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Godofredo de Oliveira Neto: “Estou tentando fazer uma coisa ousada” Imprimir E-mail

Em Blumenau por convite da organização do 3º Fórum de Literatura Brasileira de Blumenau, onde palestrou, o escritor, professor universitário e doutor em Letras Godofredo de Oliveira Neto concedeu esta entrevista em agosto de 2008. Neste depoimento fala sobre sua biografia, analisa sua produção literária e aborda o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Mesclando história e literatura, local e universal, o resultado da entrevista constrói uma breve cartografia da produção literária deste autor que, apesar de nacional, não abandonou sua condição local.

“ESTOU TENTANDO FAZER UMA COISA OUSADA”

Godofredo de Oliveira Neto nasceu em Blumenau, cursou seus estudos superiores na França durante fotoos anos da ditadura brasileira e atualmente reside no Rio de Janeiro. Professor do Departamento de Línguas Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, graduou-se em Relações Internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Paris II (França) e em Letras pela Universidade de Paris III (França), onde também realizou seu mestrado em Letras. Possui ainda o título de Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ocupou diversos cargos técnicos em instituições nacionais e internacionais, e integra diversos grupos de pesquisa em literatura, dentre os quais o comitê de pesquisadores da Association Archives de la Litérature Latino-américaine des Caraibes et Africaines du XX Siècle, ligado à UNESCO. Preside a Comissão de Língua Portuguesa do Ministério da Educação do Brasil e o Conselho Científico do Instituto Internacional de Língua Portuguesa da CPLP, entidades responsáveis pela implementação do novo Acordo Ortográfico nos países lusófonos. Pesquisador de Graciliano Ramos, é autor de diversos livros: “Faina de Jurema” (1981), “A Ficção na Realidade em São Bernardo” (1990), “O Bruxo do Contestado” (1996), “Pedaço de Santo” (1997), “Oleg e os Clones” (1999), “Marcelino Nanmbrá, O Manumisso” (2000), “Ana e a Margem do Rio” (2002) e “Menino Oculto” (2005).

Apesar de residir no Rio de Janeiro, Godofredo de Oliveira Neto costumeiramente ruma a Blumenau, seja para visitar seus parentes, seja para se refugiar na propriedade que a família mantém no interior do Parque das Nascentes, onde escreve seus livros. Na cidade por convite da organização do 3º Fórum de Literatura Brasileira de Blumenau, onde palestrou, Godofredo concedeu esta entrevista ao Sarau Eletrônico no final do mês de agosto de 2008. Neste depoimento, fala sobre sua biografia, analisa sua produção literária e aborda o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Mesclando história e literatura, local e universal, o resultado da entrevista constrói uma breve cartografia da produção literária deste autor que, apesar de nacional, não abandonou sua condição local.

(Entrevista: Viegas Fernandes da Costa / Fotos: Gabriel Severo Venco Teixeira da Cunha)

Sabemos que passas boa parte da tua vida no Rio de Janeiro, mas gostaríamos de iniciar perguntando a respeito da tua infância e do primeiro contato com os livros aqui em Blumenau.

Apesar de numericamente eu ter mais anos de Rio de Janeiro, a base de tudo aquilo que faço é daqui de Blumenau, não tenho nenhuma dúvida. Tanto é que em um único romance sequer perdi de vista a identidade catarinense, do Vale do Itajaí ou, mais particularmente, a blumenauense. No 3º Fórum Brasileiro de Literatura de Blumenau dei o exemplo lendo passagens dos meus romances que se referem a Blumenau. Estudei aqui, no Colégio Santo Antônio, um colégio religioso. Na época eu já era voltado para as letras, sempre tive essa coisa de ser bom em português. E eu gostava muito de português porque tinha literatura. Tive excelentes professores, que me marcaram profundamente. Outro dia dei uma entrevista para o jornal O Globo onde falei de uma professora que chamávamos de Dona Frida, do Santo Antônio, que me falou de escritores franceses para eu gostar de Machado de Assis, que a gente mal conhecia. Tínhamos dez, onze anos. Pensei em como ela me fez, através de autores franceses traduzidos, gostar de Machado de Assis. Estou pegando um exemplo para mostrar esse lado que já pendia para a área de literatura, sem que eu soubesse disso. E fui gostar de redações onde eu “viajava muito” e que, mais tarde, no Colégio Santo Antônio, foram vistas como criatividade. Já mais adolescente eu escrevia muito. Poesia no início, como todo mundo faz, e depois rasgava, e muito texto em prosa. Como eu não sabia desenhar, e tinha muita pena em não sabê-lo, eu escrevia. Mas escrevia para mim, e uma ou outra carta para a namorada. Uma delas me disse assim: “isso aí não foi você que escreveu. Isso não pode ter sido você.” Achou que eu tinha copiado de uma revista ou coisa parecida. Eu só me dou conta disso hoje, que eu gostava de humanas em geral, e artes em particular, e literatura mais particularmente ainda. Na época o ensino médio era dividido em Científico e Clássico, e fui me empurrando para fazer o Clássico, que o Santo Antônio não tinha, o que para mim foi uma grande tristeza. Tive então que passar para o Pedro II, que era um colégio em Blumenau que tinha o Clássico. No Pedro II achei tudo mais fácil, e não estou falando mal, mas comparando com as exigências que havia. Teve um teste de Q.I., e veio um pessoal de Assis, de um colégio franciscano, aplicar. Eu nunca acreditei, mas deu um resultado altíssimo. Se tivessem aplicado a mesma prova no dia seguinte eu não teria passado. Mas os professores, Frei Odorico por exemplo, ficaram muito impressionados com aquele resultado. Eu nunca acreditei, porque várias das respostas dei automaticamente, nem tinha entendido, e não era possível que eu tenha acertado. Era só colocar um “x”, e muitas eu tinha chutado. Mas isso me deu um certo prestígio entre os professores, e de repente saí daquele ninho onde era prestigiado academicamente para ir para o Pedro II, e acabei entendendo e adorando o Pedro II, mais politizado e universal. E isso me incentivou ainda mais a estudar, a ler. Dos meus amigos de colégio ninguém lia. E nesse meio tempo entrou em ação um outro elemento da minha formação identitária, que foi o movimento estudantil, que num certo momento era apenas cuidar de barraquinhas em festa de São João. Eu já era visto como alguém que podia ajudar, e escrevia os papéis, cuidava das fotografias, sempre na área de Letras. Mas aquele movimento estudantil não era só aquilo. Ele era o germe de uma crítica. No colégio religioso tinhamos uma visão de proteção dos fracos e oprimidos, como hoje ainda está dado. O fraco e o oprimido é sempre motivo de atenção das religiões. E se a maioria dos meus colegas de colégio não deu importância para isso, eu dei, porque aquilo me marcou muito. Foi então que começou essa alteridade, essa preocupação com o outro, o entendimento da sociedade, das desigualdades sociais. Foi o início de uma conscientização. Fui levando aquilo bastante a sério. E no Pedro II a coisa foi se acirrando mais. Acho que no Pedro II só estudei um ano. Sentava ao lado da Vera Fischer, e ela era muito interessada em teatro, em literatura, gostava dessas coisas. Era a pessoa com quem eu até conversava bastante sobre estes assuntos. Porque as pessoas de uma maneira geral não tinham esse interesse. E no movimento estudantil já fazíamos outras atividades, as barraquinhas começavam a ser consideradas bregas, o pessoal já era adolescente, mais madurinho, as conversas já aconteciam nos bares bebendo cerveja, o interesse de conscientizar outras pessoas e já tínhamos uma visão crítica um pouco mais amadurecida. Depois fui para o Rio de Janeiro estudar direito e Letras. 

Antes de falarmos da tua ida ao Rio, poderias falar sobre o teu contexto familiar? Por exemplo, sabemos que o José Ferreira da Silva, ex-prefeito de Blumenau e autor de livros de história, era teu tio. Havia um ambiente intelectualizado na tua casa?

Deixa-me explicar isso. O meu avô Godofredo foi chefe de gabinete do Felipe Schmidt, e eles ficaram todos muito ligados ao Nereu Ramos. Eu vi o Nereu muitas vezes na minha casa, e ele foi padrinho de casamento da minha avó por parte de pai. Um tio meu era Secretário da Fazenda, e o Abílio de Oliveira, tem até a rua com o nome dele lá na Beira-Mar Norte, é o meu pai. Meu pai é de Florianópolis, e o Nereu, na época da guerra, nomeou-o para cá porque esta era uma região considerada de alta periculosidade para a nação brasileira. E o meu pai, que na épcoca trabalhava na estrada de ferro, foi trazido fotopara cá pelo Nereu como homem de confiança para ajudar a cuidar das questões de segurança. O Estado de Santa Catarina ocupava essa região com mãos fortes. Meu pai tinha um cargo burocrático para analisar questões, porque havia células nazistas aqui, e isto é importante porque vai estar nos meus livros. E a minha mãe era de origem italiana, filha de família de cartorários de Rio do Sul. Os italianos também eram um grupo suspeito. O governo de Getúlio publicou um decreto proibindo o uso do italiano e do alemão durante a campanha de nacionalização. E isso foi fundamental, porque a minha mãe era de origem italiana, falava o italiano com a minha avó, e o meu pai, apesar do nome português, era de uma família alemã. Minha avó paterna era irmã do tio José Ferreira, e ambos também falavam alemão. E ele próprio, então prefeito municipal, teve que publicar um decreto impedindo o emprego do alemão. Então era um conflito que eu vivi dentro de casa. E o conflito ideológico também perpassava, porque esses italianos e alemães, cuja maioria imagino que não era nazista, nem fascista, é óbvio que sofreram uma sedução, porque estes movimentos não tinham uma negatividade. Mussolini havia unificado a Itália, Hitler tinha unido a Alemanha, ninguém sabia dos problemas que iriam afetar os judeus, toda essa loucura que acabou acontecendo, essa esquizofrenia, toda essa perversidade. Então até um certo momento isso se potencializa porque Getúlio Vargas também era ambíguo neste particular. Ele também não tinha uma visão negativa de Mussolini e Hitler. Tanto é que ele entregou a Olga Benário para os nazistas. Mas esses regimes trouxeram as leis trabalhistas, o voto das mulheres, avanços na saúde pública, houve essa contradição, e isso seduzia os alemães e italianos mais humildes. O cara que tinha vergonha do seu país porque o tinha largado para vir para cá e aqui ser maltratado, vislumbrou a possibilidade de uma revanche aqui dentro em relação à polícia, às autoridades, aos impostos. Alguém soprava nos ouvidos e dizia: “tem um cara aí que vai salvar vocês todos”. Então isso criou um ambiente ruim, mas confuso, porque era potencializado pelo próprio Getúlio Vargas que hesitava entre apoiar o eixo ou os aliados. Isso todo mundo sabe, faz parte da nossa história. E para ilustrar isso tem um exemplo no “O Bruxo do Contestado”: o primeiro facho fascista no Brasil foi o dos Matarazzo em São Paulo. As grandes fortunas paulistas, italianas, têm uma ligação com o fascismo. Quando lancei o “O Bruxo do Contestado”, e coloquei lá uma passagem que apresenta esse primeiro facho, que foi uma carta escrita pelo próprio Mussolini para o Matarazzo, isso criou um mal-estar. Porque no fundo esta página da história do Brasil foi ocultada, e inclusive aqui. Aí entra a questão das identidades. Que essas identidades brasileiras, catarinense, italiana etc, foram subitamente sufocadas. Então independente do acerto, que foi lutar contra regimes autoritários, fascistas e esquizofrênicos, o que está certo, a contrapartida disso foi o sufocamento de uma população que hoje está no nível dos 40 milhões. Essa parte do Brasil, que não era de 40 milhões na época, mas a proporção era parecida, ficou silenciada, não podia falar em público a língua materna. Então é claro que isso vai formatar a tua personalidade, vai formatar o teu jeito de ser. E eu vivi isso particularmente, o silêncio, mas na época eu não sabia o porquê. Acho, porém, que esse ambiente me fez crescer porque me colocou todas essas questões. E quando fui para o Rio de Janeiro isso tudo veio com muita força. Ali eu já estava consciente dos problemas do Brasil, já estava envolvido com questões políticas, trazia o legado cristão lá do Colégio Santo Antônio e não achava justo que pessoas morassem debaixo da ponte. No Fórum de Literatura falei do caso do Joaquim Nabuco e da mesquinharia do parlamento brasileiro. Se dessem um cavalo, um saco de sementes e um pedaço de terra, que tinha de sobra, para os escravos, isso não iria incomodar ninguém. Mas colocaram os escravos na rua absolutamente sem nada. Não tinham casa, não tinham comida, não tinham emprego e enxotaram os escravos. Depois começaram com o aliciamento, a sedução. Então ficou uma franja da população brasileira cuja descendência hoje é maior do que a branca. E o conflito mal resolvido vem se arrastando. O Joaquim Nabuco fez essa proposta não porque era bonzinho, mas porque convivia com os ingleses, e estes estavam pressionando pelo fim da escravidão já que estavam no processo econômico do liberalismo e entenderam que os escravos se transformariam em consumidores dos seus produtos. Joaquim Nabuco também via isso muito claramente. A continuação disso chega nos problemas da reforma agrária, do déficit de moradias.

É possível perceber já no teu primeiro livro, o Faina de Jurema, que apesar de todo o experimentalismo e da proposta pós-moderna há uma grande influência do olhar marxista. É o caso da fábula da jibóia...

... que aparece também em “Ana e a Margem do Rio”. Em Paris o Stalinismo era visto com uma grande ojeriza, pelo menos na parte da intelectualidade que eu freqüentava. Depois da invasão da Tchecoslováquia vários intelectuais saíram do Partido Comunista Francês. E ali foi um momento de grande crise, um momento em que a gangrena se instalou na União Soviética. Então eles não abandonaram os princípios norteadores do marxismo, porque segundo esses que saíram, o stalinismo desviou os princípios marxistas. Por conta das descobertas científicas daquele momento, a animalidade que havia dentro do ser humano desde o nascimento, quando ele tinha que brigar pelo ar que respirava, quando ele tinha que dividir com um irmão que ele nem conhecia o carinho da mãe e a comida, esse conflito do ser humano com seu meio, se mal resolvido, fazia dele um bichinho. E quem é que iria humanizá-lo? A sociedade, a mãe, a escola. E humanizar era dividir com os outros, aprender a ser gente, aprender o humanismo. Então era o grupo que iria impedir que neste ser humano, que era um poço de egoísmo e perversidade, aflorasse toda essa perversidade. Então passou a acontecer uma supervalorização da manada, do social, e isto era um sinônimo de civilização. Esta proposta era forte, e é disso que veio a luta de classes. Isto não tinha sido destituído pela crítica que se fazia à União Soviética. A questão era separar do marxismo o stalinismo enquanto sinônimo de intolerância, de visão única. Ou seja, a perversidade jogava o ser humano perigosamente para os mesmos lados do fascismo, por conta do autoritarismo. Isso eu vivi com muita força, porque saí do Brasil. Essa visão crítica do partido único foi violenta. Nós vimos ali, isso já no início dos anos 70, as minorias sendo valorizadas, tendo espaço para falar. Rompemos com aquele papo de “não vem com esse negócio de feminismo, índio, gay, negritude porque tudo isso é uma proposta americana para enganar vocês porque quando chegar a justiça social isso vai acabar.” E foi naquele momento que a gente disse que não acreditava nisso porque tínhamos o exemplo da União Soviética e queríamos a felicidade aqui e agora. Nisso vem a independência da mulher, a libertação sexual, uma realidade que pôs em xeque a bossa-nova. Eu adoro a bossa-nova, não é esse o problema, mas mostravam aquelas fotos de Ipanema, o pessoal tocando violão, e atrás aquela enorme favela, uma massa enorme de negros morando a 100 metros, e você não via um negro na praia. Não tinha! Eles não iam! Era uma coisa surpreendente! E a bossa-nova mandando ver! Mas não tinha conscientização política nem de um lado nem de outro. E a identidade brasileira, como é que a gente faz agora? E os brasileiros na França, classe média, namorando franceses e lavando a própria roupa.

O que te motivou a ir para a França?

Eu tive problemas políticos. Sinceramente, não achava que fosse ter, mas fui chamado a depor três vezes por redações que eu tinha escrito. Uma vez no cursinho e duas vezes na universidade. Fui chamado para me explicar. Uma das redações, que eu me lembro, falava da pena de morte. Mas eram textos que não chegaram a ser publicados. Fui denunciado por olheiros. Cheguei lá e a redação nas mãos do policial. Fui ficando com medo. Uma das vezes fui levado com violência, me jogaram dentro do carro, e eu me lembro que chorava muito. Aí uns amigos meus começaram a desaparecer em condições semelhantes às minhas. Ao invés de voltar, não voltavam. Uma amiga, particularmente, desapareceu e nunca foi encontrada. Até hoje não sei o que aconteceu. Os pais dela não eram do Rio, mas do interior de São Paulo. Foi quando conheci a minha atual mulher, que era francesa, mas tinha ido para o Rio para estudar literatura brasileira. Depois ela voltou para Paris e nós continuamos nos correspondendo, e aquilo foi uma oportunidade afetiva e política. Fui para Paris e fiquei com ela. Certo dia fui ao Consulado com meu passaporte para fazer a renovação, o que era uma coisa muito burocrática. Entreguei lá e o meu passaporte não retornava. Disseram-me para voltar no dia seguinte e eu sem documentos. No dia seguinte voltei e aconteceu coisa parecida. Retornei outros dias e eles me dando umas desculpas malucas. Então fiquei nove meses com o passaporte apreendido, de forma ilegal. E como já morávamos juntos, casei-me e essa foi a minha saída. Então tive esse problema político. E lá na França via pelos cantos o Fernando Henrique Cardoso, o José Serra, todos falando muito bem do Lula. Eu era muito jovem, não era nenhum debatedor do nível deles, mas estavam lá os exilados todos, e eu me lembro do Fernando Henrique Cardoso tecendo elogios ao Lula de uma maneira tão monumental, dizendo que ele era uma pessoa muito inteligente, o maior sindicalista do Brasil. Depois a gente vê o Lula fazendo campanha para a eleição de Fernando Henrique Cardoso para o Senado, os dois distribuindo jornal na porta da fábrica, e os mais jovens não sabem disso. Porque depois vêm os partidos políticos e separam todo mundo. Então, quando escrevi “Faina de Jurema”, e aqui tem um dado que acho importante, a coisa da ideologia já estava equacionada na minha cabeça, eu já embarcava nessa nova visão, muito mais solta, muito mais libertária, como a imagem do Fernando Gabeira de sunga de tricô na praia. O que interessa mais para o ser humano é a liberdade, isso é o que ficou valendo, e o stalinismo não trouxe a liberdade. Neste mesmo momento surgiram os estudos teóricos que apresentaram a história da vida privada. Ao invés de se fazer um estudo sobre o macro, de se entender a história a partir das observações do macro, passou-se a olhar as relações pessoais. Acho importante dizer isso porque meu livro “Pedaço de Santo” é assim. Estão nele os ingredientes: liberdade, identidade, porque falo ali das minorias, das dificuldades dos índios, ou seja, que não estava muito bem equacionado o que é ser brasileiro. E com essa coisa da liberdade, da identidade, eu fui me achando mais, me entendendo mais, compreendendo Blumenau, compreendendo minha cultura. Ali então meu lado blumenauense poderia estar solto porque todo mundo ia aceitar. Porque a existência do outro já era mais valorizada.

Blumenau aparece em todos os teus livros, bem como Santa Catarina.

Quando não aparece diretamente, há uma metáfora.

Qual é a tua experiência de Blumenau na tua obra? Em “Faina de Jurema”, por exemplo, há um trecho que diz: “a civilização dos seus antepassados, porém, junto com as suas qualidades, legou-lhes seus imensos defeitos. O espírito de comunidade funcionava unicamente nas relações entre o grupo e outro grupo de raça distinta. No interior do círculo o individualismo preponderava”. Esta visão do narrador que apresenta uma Blumenau individualista e extremamente capitalista é, ainda hoje, a visão do autor sobre a cidade?

O fechamento, a tentativa de se tornar impermeável aos grupos externos fazia, e talvez ainda faça, com que esse grupo, enquanto grupo, se torne extremamente individualista e cria entre eles uma fotocompetição que tem, com os demais, um tratamento de diferenciação. Então o outro era uma coisa que não podia ser aceita. Ao mesmo tempo em que este texto era uma denúncia, era também uma proposta da necessidade de abertura mantendo a individualidade de cada um. Acho que agora as coisas vão se encaixando até para mim. Porque o livro foi feito num momento, do qual ainda não se falava por aqui, mas que era o início daquilo que mais tarde viria a se chamar de pós-modernismo. Quem estava comigo na elaboração deste livro era o filósofo Jacques Derrida, que eu mal sabia que se tornaria tão importante. Tenho uma carta dele até hoje, escrita à mão, que nunca publiquei. Eu estava escrevendo e ele dizia “bota isso, bota aquilo, faz um telegrama, alguma coisa tem que unir”. Eu acho, e outros já disseram, que este livro é o introdutor do pós-modernismo no Brasil. Na época saiu no Caderno de Idéias, no O Globo, na Folha do Maranhão, matérias apresentando este livro como uma coisa experimental. Então era para não mexer na linguagem, usar todos os gêneros – isso era fundamental...

Tanto que temos dificuldades em classificar o “Faina de Jurema” dentro de algum gênero literário.

Tenho alguns alunos que descobrem esse livro e me perguntam por que não falo dele. Não falo porque para mim ele é germinal, é seminal, mas não é a literariedade que eu gosto. Foi uma coisa mesmo para mostrar um momento. Então se gera um momento de permeabilidade, e por isso essa cena que você resgatou, era uma cena de crítica ao fechamento. No livro a personagem Jurema toma conhecimento das coisas ao descobrir que tem bichos no porão da casa dela. Num primeiro momento há a perplexidade, e depois vem um movimento onde a personagem depois vai se dando conta de que não  tem o que fazer, que não tem saída, que está dentro daquela casa, e o que ela faz?, se mata? E há um pedido de socorro, porque se for do jeito que é, então só resta a personagem se matar. Então não tem jeito, tem que mudar. O pós-modernismo é que permitiu falar não mais da raiz única, mas do rizoma, da planta aquática que nasce aqui, parece que são duas, mas é a mesma.

Realmente, teus outros livros são diferentes. “Marcelino Nanmbrá, O Manumisso”, por exemplo, é de uma prosa extremamente poética. Mas é possível perceber que a germinação ocorrida na “Faina de Jurema” tem continuidade nos teus outros livros. Em “Faina de Jurema” parece que tu montas uma espécie de cartografia, mas a gente percebe que n’“O Bruxo do Contestado” também tem isso. O mesmo acontecendo com “O Menino Oculto”...

É, no meio tem sempre um narrador que pergunta e explica, o foco narrativo que muda, a coisa dos índios em “O Bruxo do Contestado”, está lá a veia do alemão com o índio. Também acho que aquilo ali fez a minha cabeça. Então “Faina de Jurema” tem importância para mim neste aspecto, e tem esta coisa de inaugurar o pós-modernismo no Brasil. De fato, não vejo que outro livro teria lançado o pós-modernismo no Brasil. Isto não quer dizer que eu concorde com tudo do pós-modernismo, mas o que é verdade é que esse livro lançou aqui essa polêmica. E depois parou porque ele não tem uma qualidade literária, no sentido de uma totalidade, não é o propósito dele, ele é algo experimental. Era uma coisa quase didática, para mostrar o que era essa proposta, sem se importar muito com o literário. Mas como você detectou n’“O Bruxo do Contestado”, e tem alguns alunos que estão pesquisando minha obra e que também estão mostrando isso, tem essa coisa que permanece. No “Ana e a Margem do Rio”, quem me ajudou muito, e acabou fazendo a orelha, foi o Gerd Bornheim, um dos grandes filósofos brasileiros que, no final da vida, debruçou-se sobre a mitologia indígena. Ele que me sugeria o que colocar ou tirar no livro, porque a mitologia indígena é maravilhosa, mas também tem muitas coisas falsas. Agora, se você leu a história da jibóia e do jacaré no “Faina de Jurema”, ela também está lá em “Ana e a Margem do Rio”. Então eu não estou esquecendo ou querendo que não se veja mais esse livro, só não quero que ele seja visto como algo literário. Ele é experimental mesmo, com idéias jogadas sobre a mesa e sobre as quais fui escrever em função de toda essa minha problemática de identidade, liberdade, da alteridade, das diferenças e que são as coisas que vão marcar a história do Brasil dos anos 80 para cá.

Nós percebemos que existe na tua obra uma espécie de unidade quanto aos temas. Em primeiro lugar, a relação literatura e história é muito forte. Mas como exemplo temos, em “O Bruxo do Contestado”, o Contestado, o Estado Novo e a ditadura militar. No “Marcelino Nanmbrá, O Manumisso” nós temos o Estado Novo, referências ao Contestado e à ditadura. Como é que tu vês esta relação entre a literatura e a história?

Acho que o mais contemporâneo dos meus livros neste aspecto da relação entre a literatura e a história é “O Bruxo do Contestado”, que talvez não tenha sido entendido neste particular. Este livro, apesar das críticas que recebeu em relação ao próprio Contestado, ficou como um livro de referência para este conflito, como “Os Sertões” ficou. E também o Euclides da Cunha levou muita porrada porque na época os historiadores o criticavam pois ele não foi ao campo de batalha, ficou na capital. E por que digo que “O Bruxo do Contestado” foi feito nos moldes dessa minha cabeça já pós-moderna? Porque o narrador pós-moderno puxa até o presente. Então, contrariamente ao romance histórico do século XIX que fala de um episódio de 1500 e pára ali mesmo, esta visão o pós-modernismo colocou para debaixo do tapete. Ou seja, o narrador tem que puxar pelos dias atuais. Por isso mesmo que a Tecla olhava para trás. A anunciação não se passa no momento em que a guerra está acontecendo. O Gerd, não o Bornheim mas o Runnel, personagem do Bruxo, está contando para trás, já aconteceu. A Tecla também, que conta o que ouviu. Então estou colocando aí a questão da autoria, da verdade histórica, da história da vida privada, são vários narradores. Ela tenta como uma historiadora reviver e, de repente, ela pára a história e fala com o leitor para explicar o que foi o Contestado. Neste caso ela passa a ser uma professora de história que o leitor espera que seja mais fidedigna, porque muitas das coisas são contadas pelo empregado dos pais dela e que por sua vez também não viveu o Contestado, mas sobre o qual ouviu falar. Então este é o jogo pós-moderno. E pus absolutamente tudo que vi sobre o Contestado e mais, pus o que ninguém pôs. Por quê? Tem uma história aqui que me parece importante. A minha tia Cecília era casada com o General Mesquita, um veterano de Canudos que foi transferido para o Sul, e devido a sua experiência foi mandando para o Contestado. A minha tia e o José Ferreira da Silva, portanto, sabiam tudo do Contestado, sob a ótica oficial. Mas as informações eram absolutamente fenomenais, e alguns hoje as reconhecem e pesquisam. O partido dos trabalhadores russos tinha o Lênin como presidente, que estava exilado em Zurique, na Suíça. Na época ele tinha muito contato com os sindicatos ingleses, que diziam que a explosão do socialismo, ainda sem nenhum matiz ideológico de negatividade, iria nascer em um país onde já havia movimento sindical organizado e que podia ser tanto a Inglaterra quanto a Alemanha. Já o Lênin, que já tinha tentado o levante de 1905, e que tinha dado errado, afirmava que seria na Rússia. Ele soube que no interior sul do continente sul-americano havia um levante que talvez iria criar o primeiro país socialista do mundo. O meu tio dizia que o Lênin tinha mandado observadores para a região, fazendo com que o Contestado se torne talvez o movimento social mais importante do início do século XX. Tinha dois deputados paranaenses que pertenciam ao partido socialista e que foram para a região do Contestado. Os contatos eram eles. Este é um dado maravilhoso para um historiador, eu não sou, mas como romancista posso colocar isso sem preocupação, é um romance! E os Estados Unidos também enviaram o equivalente a um ministro para visitar a região. O Percival Farqhuar, que era provavelmente o maior empreiteiro ocidental, fez a Madeira-Mamoré e uma série de outras obras, era riquíssimo, poderosíssimo, e ele ficou encarregado de fazer a estrada de ferro que passa por Santa Catarina em troca da concessão de faixas de terra com 15 quilômetros de largura de cada lado da ferrovia em toda a sua extensão. Fez um firma de colonização para povoar aquela terra. Trouxe 7 mil empregados para trabalhar nas obras com a promessa que iriam voltar, mas que não voltaram e se juntaram ao discurso messiânico, e chegaram a fazer greves. Para reforçar a idéia do conflito internacional, pela primeira vez no Brasil e talvez na América, com exceção do México, houve a utilização de aviões de guerra. Teve o caso do Tenente Kirk que bateu numa montanha, onde seu avião se estraçalhou. Um outro ponto que me era trazido, e que não vi em lugar nenhum, que também tem uma lógica lapidar, diz respeito a Buenos Aires, uma das cidades mais importantes do mundo naquela época. A fronteira do Brasil com a Argentina só tinha sido demarcada em 1905. Teoricamente, no papel, tinha sido demarcada em 1893, mas a demarcação real só em 1905. Então era uma fronteira bastante frágil com a Argentina, e se o Brasil deslocou 7 mil homens para aquela região, de um total de 12 mil que estavam no exército, e se é praxe nas relações internacionais que, quando um país desloca tropas para a fronteira o outro também desloca, é óbvio que Buenos Aires também deslocou. Alguma coisa fez, não ia deixar assim. E ninguém fala! Falei para um historiador lá do Rio de Janeiro: vão lá nos arquivos do exército argentino e vão procurar. Não é possível que isso tenha ficado assim. E eu ouvi dizer que havia movimento militar na Argentina, o que é uma coisa bastante lógica. Então é um conflito internacional em todos os sentidos, e um conflito que podia ter atingido os sindicatos ingleses, que também vieram observar. O conflito do Contestado ganha com isso uma densidade maior. E, de fato, isto já está nos arquivos do Brasil, ali tentaram fazer um novo país. Então tem umas coisas fortes n’“O Bruxo do Contestado”, claro que respaldado e protegido pelo lado romanesco. E o município de Blumenau, na época do conflito, ia quase até lá. Estava muito próximo. Então coloquei no livro que a Dona Berta via os soldados passar defronte à casa dela, em Diamante, que é como chamei a cidade no livro, mas é aqui. Depois as pessoas perdem a noção da geografia e parece que é tudo longe, mas foi muito perto.

Para falarmos de identidade. No livro “Marcelino Nanmbrá, O Manumisso” tem o personagem principal, um pescador, um catarinense do litoral, que vai para o Rio de Janeiro para ser um herói, mas volta de certa forma derrotado. É isso? O catarinense que sai buscando ser o herói e retorna derrotado? É possível relacionar esta condição do personagem com a questão da identidade, do desejo deste catarinense que sempre se sente à margem da história brasileira?

Estou tentando fazer uma coisa ousada, mas baseada em autores nacionais e internacionais, na questão da autoria, da autofagia, do autor comendo a si próprio. Estou lançando pela Editora Imago um livro chamado “Marcelino”, com o dobro de páginas e com uma formatação mais tradicional. Para não ser acusado de reesquentar o prato, coloquei uma nota dizendo que por solicitação de colegas diretores de cinema resolvi dar início à roteirização do meu livro. Logo me dei conta, porém, que não era capaz de fazer um roteiro, mas assim mesmo fui fazendo uma outra coisa, envolvi-me, fui enriquecendo e recheando a mesma história, e o livro ficou com o dobro de páginas e com uma formatação mais tradicional. Porque o roteirista que acabou fazendo o roteiro disse que teve problemas de identificar quem estava falando na história. Eu disse que era isso mesmo. Então acabou fotosaindo esse novo livro, que é um outro livro apesar de eu não saber se a crítica assim o verá. É aquela velha questão da indissociabilidade entre fundo e forma. Se mexi na forma o livro fica diferente. O personagem permanece o mesmo, mas ganha contornos diferentes. Alguns ficam mais valorizados, enquanto outros praticamente somem de cena, mas os nomes são os mesmos, os personagens são os mesmos. O Marcelino sai engrandecido como personagem, fica mais denso, mais complexo, mais verticalizado, aparecem mais as suas contradições. Na boca da professora eu o chamei de um Cruz e Sousa dos mares. Cruz e Sousa como ser humano é um derrotado. Vai para o Rio de Janeiro, onde é razoavelmente protegido, considerado um bom poeta, um bom intelectual, mas quando você lê o poema “Emparedado”, é um negócio de arrepiar a raiva enrustida que ele tem e que coloquei na introdução deste novo Marcelino. Então é um ódio, e ele sempre perguntando quando é que tudo isso vai mudar! É uma raiva denunciando claramente o racismo de ele não ir para frente por ser negro. Cruz e Sousa vai para o Rio de Janeiro, faz alguns pequenos trabalhos aqui e acolá, morre pobre no interior de Minas Gerais, o corpo vem em um vagão de gado, porque a família não tinha dinheiro para pagar transporte melhor. Então ele morre derrotado, mas a poesia dele não é derrotada. Tanto é que ele é visto como o maior poeta simbolista do Brasil. Acho que isso responde um pouco como a Lucíola de José de Alencar se apaixona e sai derrotada porque vai morrer, mas morre a carne e sobrevive o espírito, a idéia. E o Marcelino me lançou junto a toda uma intelectualidade que ainda não tinha prestado atenção em mim, mas é um livro difícil para um leitor comum. O personagem se deixa levar por uma pulsão, subitamente se dá conta que é lindo e maravilhoso, o que até então não tinha importância para ele, mas começa a vislumbrar também, como todo ser humano, a possibilidade de uma ascensão quando a filha do senador mostra o sexo para ele. Isso mexe com a cabeça dele. Tem também uma personagem polonesa, até para sair do clichê do alemão, que diz que ele vai salvar o Brasil. É como se eu dissesse para você, agora, que irias salvar o Brasil. Mas ele resiste, porém não resiste ao poder do sexo. Esse conflito da razão contra a emoção vai afligi-lo. Quando ele perde a mão, na verdade ele deixa perder a mão como uma autopunição por se sentir culpado da morte do amigo no mar. Ele deixa a ferida doer cada vez mais, e este é um elemento cristão, católico, porque ele acreditava que tinha que ser punido, e cada vez ele sofria mais. Claro, acho que ele não sabia que aquilo representaria a perda da mão, até porque isso foi o médico quem decidiu. Ele perdeu a mão, mas a sedução continua por parte da Martinha, que é a local, e por parte da polonesa e da filha do senador. É quando é convidado para cuidar dos pássaros do senador, e por isso vai para o Rio. O senador está envolvido, mas muito distantemente, no atentado ao Getúlio Vargas. Então, se a polonesa é mesmo militante de um golpe, o senador parece que não está envolvido, mas está, e isto fica um pouco mais claro neste novo livro, o “Marcelino”. E o corpo e os instintos de Marcelino vão ser usados por outros à revelia dele. Ele vai até porque esta é uma maneira de vencer. Aparentemente ele venceu: vai para uma casa maravilhosa, à noite faz amor com a polonesa, tenta esquecer a Martinha e sonha casar com a filha do senador. O instinto dele vai fazer com que caia numa armadilha, e ele volta, acho que arrependido, e entendendo que caiu numa furada. Então ele volta derrotado, mas ganhou a razão.

Ele renasce. No final temos uma cena bastante psicanalítica. Se a árvore representa a mãe, e ele se pendura nela, os laços serão cortados. Então ele passa a ser outro porque se libertou de toda a carga que carregava. E pela leitura deste teu livro nós queremos entender que a questão não é ser o outro, sob o aspecto da identidade, mas assumir a própria identidade. O Marcelino, no primeiro momento, vai viver uma outra identidade e volta derrotado. Mas ele volta derrotado enquanto outro.

É isso mesmo, e ficou mais claro para mim também. Quando ele volta, a identidade dele vai poder conviver com uma outra sem se fechar ou se deprimir. Vamos nos sentir nós mesmos como parte integrante do Brasil, assumir que fazemos parte do mosaico brasileiro e pronto! Aí diminui a culpa, a ansiedade, a repressão. Então acho que essa nova versão abriu o livro para um público maior. E se coloquei como personagem principal um não-branco, é justamente para enriquecer ainda mais essa visão de Santa Catarina e do catarinense, de sermos nós mesmos! Porque ele volta, fica com Martinha, praieirinha como ele, e o que falaste é verdade, ele agora está leve porque passou aquela coisa do herói mitológico, passou por aquela iniciação da qual ele precisava. Então este é um livro que me marcou e emociona muito.

Como presidente da Comissão de Língua Portuguesa do Ministério da Educação e do Conselho Diretor do Instituto Internacional da Língua Portuguesa da Comissão dos Países de Língua Portuguesa, como vês a implementação do novo acordo ortográfico, cujas modificações na ortografia do Brasil são pequenas, mas que em Portugal são maiores e que por isso recebe dos portugueses maiores resistências.

O conteúdo do acordo foi aprovado em 1995 na Câmara e no Senado do Brasil. Aquele conteúdo vem do acordo internacional. Dali saiu um decreto legislativo. Então já herdei isso, e ali não se mexe mais. Isso também me deixa a vontade para dizer que acho que tem uma série de coisas não resolvidas, outras mal resolvidas, outras resolvidas parcialmente. Então estou apenas encarregado da aplicação de algo que no Brasil já é uma lei. Esse decreto a ser assinado pelo Presidente Lula não mexe no conteúdo, mas apenas nos prazos. A proposta é que tudo entre definitivamente em vigor em 31 de dezembro de 2012, principalmente para os livros didáticos. Porque a partir de 2009 já começaria nos jornais, no Diário Oficial etc. Mas a fase de transição vai até dezembro de 2012. Portugal jogou para foto2015. O que eu acho? Em primeiro lugar vai revigorar substancialmente a língua portuguesa no mundo numa época de globalização. É a única língua que, por exemplo, na ONU sai em duas versões: a portuguesa e a brasileira. No espanhol não é assim, no inglês não é assim, no francês não é assim, e estas línguas também têm diferenças internas, mas na escrita são diferenças pequenas e, as que existem, não são vistas como erros no outro país. O Brasil uma vez mandou um navio lotado de livros didáticos para Angola e a coitada de uma ministra que tentou distribuí-los foi demitida e os livros incinerados. É claro que a gente pode ler José Saramago sem tradução, mas para as crianças já é mais complicado. Se é ensinado que determinada palavra se escreve sem acento e vem o livro com acento, fica difícil  para a criança. O Mário de Andrade já dizia que a confusão mental do brasileiro vem, em parte, dessa questão da ortografia. Então acho que essa reforma só vem para ajudar. Só não e melhor porque não é completa, e nunca será porque sempre estamos correndo atrás da oralidade. Então facilita a circulação de livros entre os oito países lusófonos, e a gente espera que isso torne o livro mais barato. O prazo de quatro anos acho que é razoavelmente suficiente para que haja um escoamento dos estoques das editoras. E depois, só 0,5% das palavras mudam no Brasil. Acho que tudo que vem para facilitar, na língua, é melhor.

 
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