardo Mendonça, que na época era radialista em Rio do Sul, foi vereador, foi cassado. Pensei em chegar  a ele e pedir instruções, dicas de como narrar o jogo. Depois fiz uma coisa que seria e foi antiética. O juiz era o Gilberto Nahas, comentarista esportivo do Jornal Estado, onde eu trabalhava. Eu disse, “Nem preciso prestar atenção nesse jogo, que não entendo patavinas, vou voltar com o Nahas”. E na viagem ele me descrevendo... Um juiz descrevendo, sendo parcial, mas não interessa, cumpri a minha missão. Fotografia já estava garantida. Na viagem fui anotando. Então cheguei a Blumenau em cima da hora, era a edição de segunda, nunca esqueço, meu ponto era o Cine Bar, dos intelectuais, Geraldo Luz, Valdir Floriani e outros. Por telefone transmiti o jogo. Nunca mais aceitei esporte, eu já tinha os repórteres que gostavam de esporte. Foi um episódio engraçado, digamos assim, tem que contar a verdade. Sem querer, eu fui antiético. Ora, ouvir a versão do juiz, o juiz é parcial, enfim, cumpri a missão. Economia também nunca foi o meu forte, e Social nem pensar! Passei aqueles 10 anos no Estado. Foi ali que aprendi a fazer reportagem, porque os repórteres do Estado, em Florianópolis, frequentavam a redação. O Dr. Aderbal Ramos da Silva, ex-governador, foi dono do jornal. Pagava para eles passarem uma temporada no Rio de janeiro aprendendo a técnica da reportagem, imagina, no Jornal do Brasil. Eles transmitiam os materiais que recebiam. Tanto que eu não me esqueço, pediram-me também uma matéria sobre o carnaval em Blumenau, que não existe. Falei do “não-carnaval” de Blumenau. E aqui não funcionavam aqueles versos do sambista, “Foi sambar até calar o último pandeiro”, não tinha. Depois disso tentaram ressuscitar, naquela época não tinha nada, salãozinho ou outro. Evidentemente comprava o Jornal do Brasil, de repente eu olho, cobertura do carnaval de Santa Catarina, o meu artigo ali. Sinal que eu tinha um texto razoável. Sem mudar uma linha. Não me deram crédito, mas isso não importa, foi o Marcílio Medeiros filho, que era diretor superintendente e correspondente do JB aqui em Santa Catarina, mas nunca comentei, fiquei feliz com o texto no Jornal do Brasil. Bom, vou falar de episódios, umas historinhas. Pediste dos meus ex-jornais. Eu estreei em 64, mas não foi ideia minha não, foi um amigo, Alroíno Baltazar Eble. Ele tem um livro chamado “Ameno abrigo”, existe aí nas bibliotecas, até na Furb deve ter. Era um poeta iniciante e queria se projetar, então fizemos um jornal bem doido, diagramação ousada para a época, bem original, diferente, mas durou só dois números, falta de apoio financeiro. Anunciamos o terceiro com a colaboração do Alceu Longo, Mário Jango, João Vieira, que era cronista diário da Nação, sua coluna “Espiando a Maré”, e o jornal número três morreu.

Era mensal ou semanal?

Era mensal. Pela metade dos anos 80, surgiu a ideia do Jornal Entrevista, e eu era amigo, quase irmão do Norton Azambuja. Não lembro se o Norton já estava no Santa, sei que o Norton queria estudar medicina, mas acabou no jornalismo. Ele admirava muito meu trabalho. Tornamo-nos sócios e lançamos o Jornal Entrevista, que durou uns 20 números.

Mensal também?

Mensal. Deu uma parada e voltou anos depois, quando o Pedrinho Cascaes foi candidato a prefeito e eu a vereador no PTB, imagina, empurrado pelo Norton. Eu nunca pensava em ser candidato. Gostava de escrever sobre política, mas eu político? Nunca! Tanto que não fiz campanha, confiei nos meus alunos, só de me verem naqueles segundinhos, não pedia voto.

Fizeste quantos votos?

Fiz 126 votos. Coincidiu que naquele ano tinha morrido o Norton, não vou dizer que parei no hospital, mas quase. Foi uma desilusão total, na verdade. Depois nunca mais. Mas para quem não fez campanha, foram votos de amigos. Nós e os vereadores do PTB fizemos mais votos que o candidato a prefeito, Pedrinho fez mil votos. Não elegeu ninguém do PTB. Aí o Entrevista morreu.

Por que morreu?

Talvez por falta de suporte financeiro, por mais que a gente insistisse. Quando me aposentei em 92, o que eu pensei? Vou lançar o meu terceiro jornal. Mas Blumenau estava apinhada de pequenos jornais. Tempo do Renato Vianna prefeito. Eu sei que eles financiavam jornais, cada bairro tinha o seu jornal.

O PMDB13 financiava?

PMDB, Assessoria de Comunicação. Bom, o que vou fazer? Vou lançar em uma cidade que não tenha, aqui perto. Indaial tinha, Timbó tinha, Pomerode, por incrível que pareça, não tinha jornal. Procurei um ex-aluno meu, Valdemiro Pedrini, dono de indústrias grandes, para ele dar apenas um pontapé inicial. Segui aquela orientação do Pasquim, que nós já tínhamos feito no Entrevista, um expediente maior para o próprio jornal. Para lançar o Jornal de Pomerode, para agradar aquela cidade considerada a mais Alemã do Brasil, fomos de alemão, Pommer Zeitung, e embaixo, Jornal de Pomerode. Comigo na direção, eu era chefe de redação e tinha coluna. Peguei muitos colaboradores de Pomerode. Foi uma aventura, porque resolvi lançar esse jornal – o Norton já não vivia, morreu em 88, foi começo dos anos 90. Uma cidade como Pomerode não ter jornal, não admitia! Mas eu não conhecia quase ninguém por lá, um ou outro ex-aluno. Então o que aconteceu? Sai o jornal de Pomerode com 80% de anúncios de Blumenau, e 20% de Pomerode, depois inverteu a coisa. Publicava tudo que era coisa de ex-aluno, dono de borracharia, dono de pizzaria, livraria, todo mundo apoiou o Jornal de Pomerode, o Pommer Zeitung. Mas acabei me desinteressando um pouco e o jornal foi assaltado, digamos assim, tomaram-me o jornal. A minha cronista social, ex-aluna, tomou conta do jornal. Ameacei processar, ela foi na minha casa chorando. Até hoje existe, mas totalmente diferente.

Qual era a proposta do Pommer Zeitung?

Era um jornal para divulgar a cidade e focalizar aspectos, pessoas que mereciam destaque. Então, a maioria falava alemão, e eu não sabia patavinas, o Ingo Penz traduzia para mim. Entrevistamos o seu Egon Tiedt. Quem chegava a Pomerode, ele tinha uma loja de antiguidades, hoje é o museu dele, na frente daquela cervejaria lá de Pomerode. Não foi fácil conseguir anúncio. Fui na farmácia do Alan, que tinha sido meu aluno, e consegui. Entrevistei um velho carroceiro que há 40 anos vinha lá do morro com a sua carrocinha, levando leite, e Ingo, fotógrafo de primeira, imagina as fotos que ele tirava. Então o Jornal de Pomerode era um “fotaço”, com a cidade, o entrevistado, o carroceiro, era muito bonito o jornal.

Era quinzenal ou mensal?

Mensal.

E durou quanto tempo nas tuas mãos?

Durou meio ano comigo, eu acho. E aí vem um episódio engraçado, o diretor comercial era o Nelson Lamin, mas não tinha sorte, por quê? Moreno demais para o gosto. Notava-se isso, pelo menos na década de 90. Então o que eu fazia: vou ter que dar um de comercial. Jornal tinha que sobreviver. Nunca esqueço quando fui a uma farmácia, se não engano, fiz a propaganda do jornal, ele já tinha recebido alguns números. Era um dia de calor, estava de óculos escuros e o homem disse “Não, não vou dar anúncio!” Tirei os óculos, “E esses olhos azuis não comovem o senhor?”, saí com o anúncio. (risos) Levava na brincadeira. Também fui ao Weege. Weege, famoso laticínio, famoso Kraeuterkaese, aquele queijo em tubo. O cidadão me recebeu muito mal, “Mais um picareta que vem para cá”. Digo “O senhor está me chamando de picareta? O senhor nem me conhece” “Não, é que teve um outro jornal aqui, o cidadão cobrou os anúncios e o jornal nem saiu.” “Eu não vou fazer isso, o senhor está recebendo aqui o seu jornal. O jornal existe e vai continuar. Se não quer dar anúncio, não dá”. Fui investigar o porquê dessa reação dele, descobri que o cidadão picareta era o genro dele. Coincidiu que no final da tarde, na nossa despedida de Pomerode, era no hotel Pomerode, ao lado do zoológico. Lá estava o professor Webber, tomando a sua cerveja. Distribuímos o jornal, a despedida era lá da cidade, com as notícias colhidas. E aparece o cidadão, o tal do Weege, não tive dúvida, todo mundo elogiando o jornal, “O senhor já viu?”, ele ficou “meio assim”. “Encontrei o senhor Weege, estava achando que esse jornal era de um picareta, imagina, eu, picareta? Sou um homem honesto” “Passa lá amanhã cedo”. Enquanto tive o jornal na minha mão, tive o rodapé muito bem pago pelo senhor Weege. Então são coisas assim, de cidade pequena. Foi uma experiência válida.

Que tipos de notícias publicavas neste jornal?

Notícias variadas. A Prefeitura também dava suporte, claro. Sempre tem que ter esse lado. Os jornais morreram por aí.

Foram só esses três?

Só esses três, o Opinião, Entrevista e o Jornal de Pomerode, Pommer Zeitung.

Citaste o Norton Azambuja, disseste que vocês tinham uma relação de irmãos. O Norton Azambuja era uma figura muito polêmica da cidade. O que poderias falar do Norton? Qual era o seu perfil? Quem era o jornalista Norton Azambuja?

O Norton Azambuja era muito ferino. Sai da frente que ele não perdoava ninguém. Ele teve uma guerra muito grande com o Luís Antônio Soares. Luís Antônio era editor chefe do Jornal de Santa Catarina, e o Norton era colunista. Ele perseguia o Norton a torto e a direita, e o Norton não se dobrava. Tenho um incidente que considero engraçado. Nós estávamos no restaurante chinês, o primeiro que ainda existe, ali em frente a casa Flamingo, em uma mesa de jornalistas, e o Luís Antônio chegou e começaram a discutir. Ele ameaçando demitir o Norton. Sei que o Norton o chamou de “Lubke”.

O que seria “Lubke”?

É um cidadão de Blumenau.  Esse Lubke foi responsável por um desfalque em uma das lojas principais. “Estou falando de um Lubke jardineiro, lá na Velha, famoso.” “Mas por que me comparas?” “Por que você é um podador, vive podando a minha coluna”. Ele tinha essas saídas magníficas. Então no fundo, o Luís o admirava, como admirava a mim, embora ele tivesse, o Luís, recebido pauladas, principalmente do Entrevista, o nosso prato preferido. Ele tinha uma coluna no Santa, Ponto de Vista, que nós chamávamos de Vista do Ponto, e criou um personagem, o Negão.

Isso o Luís Antônio Soares?

O Luís Antônio, na sua coluna diária, botava na boca do Negão uma observação qualquer sobre uma situação da cidade.

Ele intitulava o personagem de Negão?

De Negão. Aí não tivemos dúvida, racismo. Achamos um desenho, uma charge, um acarapinhado, ele ficou uma fera. No Santa ele foi para o Aurélio, alegando que Negão poderia ser afetivo, e não tinha nada com cor, eu sei que ele saiu-se mal. Nós publicamos aquele charge com falas que caracterizam a cor dele. E Luís, certa feita, espalhou, chegou aos meus ouvidos, isso ele não escreveu, não teve coragem, que eu não era jornalista. “Gervásio não é jornalista, é crítico literário, só”. Não tive dúvidas, foi o Pasquim de novo. O Fausto Wolff tinha publicado uma página inteira com aquele linguajar solto do Pasquim, relacionou 50 pessoas, jornalistas, artistas famosos, dizendo assim “Vinícius de Moraes é bicha” “Tônia Carrero é bicha” “Jaguar é bicha”, “só eu que não sou bicha”. Mas que coisa. Eu digo “Vou me vingar do Luís”, eu não sou jornalista. Peguei o expediente do Santa, onde ele trabalhava, comecei “Luís Antônio Soares é jornalista”, fui pegando umas pessoas de comercial que eram jornalistas coisa nenhuma. Fui botando todas as pessoas que eu achava que tinham pendor para jornalismo e não eram jornalistas, no final coloquei “Luís Antônio é jornalista, só eu que não sou jornalista”. Quem me conhecia sentia a ironia. Aí uma aluna minha veio para mim, na saída de uma das aulas no Santo Antônio, “Professor, que pena, o senhor não é jornalista.” “É, não sou, querida. Você leu muito bem o meu artigo, ao pé da letra. Sabe como interpretar um texto”. (risos) Esse texto saiu em jornais de Brusque, Itajaí, Gazeta de Gaspar, saiu em jornais daqui da cidade, pequenos. De repente o Luiz Carlos Nemetz, outro ex-aluno – cada nome que eu citar vai sair ex-aluno. O Mauro Amorim,  jornalista de Florianópolis, quando vinha passar umas temporadas aqui na Oktoberfest, dizia, “Não dá, Gervásio, cada esquina que para, para falar, é ex-aluno, não escapa ninguém”. (risos) Acontece que o Luís Antônio, como editor do Jornal de Santa Catarina, foi espiar o jornal da Furb, o Campus, que era impresso no Jornal de Santa Catarina. Gestão do Luiz Carlos Nemetz, e simplesmente tirou o nome dele na última linha, o que caracterizava a implicância. Tirou, não podia fazer isso. O diretório acadêmico estava pagando ao Jornal de Santa Catarina.

O jornal era impresso no Santa?

Era impresso no Santa, e ele manipulou. Apesar de tudo, dessas implicâncias, cutucadas que eu dava, escrevia “de jornalista o Luís tem só ares”, um trocadilho infame. Mas eu escrevia, ele não tinha coragem. “Não vai responder, Luís?” Ele, “Eu não respondo para jornal pequeno”. Foi um episódio engraçadíssimo, quando ele lançou o livro dele, e quando eu lancei o “Rio que Passa em Nossas Vidas”. Ele foi um que estavam na fila para prestigiar e receber autógrafo. Quando pegou o livro, ele olhou, “Só 76 páginas?” Eu disse “Luís, graças a Deus, a Fundação é que encomendou o livro, me deu só 76” “Ah, mas o meu vai ter 300 páginas” “Ótimo! Que o teu tenha 300. Felicidade tua”. Depois me telefonou e pediu o prefácio. Ele gostava de mim, de todas as minhas implicâncias e cutucadas que ele nunca respondeu, Mandei uma lauda, se não me engano, ele telefona e diz “Olha, Gervásio, acho que não preciso daquele prefácio não, o Moacir Pereira já fez.” Eu disse “Luís, vou analisar esse teu livro de trás para frente”. Saiu como depoimento, um pedacinho, mas saiu. Na noite do lançamento, o Moacir Pereira que era meu amigo estava aqui no Carlos Gomes, muita gente, muito concorrido, cumprimentei, vi ele autografando o livro para o Moacir e para mim nada. Não iria pedir, eu falando com a Rose, a esposa dele, os filhos, as filhas, tinham sido minhas alunas, muito queridas. Não iria pagar o livro, tinha feito o prefácio. Passou uma semana e eu liguei para ele, em um sábado. Disse “Luís, e o livro?!” “Está nas melhores livrarias do ramo.” Eu digo “Estás enganado, o meu exemplar eu quero hoje, aqui autografado, ou vou fazer uma outra análise do livro”. De tarde o livro estava lá, autografado, não fui nem eu que recebi. Pedi para que alguém pegasse o livro, apesar disso a gente se dá muito bem. Encontramo-nos na rua e é como se não tivesse acontecido nada, não houve nada. Mas vamos falar...

Do Norton.

O Norton começou no A Nação. Tenho um artigo com a coluna que ele bolou, engraçado, TLG, era Teatro, Livros e G de Geraldo, não sei. Também era tudo, mas ele não tinha medo. Quando precisava dar uma fisgada nos reitores da Furb, fosse o Bráulio, escritor, ou o prefeito, ele escrevia com uma liberdade total. E nós fomos muito amigos. Tanto que quando o Entrevista ressurgiu nessa edição do Cascaes, que também ficou só naquele número, voltou triunfalmente e morreu, nós fizemos uma entrevista um com o outro, contamos as nossas vidas, com participações especiais. Estávamos na praia de Navegantes, na casa dele, fizemos uma entrevista bem espontânea, tipo o Pasquim. Um falou da vida do outro, um analisou o outro, foi bem interessante. Ele era de uma inteligência excepcional, mas morreu muito cedo. Ele também nunca pensou em ter um livro, já devo ter dito, eu nunca pretendi ser escritor. Quando me convidam, com o material, eu publico, mas a minha sede mesmo, a minha realização é ver o texto em jornal impresso. Bom, agora vamos ver como a política pode influenciar a vida de um jornalista ou aliciar a vida de um jornalista. Vou contar dois episódios que ocorreram comigo. Como eu disse, trabalhava de manhã no colégio, de tarde jornal, à noite colégio. E de repente, eu dava aulas no Pedro II. O Geraldo Luz, meu primo, uma figura, professor de História, aquele professor de História sem decoreba, ele fazia interpretar a história. Ele queria a interpretação. Que o aluno entendesse o fato histórico. Muito calmo, uma maneira de falar muito engraçada, calmo demais. Geraldo, por exemplo, gostava de tomar um cuba, então era o ritual. Pegava aquele copo, levantava, dizia umas palavras, colocava o copo na boca. Vai beber ou não vai? Acabava bebendo, claro.

E da mesma forma era em relação à poesia. O Geraldo era um poeta que retrabalhava o verso muitas vezes.

Muito, tanto que nos livros que lançou, os poemas voltam reciclados. Ele tem versos bonitos “Manhã, porém já tarde para um outro despertar”. Outro que eu gosto muito é “Os que possuem a consciência de cristal, é permitido recriar as leis”. Gostava muito do meu primo como pessoa, como intelectual, como professor e como poeta. É uma poesia rebuscada, não é uma poesia fácil. Muito interessante as suas influências, que recebeu de pessoas, conhecidos, poetas que o influenciaram. O Geraldo Luz, com essa calma toda, tem um episódio engraçadíssimo. Teve uma eleição da UBE14. O candidato de uma das chapas era o Péricles Prade, que vocês já entrevistaram, meu amigo também de infância. Falando nisso me lembrem de falar dos cronistas sociais. Tenho uma bomba para contar (risos). Bom, o Geraldo era candidato na chapa como orador, e o comício foi no Clube Náutico América, hoje tem aquele esqueleto, na época funcionava o clube, tinha um restaurante, bailes. E o Geraldo, com aquela calma exagerada, foi fazer o discurso e começou: senhores e senhoras. Deu-se aquele silêncio magnânimo. Senhoras e senhores, repito, foi esvaziando o público, Péricles perdeu a eleição. (risos)

Como que a política pode influenciar na vida de um jornalista?

Influência não, mas proporciona certas regalias, oportunidades. Eu nunca pensei que o jornalista não deveria ser de partido político. Eu entrei no PTB por circunstâncias, por insistência do Norton.

E ele insistiu contigo por quê?

Botou na cabeça que eu deveria ser vereador. Se ele estivesse vivo naquele ano da eleição, talvez eu tivesse um pouquinho mais de voto. Ele teria ficado pendurado no telefone, falando para todo mundo. Foi em 88 a eleição, o ano em que ele morreu.

E por que o PTB, Gervásio?

Por amizade com o Cascaes.

O Norton era filiado ao PTB?

Não. Nunca foi filiado a nada. Que eu saiba não. E havia um jornal chamado Tribuna do Vale do Itajaí. A redação era no escritório do deputado Aldo Pereira de Andrade, esquina da Nereu Ramos com a Sete, um prédio onde hoje tem um restaurante embaixo, informática, pé de esquina, cor-de-rosa. Era o escritório do deputado, ele publicou para divulgar o Aldo, que chegou a sete legislaturas, por pouco ele não recebe o Guinness, de tantas vezes que foi reeleito. Blumenau não o quis prefeito, não adiantou, mas como deputado ele sempre se reelegia.

Quase um deputado vitalício.

É. Deputado vitalício. O Geraldo era muito moroso, fez uma edição do Tribuna e não queria continuar, indicou-me. O Aldo, o deputado, teria dito “Mas o Gervásio não vota em mim”, eu tinha fama de nunca votar na situação. Eu era do contra. “Ele pode não votar no senhor, vai continuar não votando, mas que ele vai fazer um jornal para o senhor, ele vai”. O deputado me chamou. “Mas não dá, deputado. Tenho o colégio Santo Antônio à tarde, e à noite o Pedro II”, acho que na época não estava em jornal grande. E ele “Dá sim. O que você quer?” “O que eu quero? Queria um tempinho para fazer o seu jornal”, mas, o jornal quinzenal também não precisa de tanto tempo assim. “Você vai ser assessor da quarta Ucre”.

Ucre eram as coordenadorias de educação estaduais.

É, ali na esquina do Pedro II com a Alameda. Ele ligou para o Valmor Buss, eu era professor dos dois filhos do Valmor. Era um “Pois não, deputado? Pois não, deputado?”. No dia seguinte fui apresentado. Valmor foi de uma sinceridade sem fim. (risos) Total. “Gervásio, meu candidato, criaram esse cargo de assessor.” “Candidato não vou ser não.” “Eu iria trazer o Danilo Gomes para cá, mas o deputado quer...” Então era legal, fui transferido, cedido pelo Pedro II a uma coordenadoria de educação, certo? Ali fiquei quatro anos, até que mudou o governo, entrou o Pedro Ivo Campos, se não me engano, entrou o PMDB. Entrou uma nova diretora lá, e eu ouvi um zum-zum que ela iria me cortar e saí. Claro, fiz a minha queixa ao Renato Vianna, que foi lá e deu uma bronca nela. Mas eu estava afim de voltar para o colégio. Voltei para o colégio numa boa. Atitude legal, descansei da sala de aula durante um bom tempo, prestei meus serviços a Ucre, sempre incentivando a cultura. Levei aos colégios livros, campanhas, fiz o que podia, até extrapolando minha função. Acontece que veio outra grande oportunidade de eu ter uma posição boa em um jornal grande. Minha mãe, que eu já disse, era de Itajaí, Elga Luz, foi ao Rio de Janeiro visitar as irmãs e, no mesmo voo, estava o Jorge Bornhausen, que na época era governador do estado. Como mamãe era muito amiga da Marieta Konder Bornhausen, mãe do Jorge, o Jorge perguntou como eu estava. Mamãe – sabe como toda mãe – “Ele está realizado como professor, como jornalista, mas ganha tão pouco”. Resultado, mamãe voltou dizendo “O Jorge quer que você se apresente no Jornal de Santa Catarina”. Até então não tive participação alguma no jornal. Mais tarde, no final dos anos 80, eu me tornei colunista. Fui lá saber o que é, “Gervásio, você...” veio me comunicar o Paulo Malburg, que era da direção do jornal, da Companhia Hering. O Jorge no fundo era o dono do jornal, era governador, botou ali uns aliados, botou o Flávio de Almeida Coelho.

Mas isso já era na época da RBS?

Não, não tinha comprado. Muito antes, e põe antes nisso. Levei um susto “Editor do Santa? Mas eu vou topar. Como vou conciliar?” Aí falei “De manhã tenho o Colégio Santo Antônio, não vou largar o meu colégio, de jeito nenhum.” “É, mas o editor teria que estar de manhã, e já que o Dr. Jorge quer você, pode vir à tarde.” Veja a força de um político (risos), achava graça. Fizeram os telefonemas, conseguiram. Imagina só, que eu fosse cedido pela Secretaria de Educação para trabalhar no Jornal de Santa Catarina. Tem nada a ver, o escândalo que poderia ocorrer depois. Como governador, tudo bem, tem força para isso, mas eu não podia aceitar, por uma questão moral, de princípio. Sair da sala de aula do Colégio Pedro II e ir para uma assessoria de imprensa, em um órgão da educação ligado ao governo, é uma coisa, é legal, mas pedir para uma empresa privada? Ainda o seguinte: eu receberia do jornal e receberia do estado. Tive que dizer um sonoro não, lamentando muito. Mais tarde, uns dez anos depois, fui contratado como funcionário, como eu já disse. Editei o Lazer.

Esse episódio do Jorge Bornhausen é de quando?

Foi na década de 80 que ocorreu isso. Fico muito grato ao Jorge, um gentleman, ele foi gerente de um banco em frente do falecido Cine Bush, tinha um banco. No prédio dos correios, onde hoje é uma loja, naquele prédio suntuoso. Ele era presidente. Fui lá uma vez tratar não sei que assunto da mamãe, e ele me tratou muito bem. Tenho admiração por ele. Mas nunca votei e nunca votaria nele, como eu sempre disse, se está no poder, Gervásio está do outro lado.

Pediste para abordar a questão dos cronistas sociais...

Talvez influenciado pelo Stanislaw Ponte Preta, talvez não, e também por aqui. Eu conheci o Luiz Antônio Soares, eu garoto e ele já estava em jornal, era cronista social aqui da juventude. Nunca esqueço, entrava no Carlos Gomes quando tinha qualquer acontecimento, ia de fila em fila, tomando nota, olhando as meninas. Mas não foi só o Luiz Antônio Soares que principiou na crônica social ou na coluna social    . A palavra crônica é boa demais para esse gênero de jornalismo. Lindolfo Bell começou como cronista social. Péricles Prade começou como cronista social. Marcílio Medeiros Filho, bom cronista, hoje está afastado, cronista social. Onde é que se vê isso? Existia uma revista do Vale, Revista Social do Vale, com as colunas assinadas por Péricles, pelo Lindolf.

Que tratavam do quê?

Era puro registro.

Fotografias, festa de debutante...

Da parte do Bell e do Péricles, que eram de Timbó, eu não esqueço, a grande reportagem era uma festa junina, pessoal vestido de caipira. Registro simples, noivados, namoricos, fuxicos, claro que eles não iriam incluir na biografia, se tornaram bons escritores, poetas. Com o Lindolf Bell eu tive uma relação, não diria de amor e ódio, porque seria um exagero, mas eu, implicante como eu disse, era muito crítico. Assisti a entrada do Lindolf em Blumenau. Eu já estava na imprensa. Fomos apresentados e achei que ele se endeusava demais. Na minha coluna do jornal A Nação, fiz uma nota bem maldosa sobre ele, “Como poeta, autopromove-se, toma carraspanas de vinho com coca-cola”. Cutuquei com vara curta, dizendo que ele aparecia mais em crônica social do que em sessão de crítica literária. Na época, sei que a Elke me pega na esquina, meu Deus, eram noivos na época, a Elke Hering, “Gervásio, porque insistes tanto em implicar com o Bell?” Esses anos todos correram e eu não achava o Bell, assim, aquele poeta! Dizia mesmo, poeta de um verso só, “Eu vim da geração das crianças traídas”. Hoje mudei totalmente de opinião. Quando ele faleceu, era festa de 60 anos, eu nem iria, mas estava acompanhando. Nos dávamos bem, ele reconhecia o que eu fazia, ele lançava aquelas coletivas, fazia aquelas exposições no Carlos Gomes, eu levava os meus alunos, falava com o Frei Wilson, pedia autorização. Colegas meus tinham inveja, achavam que era matação de aula, que nada! Eles iam com questionário. Filho de gente rica, que o colégio era mais de elite, nunca tinha entrado em uma exposição. No questionário que valia nota, pedia para visitar toda a exposição, se tivesse algum artista, eles entrevistavam, falavam com o Bell. Eles tinham que escolher um artista, uma obra, por que a técnica de construção da obra. O Bell reconhecia isso. Mandava convites para universitário, não ia ninguém. Aquele grupinho do Santo Antônio religiosamente, todo ano, batia ponto. Depois que o Bell morreu, quando ele morreu, cheguei à conclusão que o que eu achava exagero da parte dele, ele estava certo. Ele hoje não seria lembrado se não tivesse feito aquela mídia toda em torno dele mesmo. Comecei a descobrir versos realmente bonitos, extremamente líricos, com mensagem, além daquele das Gerações das Crianças Traídas, que por maldade dizia que era o único verso decente. Nos tornamos bons amigos, tudo com amadurecimento, como eu disse, coisa de jovem.

O Martinho Bruning, qual a relação que vocês tinham?

O Martinho era um senhor muito reservado. Eu o conheci porque era muito amigo do Geraldo, ambos eram poetas. Por isso tive pouco contato com o Martinho, mais com a esposa que era artista plástica. Papai e mamãe eram padrinhos de casamento do Martinho. Depois que ele faleceu, ela fez questão de me dar toda obra dele. Os haicais dele são profundos, bom poeta, poeta sério, que retirou do próprio bolso toda a sua obra. Não foi reconhecido como deveria pelo que ele publicava nos primeiros livros, em textos nos jornais, alguma editora deveria ter se sensibilizado. Então, só para mostrar agora, continuando esse papo, uma época escrevi uma nota, faz tempo já, tempos do Bell, as primeiras exposições artísticas de Blumenau, “Inflação de Poetas”. Todo mundo em Blumenau era poeta. Aí fui em uma exposição ali da Prefeitura, na Fundação, me vi cercado por Tadeu e outros “É, tem um cara aí denegrindo nossa imagem.” “Tem um cara não, sou eu! Alguma coisa contra? Me prove que tem alguém aí. Não tem! Manda um poeminha para o jornal, publica e é poeta, mesma coisa que mandar uma carta para o Jornal de Santa Catarina ou para qualquer jornal, ‘eu sou jornalista’. Não dá!”. Felizmente, no correr dos anos, foram aparecendo bons nomes, hoje é fácil publicar livros em antologias.

Gostaria de uma leitura tua do jornalismo, continuas jornalista, escrevendo para jornais de Gaspar, Blumenau, enfim, mas daquele momento em que atuavas de uma forma ainda mais profissional, quando o jornalismo era o teu ganha pão.

De redação, dia-a-dia?

Isso, redação, edição, ou seja, a década de 70, 80 e o jornalismo que é praticado no Vale do Itajaí hoje, que comparações, diferenciações tu estabelecerias?

Eu diria, e não me chame, por favor, de nostálgico. Embora eu seja um saudosista de marca maior. Uma época, antes de assumir como profissional no Santa, editor do Lazer, 5 anos, tinha uma coluna semanal chamada “Tessaleno” mesmo, depois, no final. é que vinha o meu nome todo. Já estava começando a invasão dos gaúchos. De repente a minha coluna some no ar, a editora chamava-se Débora Matte, uma gaúcha.

Ela era do Santa?

Do Santa. Editora do Lazer. Eu telefonei para ela.

O Editor-geral era o...

Pimpão. Altair Carlos Pimpão, da TV Galega. Aí eu reclamei “O que houve?” “Você só escreve sobre o passado”. Estava entrevistando músicos da época em que estava bem moderninho, mas, enfim. Fui ao Pimpão. No Brasil, já disse “Amizade é fundamental em tudo”. A minha mãe, Elguinha, entra novamente em cena, era muito amiga da Zulma, esposa do Pimpão. E eu conhecia assim... Fui a ele “Mas Gervásio, não posso fazer nada”. Ele não era aquela mão de ferro, aquele temperamento. Mas a ironia da vida. Aceitei. Saí porque era saudosista demais, só falava do passado. Um ano depois Pimpão lança livro “Recordar é viver”. (Gargalha) É de matar, não é? Vou dizer que aquela época de jornalismo intenso, era uma época romântica da máquina de escrever, não por isso só, da cata de notícias. O repórter saía doido a procura de uma notícia, e do tal do furo, que hoje em dia não existe mais, dar em primeira mão uma notícia. Depois, tenho dois episódios reais que vou ilustrar e que têm relação com a Furb. Hoje não, se eu for em uma redação de jornal, todo mundo em seu computador, precisa de uma informação, o próprio aparelho fornece. Não há mais aquela investigação profunda. A notícia que saí em um jornal, sai no outro, com variação de estilo e pronto. Contando agora dos furos. Eu trabalhava no Jornal Estado, não tinha repórter na época e me telefona o editor de política, “Gervásio, tenho uma bomba de Blumenau: ARENA15 de Blumenau vai romper com Colombo Sales”. Colombo foi o primeiro governador eleito fora das oligarquias, mas com apoio, claro, se não ele não teria sido nomeado, embora indicado por militares. Blumenau queria mais representatividade, mais secretarias, não tinha nenhuma, se eu não me engano. “Tu tens que levantar isso!” Eu digo “Meu Deus, são seis da tarde!” Era para o dia seguinte. ARENA rompe ou não rompe com Colombo? Mas não tinha saído nada, em jornal nenhum. Lembrei-me do deputado federal Abel Ávila dos Santos, que era meu vizinho. Foi várias vezes reeleito, tijucano. E lá fui eu para a casa do Abel, fundos da Alameda, Rua Amapá. Tinha saído do banho, pediu que esperasse um pouquinho, eu abri o jogo. “Não tem nada disso Gervásio.” “Não vá me enganar, e a amizade sua com o meu pai?” O pescador... “É, mas não posso dizer nada”. Sabia que ele estava com segredo a sete chaves na mão. Penso, “Vou sair daqui com essa notícia”, “Deputado, é só para mim, tá? Porque não há mais tempo, já são sete e meia, agora o jornal já está fechando”. E ele caiu na minha isca de pescador. Dia seguinte o Estado “ARENA de Blumenau rompe com Colombo”, manchete. O secretário da casa civil era o ex-deputado de Taió, Orlando Bertoli. Diz que ele chegou de carro, entrou no Grande Hotel Blumenau, onde era a reunião, pegou o Jornal Estado. Meu Deus, que bomba! Acontece que o Jornal Santa Catarina era arenista, o Estado não. O Estado sempre foi independente. O Aderbal, apesar de ser político, tinha sido governador... E eles estavam uma fera. O Santa Catarina, que era do governo, sabia de tudo, não publicou, ficou esperando a confirmação. Diz que o Luiz Soares batia na mesa, “Quem foi o fdp que deu a notícia?”. O deputado Abel baixou a cabeça. O Santa ficou doido, pois havia um acordo de não divulgar a notícia.

E o segundo furo?

O segundo furo não foi bem furo. É mais, como eu diria, sorte. Houve um crime em Indaial. Pica-pau matou industrial, um bandidinho, cidadão apelidado de Pica-pau, matou ali no Ribeirão da Mulde. Atrás da igreja assassinou um industrial de Indaial. Eu saí cedo, de táxi, e o Santa passou com aquele carro de fotógrafos. Sei que quem conseguiu entrevista com o Pica-pau exclusiva fui eu, porque era amigo do delegado, não deixaram o Santa falar com o suspeito. Então é sorte.

Havia uma disputa entre o Santa e o O Estado?

Existia, porque o Santa não admitia, não foi lançado como jornal regional, foi lançado como jornal estadual, tinha a sucursal lá no Oeste, em tudo que era lugar. Hoje ele está circunscrito ao Vale e ao Litoral, restrito a essa área. Então, não admitia, o Estado já era meio decadente. O Estado não era offset ainda. Havia essa rivalidade.

Recentemente foste cronista no Santa. Colunista semanal.

Foi em setembro de 2004... acho que comecei.

Alguma diferença em relação ao leitor de agora para o leitor na década de 80, na década de 70?

Eu notei muita sensibilidade. Interesse pela leitura. Talvez antes eu não auferisse isso. Quando eu atuava mesmo como repórter do dia-a-dia, não me preocupava tanto com a repercussão, então era espontâneo, não saía perguntando para as pessoas “O que achou daquela minha crônica sobre isso?” Não. Às vezes uma velhinha me encontrava “Adorei aquele seu artigo sobre o cachorrinho”. Eu sentia uma receptividade muito grande em relação aos leitores, senti que há realmente leitores para cronistas. Aliás, não admitia que um jornal não tivesse um cronista na parte literária diária. Os grandes jornais sempre provaram isso, o Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã. O cronista é a presença da literatura no dia-a-dia. No jornal a crônica se perde, por isso a maioria dos cronistas que atuam em jornal, acabam publicando em livros que ficam perenes, quando o assunto é perene. Factual a gente não inclui em livro nenhum.

Sobre esta comparação...

Que eu acabei não respondendo ainda bem. Eu diria o seguinte, era romântico. Imagina a situação que vou contar agora. O João Vieira foi um dos jornalistas que me marcou, foi incentivador. Quando comecei a escrever em jornal, ele tinha o Espiando a Maré, o Mano Jango. João Vieira era o nome dele, funcionário da Estrada de Ferro de Santa Catarina, um boêmio, bon vivant, autodidata, leitor de Humberto de Campos, Pitigrilli. Ele tinha uma coluna diária muito gostosa, se comunicava muito bem, o Espiando a Maré, uma homenagem as suas origens litorâneas, de Tijucas. Soube há pouco tempo pelo Bernardo Tomelin, que foi o tipógrafo do Jornal A Nação.

Um mestre tipógrafo

É, um mestre, e depois de aposentado ele foi trabalhar na Fundação Cultural e teve essa coincidência. As minhas primeiras colunas foram compostas em linotipo pelo Bernardo. Meu livro foi feito por ele, décadas depois. Fazia com carinho, uma pessoa excepcional, último guerreiro. O tipógrafo, uma raça em extinção. O Paulo Jacques, também foi outra figura, já mencionei, redator-chefe do Jornal Vanguarda e Ronda, e depois teve uma coluna, Bunker, no A Nação. Portador de um estilo ímpar, carioca que acabou vindo a Blumenau. Tinha uma fofoca que ele era da “Cenimar”16, agente da revolução, da marinha, mas nunca se provou. Sabe-se que ele tinha um bom relacionamento com os militares, segredos que ele sabia e levava aos jornais. O Paulo era engraçado, isso eu já escrevi, depois que ele faleceu. Paulo era extremamente gago, era difícil, dependendo do dia e do nervosismo, entendê-lo. Mas, em compensação, assisti a essa cena, ele sentado à máquina de escrever, na redação do Jornal Ronda ou a Vanguarda, e o Nagib Barbieri diz, “Hoje o editorial é sobre o Ivo Silveira, governador”. “A favor ou contra?” E com a mesma facilidade de escrever a favor ou contra, ele tinha ali na máquina de escrever um editorial de primeira, vindo de um jornal de grande capital. Tanto que o Carlos Lacerda esteve em Blumenau, ciceroneado pelo Norton Azambuja. Carlos Lacerda estava lendo A Nação, viu aquela coluna Bunker, leu e disse “É o melhor cronista político de Santa Catarina, nunca vi escrever tão bem”. Impressionante. Também me influenciou muito na maneira de enfocar uma notícia, sondar e noticiar a notícia. Nunca fui processado, porque sempre tive base. Tenho um caso engraçadíssimo, isso quase me valeu processo. Ocorreu na redação do Vanguarda, em frente ao cine Bush, na Alameda Rio Branco. Era um sábado de manhã, estava o Nagib proprietário, o Paulo Jacques, redator-chefe, o tipógrafo buscando os seus tipos e entra o Osmar Jacobsen, professor do Pedro II. Ele tinha sido criticado, tinha pretensões de deputado federal, alguma coisa assim, e o Jornal A Vanguarda tinha torpedeado o militar. Ele chegou todo fardado com uma varinha que o militar tem, não sei o nome. Entrou, olhou todo mundo, sério, bateu em uma máquina de escrever, “O que é isso?” O Nagib, descendente de Turco, não tinha papas na língua, “Máquina de lavar roupa.” “Exijo respeito à autoridade”, disse o militar. “Para pergunta besta, resposta cretina.” O militar baixou a cabeça e foi embora. Eu escrevi isso, escrevi essa historinha, saiu nos jornais em Brusque, aqui, Gaspar, sem repercussão. Saiu no Santa, recebo um telefonema, era o Nagib Barbieri.

Saiu no Santa, quando?

Na década de 90, a historinha bem completa, nome do major. Diz o Nagib Barbieri, que tinha sido como dono de jornal um pai para mim, não era funcionário, nem isso, colaborador, para mim foi um incentivo, além de me dar total liberdade na escrita. Diz assim, “Que pena, um moço tão inteligente está descendo a colina”, Nagib Barbieri no telefone. Eu digo “Por que, Nagib?” “O major Jacobsen não gostou daquela história, ele vai te processar.” “Mas que beleza, Nagib. 35 anos que estou em jornal, intiquei com Deus e todo mundo e nunca fui processado, mas agora, e ainda por um militar, da ditadura!”. Ele ficou quieto, “Passa aqui para tomar um cafezinho”. Não deu em nada.

A crítica que fazias ali na década de 80, dizendo que em Blumenau o indivíduo publicava qualquer coisa e já era poeta, que não vias grandes coisas que valessem a pena naquele tempo. Como avalias o cenário cultural, principalmente o literário, na cidade e região hoje?

Hoje está diferente. Aquele meu ceticismo em relação a valores. Fui aluno em cursos de preparação para lecionar português, de literatura com o Celestino Sachet. Celestino, admiro muito, até hoje nos damos muito bem, ele tinha uma visão muito grande, então ele deu uma aula que foi um show. Até publiquei isso, mas acredito que esses escritos não existam mais. Ele disse que não existe literatura de Santa Catarina, existe literatura em Santa Catarina. Por quê? Porque é um estado diferente. Você fala de literatura baiana. Jorge Amado, João Ubaldo, qualquer autor baiano logo é percebido não só pelas palavras utilizadas, porque o baiano é único, tem características próprias. O gaúcho, Érico Veríssimo, Mário Quintana provaram isso, entre outros, o gaúcho tem aquele tipo. Santa Catarina é uma miscigenação, uma mistura de raças, de imigrantes.  Jocosamente o Celestino desenhou um mapa e tinha a gadolândia, que era a região de Lages, dos escritores de Lages. A Verafischerlândia era a nossa região, aqui do Itajaí. E para cada região do Estado ele bolou um nome que caracterizava a influência maior. Quando deixei de lecionar em 92, se houve um escritor que indicava aos meus alunos – eu cobrava leitura – foi o Enéas Athanásio, de quem sou muito amigo hoje. Sempre o achei um ator regionalista de primeira. Acho o Enéas admirável. Ele reverencia o Monteiro Lobato, mas é um escritor de fôlego. Tem mais de 30 obras, a maioria, grande número, eu tenho aí, ele me manda sempre. Admiro muito o Enéas Athanásio. Então, nós tínhamos um autor muito bom. Até uma época publiquei, saiu em um jornal acadêmico, no tempo do Olsen, da esposa, na época a Maria Odette, saiu uma declaração minha comparando a nossa literatura à BR 101, em termos de literatura. Um era do Paraná, o outro no Rio Grande do Sul, zero em Santa Catarina. Não existia literatura aqui, quer dizer, existia literatura feita em Santa Catarina, por pessoas vindas e outros estados, das mais variadas regiões, mas não tinha aquela característica genuína “Esse texto é catarinense”, por essa diversificação cultural. Hoje acho que temos, além da facilidade de publicar livros, tão difícil quando comecei a escrever jornal. Em jornal não era tão fácil, tinha poucas editoras. O autor, se ele não tem financiamento, se vira de qualquer jeito. Enfim, hoje nós temos nomes de expressão na prosa. Admiro muito o Adolfo Boos Júnior. O Geraldo era amigo dele, era do Banco do Brasil, trabalhava em Brusque. Geraldo o conheceu em Florianópolis, em um curso que fez. O Amigo Velho, primeiro livro dele, eu tenho. E coincidiu que fui apresentado ao Aldofo Júnior na rodoviária de Florianópolis pelo Mauro Júlio Amorim. Falei desse livro, que eu tinha. Contou-me um episódio engraçado que tinha ocorrido com ele em uma feira de livro. Perguntaram se ele fazia versos, disse “Não, eu não sou poeta, sou contista, uma vez contista, contista sempre.” Uma vez cronista, cronista sempre, essa frase para mim serve. Admiro poesia, mas não sou poeta. Não teve dúvida, no dia seguinte o jornal de Curitiba publica “Uma vez poeta, sempre poeta”, são coisas incríveis. Nós temos bons nomes em Santa Catarina.

E no Vale de Itajaí? Qual tua opinião sobre a produção literária contemporânea no Vale?

Vou me referir só a prosa, que é o meu forte. Não é dor de cotovelo, não é frustração. Admiro poesia demais, mas não sou poeta, nunca tentei fazer versos. Cometeria versos, se tentasse, não faria. Então, a minha admiração é a crônica. Nós temos bons cronistas aqui no Vale do Itajaí. Poderia citar o Maicon Tenfen, como romancista, também contista. Tem você que eu admiro pelo livro de crônicas, pode ficar na crônica, acho que tens um estilo muito bom que transmite sensibilidade. Eu te saudei, “Salve o cronista”, quando lançaste o teu livro “Sob a Luz do Farol”. Gostaria de citar a Ana Maria Kovács, ficaria nesses.

Teu olhar é otimista em relação ao que se produz hoje?

Mais ou menos. Não sou otimista não. Mas espero que apareçam novos valores. Sempre incentivei. Como professor, quando pegava um texto um pouco diferente, algo criativo, que fosse do aluno mesmo, publicava com o nome dele, como fiz com chargistas também. Tenho esperanças. Fomos a Florianópolis, estamos cheios de bons nomes lá, além do Salim. Tem uma série de cronistas que têm muita qualidade. Um escritor que eu admiro demais, tornou-se meu amigo, tenho praticamente todas as obras dele, o ex-monge Júlio de Queiroz, pessoa maravilhosa, me manda todos os livros dele e eu os devoro todos. Gosto muito das crônicas e dos contos dele.

Repetiste algumas vezes, até nesta entrevista e em outros momentos, que teu lugar sempre foi o jornal, que é um lugar efêmero. O jornal por si só tem o prazo de validade de um dia. Entretanto, em 2001, a editora Cultura em Movimento lança O Rio que Passa em Nossas Vidas, teu primeiro livro.

O Rio que Passa em Nossas Vidas, eu sempre digo que eu não pretendia lançar livro. Aí aquela ideia do Bráulio de aproveitar os 150 anos, lançar um livro para a editora, e que tivesse alguma relação com Blumenau. Disse “Bom, vou pegar as minhas crônicas”. Para mim foi uma coisa muito engraçada, achava que eu era apenas colunista, e admirando os cronistas. E já estava fazendo textos maiores do que notinhas pequenas. Quando o Bráulio fez o convite, fui olhar meu material, “bom, mas isso aqui é crônica, não te valorizavas, está cheio de crônicas aí”. Comecei com uma necessidade visceral de toda semana escrever um texto que nasce assim, espontaneamente. Deixei de dar aulas. Quero morrer escrevendo. O Rio que Passa em Nossas Vidas foi um sucesso porque eu soube fazer mídia. Quando o livro estava pronto para ser lançado, mandei para tudo que é jornal, tudo que era colunista na Notícia, Estado, saiu em tudo, além disso, convite para ex-alunos, jornalistas, radialistas, gente de TV. Foi um sucesso, tanto que eles não tinham confeccionado um número suficiente, e continuou vendendo, saiu uma segunda edição. Lançado em março, saiu uma segunda edição em novembro, parei por aí. Foi quando, em 2007, a Cristina Marques convidou-me para lançar, dentro da coleção Joias Literárias, a crônica, que seria minha. Nasceu “Crônica, Doce Crônica”, dirigido ao público infanto-juvenil, mais juvenil, e agora estou com esse livro do Odorico, que quero lançar. É uma biografia.

Poderias falar um pouco do livro que escreveste, que ainda está no original, a respeito do Frei Odorico.

Só falta colocar as fotos, não vou mexer em mais nada. Ele já faleceu, faleceu em 94 e não houve lançamento, ninguém se dignou, prestou e se interessou em lançar a vida dele. E surgiu também por acaso, não tinha surgido ainda o Rio que Passa em Nossas Vidas, e eu não pensava em ser escritor. Foi quando, lá em Florianópolis, na praia de Caieira da Barra do Sul, passando umas férias na casa do Mauro Amorim, jornalista, hoje também escritor, ele disse “Gervásio, o que vais fazer agora, aposentado. Não está faltando alguma coisa?” “Não está faltando nada, continuo escrevendo jornal.” “Tens que lançar um livro.” “Um livro?” “É, uma biografia” “Começar logo com biografia? O meu forte é a crônica, não me apetece fazer biografia.” “Do Frei Odorico, és a pessoa mais ligada a ele”. Aí nasceu aquela ideia. Entrevistei familiares, mas fui transferindo, o livro quase pronto, estou para 14, 15 anos. O que seria o primeiro livro, acabou sendo o terceiro, porque apareceram esses livros de crônicas. E eu com aquela preocupação “Será que está bom?” Foi aí que pedi a opinião do Adami, que se tornou o meu coautor. Ele enxugou o texto, sem mexer em nada dos originais, mas coisas repetidas talvez, colhi muito depoimento aqui e ali, enxugou o texto. “Odorico, um bem amado – Seu pensamento vivo”. Tem muita crônica minha, tudo o que eu escrevi sobre Frei Odorico está ali, mas em compensação também tem muito dele. Peguei uma entrevista que ele deu para a Folha de Blumenau, jornal já morto. Ele foi entrevistado pelo Enéas Athanásio, Vilson Nascimento, Carlos Braga Muller, sobre tudo, falou sobre religião, o magistério, a paixão pela literatura, autores prediletos, etc. Está tudo ali, a palavra dele, que era de um português lapidar. Também consegui, isso ele me deu ainda em vida, uma miniautobiografia, em máquina de escrever, letra pequenina, em que diz... Só um momentinho que vou pegar ali. (O entrevistado busca os originais do livro) O estilo dele é peculiar. Então, o autorretrato dele, em que ele diz assim, vejam que interessante, “Nasci a 14 de Março de 1908, na freguesia de Santo Amaro de Cubatão, distrito do município de Palhoça. A localidade agora é sede do município, chama-se Santo Amaro da Imperatriz. Batizei-me com o nome de Aluísio”. Qualquer um diria “fui batizado”.

Em primeira pessoa.

Como se ele mesmo tivesse escolhido o próprio nome. “Aluísio, e fui crismado de colo ainda por Don João Becker, primeiro bispo de Santa Catarina”. Conta nesse estilo diferente toda a vida dele.

Isto vai estar neste livro que estás escrevendo?

Está no livro. Uma vez ele me convidou. Telefonaram lá do colégio “Gervásio, poderias acompanhar Frei Odorico? Ele vai a Florianópolis com o carro do colégio oficiar os últimos atos religiosos. O Aderbal tinha morrido, governador, aí eu digo assim, "O velho Deba”. Aderbal Ramos da Silva, foi governador de Santa Catarina, morreu. Apelidado carinhosamente de Deba, tinha nascido em 1911 e se foi em 1985. Telefonema do colégio pedindo acompanhante, fui a convite dele, Frei Odorico. Pergunto a ele: com tanto padre em Florianópolis, porque procuraram um em pleno Vale do Itajaí? Sorriu. Tal o conceito dele, conceito que já era a pedido do Aderbal. Sorriu, não precisou dizer nada.

Depois de quanto tempo dedicado às Letras, seja como professor, como jornalista ou como escritor, o que significa para ti esse universo literário?

Por mais percalços e pedras no caminho que existam... e azar. Elas existem. Na realidade, comparando com as outras atividades que eu tive, bancário, escrevente juramentado de cartório, professor, nota mil, a minha realização pessoal, o que me dá prazer é a literatura, é escrever e ser reconhecido. Ao mesmo tempo em que devoto especial carinho, me realizo, é como se ocorresse comigo mesmo quando vejo um ex-aluno, uma ex-aluna, um conhecido, uma pessoa de quem eu ouvi falar, escrevendo bem. Sinal que essa pessoa leu, essa pessoa tem sensibilidade, ama a vida na natureza, então, é como se fosse um reflexo meu no espelho. Enfim, se ainda há um motivo, por mais desanimado, por mais depressivo que eu estivesse aos 70 anos, a luz no fundo túnel, a minha realização, a minha esperança, a tábua de salvação, a boia em mar revolto, é a literatura. São os escritos, não só os meus, mas os bons escritos que existem, não só no Vale do Itajaí, no estado de Santa Catarina, Brasil, no mundo. A literatura é a minha grande paixão.

Alguma outra coisa que não perguntamos e que acharias importante?

Não, teria tanta coisa para falar, mas, por exemplo, citei a pouco o Maicon Tenfen, me identifiquei com o Maicon, conheci o Maicon ligeiramente, me identifiquei com ele porque nós fomos convidados, já tinha lido alguma coisa dele, para a rádio da Furb. Não me conformava que uma rádio não tivesse locutor, até dei esse registro e o reitor era um ex-aluno, Deschamps. Prometeu-me que me daria um locutor. Estação de rádio sem locutor é jornal sem redator, com toda a tecnologia que existe. Eu e o Maicon fomos convidados para um programa especial pra analisar, ter uma visão da literatura.

Cidadania em debate era o nome do programa.

Então, ele mais ferino do que eu, mais jovem, mais cheio de forças, garras e espadas, adagas, fomos em cima dos poetas, dos incipientes, como diria o Nascimento “emergentes”. Com poucas exceções, sei que fomos xingados pelo povo, mas na saída, ele foi me levar na Rua São Paulo para pegar o ônibus, ele me fez uma consulta. “Gervásio, tive um convite para escrever diariamente no Santa.” Eu digo, “Tu tens capacidade, toca adiante.” Ele, “Estou preocupado, porque eles pediram 10 crônicas, para olhar.” “Eu nunca passei por teste, graças a Deus.” “Censuraram uma.” “Como se chamava a crônica?” “A poesia de Lindolfo Bell é ruim” “Mas também? Tu querias o quê? O homem foi endeusado pelo Horácio Braun, e você vai querer minar. Vai devagar”. Ele acabou dizendo isso de uma forma amena, tempos mais tarde. Então, eu me identifiquei quando vi o Maicon escrevendo os seus primeiros textos, primeiras crônicas, e polemizando, inticando, arranjando uma série de problemas. Eu me via projetado de certo ângulo. Quando jovem, jornalista, queria mexer com o mundo, achava que iria resolver os problemas do mundo, mas depois fui com bom senso, a gente vai se acalmando.
 
1 Viegas Fernandes da Costa: Historiador, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC) e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Regional de Blumenau (FURB).
2 Eloísa Cristina Souza: Acadêmica de História da Universidade Regional de Blumenau (FURB).
3 Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva, órgão do Exército Brasileiro que tem o objetivo de formar oficiais para a Reserva. (N. de VFC).
4 Catilinárias, conjunto de quatro discursos proferidos por Cícero em 63 a.C., nos quais este denuncia o senador romano Lúcio Sérgio Catilina de planejar derrubar o governo republicano. (N. de VFC).
5 Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina (INCO). Fundado em 1935 no Vale do Itajaí, foi adquirido em 1968 pelo Banco Brasileiro de Descontos (BRADESCO). (N. de VFC).
6 “Ao mestre com carinho.” (Reino Unido, 1967). Direção e roteiro de James Clavell. (N. de VFC).
7 Departamento de Estradas de Rodagem (DER). (N. de VFC).
8 Tradicional casa comercial de Blumenau, especializada em roupa de cama, mesa e banho. (N. de VFC).
9 Cláudio Alvim Barbosa, compositor popularmente conhecido por Zininho. (N. de VFC).
10 Rede Brasil Sul (RBS), grupo do setor de comunicações. Abrange mídia televisiva, impressa, radiofônica, além de outros negócios. Retransmissora da Rede Globo de Televisão para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. (N. de VFC).
11 23º Batalhão de Infantaria. Quartel do Exército Brasileiro localizado no bairro Garcia, em Blumenau. (N. de VFC).
12 Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Fundado em 1945 tendo à frente Getúlio Vargas, foi extinto em 1965 pelo Ato Institucional nº 2. Refundado em 1980 pela sobrinha de Getúlio Vargas, Ivete Vargas. (N. de VFC).
13 Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), fundado em 1980. Sucedeu ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição consentida durante o regime ditatorial brasileiro. Renato de Mello Vianna foi uma das principais lideranças do PMDB no Vale do Itajaí nas décadas de 1980 e 1990. Eleito Prefeito de Blumenau em 1977 e 1993 e Deputado Federal em 1983, 1987, 1991 e 1999, exercendo ainda o cargo de Vice-Reitor da Universidade Regional de Blumenau no período 1974-1976. (N. de VFC).
14 União Blumenauense do Estudantes (UBE). Entidade que representa os estudantes secundaristas do município de Blumenau. (N. de VFC).
15 Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Partido político criado em 1965 para dar sustentação ao Regime Militar que governava o Brasil. Extinto em 1979, com o retorno do multipartidarismo. (N. de VFC).
16 Centro de Informações da Marinha. Durante a Ditadura Militar no Brasil o órgão foi empregado na repressão aos grupos de esquerda. Subordinado ao Ministério da Marinha, desenvolvia investigações, promovia prisões e praticava torturas em presos políticos. Maiores informações na reportagem “Os arquivos secretos da Marinha”, assinada por Leonel Rocha e publicada pela Revista Época, edição de 25 de novembro de 2011. A reportagem pode ser encontrada no sítio eletrônico http://revistaepoca.globo.com/tempo/noticia/2011/11/os-arquivos-secretos-da-marinha.html (N. de VFC).
 
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