Menu Content/Inhalt
Home
Hassan: a idealização de um ser humano Imprimir E-mail

Líliam Wisniewski
(Acadêmica do Curso de Letras / FURB)

Apesar de não ser um clássico da literatura, a obra de Khaled Hosseini, “O caçador de pipas1, alcançou sucesso mundial e emocionou povos, ainda que proibido no próprio Afeganistão, cenário de grande parte do romance. O país é caracterizado no livro por diversas guerras: a invasão da União Soviética nos anos 70, seguida da tomada do poder pelo Talibã em 1996 e os conflitos internos que as personagens vivenciam no decorrer da narrativa.

A personagem destacada para análise neste artigo é Hassan, que faz parte do núcleo de protagonistas do romance, ao qual também pertencem Amir e baba2. Todavia, em alguns momentos a análise de Hassan deve sofrer interferência de outras personagens, uma vez que pertencendo a uma mesma história, elas se correlacionam e afetam-se mutuamente.

Primeiramente, comenta-se o tempo. Amir, que é o narrador-protagonista, conta a narrativa em primeira pessoa in media res, usando o recurso flashback em um tempo predominantemente psicológico. Porém, determinados trechos do romance admitem também o tempo cronológico, para que o leitor se situe no desenvolvimento das personagens através dos anos e quais fatores as influenciam, bem como nos acontecimentos político-sociais do país. Nota-se que o capítulo XVI é narrado por Rahim Khan, personagem secundária, amigo do pai de Amir. Esta quebra na narrativa do protagonista transmite ao leitor uma imagem mais clara do que e como aconteceu no Afeganistão, nos anos que seguiram a partida de baba e Amir para os Estados Unidos.

O espaço é alternado entre Afeganistão, Estados Unidos e Paquistão, agrupados respectivamente por seqüência decrescente de tempo relatado no romance. Embora a trajetória do protagonista Amir se dê por esses três países, Hassan jamais deixa o Afeganistão. Partindo desta informação, destaca-se que:

[...] quanto mais desloca topograficamente as personagens, mais o romancista fica sujeito a fazer um exame rápido e superficial do drama que carregam, e sem o qual não há romance. E como o deslocamento físico se prende necessariamente a novas aventuras, o narrador corre o risco de ater-se mais ao anedótico que ao dramático. A história, nesse caso, ganha em vivacidade e dinamismo, e perde em concentração. (MOISÉS,1985, p.103) 

Então, o fato da personagem permanecer em um mesmo lugar lhe traria maior densidade psicológica. Isso lhe possibilitaria mais reflexão e, logo, uma possível mudança em sua personalidade. No entanto, Hassan não evolui psicologicamente: ele mantém até a morte a personalidade que apresentava desde criança.

De acordo com Bonnici & Zolin (2003), a teoria bakhtiniana de que não há tempo separado de espaço, é evidenciada por Hosseini, sendo que um influenciou diretamente no outro.

O ambiente é caracterizado pela guerra com a União Soviética, que é a responsável pela imigração - a princípio, provisória - de Amir e baba para os Estados Unidos. Após esse fato, o ambiente é tomado pelos Talibãs, que assumem o poder de forma religiosamente fanática, massacrando etnias minoritárias e punindo impiedosamente os que são julgados pecadores.

O enredo se constrói basicamente em torno da vida de duas crianças, Amir e Hassan, ambos órfãos de mãe e que desconhecem o fato de possuírem a mesma origem paterna. Eles pertencem a etnias diferentes, pashtun e hazara, respectivamente, e têm um ao outro como grandes amigos. Entretanto, um amigo é cruel e desonesto enquanto o outro, leal e generoso:

Hassan pegou as damas.
- Sabe, acho que você vai deixar agha sahib muito orgulhoso amanhã.
- Acha mesmo?
- Inshallah – disse ele.
- Inshallah – repeti eu, embora a idéia de uma “vontade de Deus” não soasse muito sincera em minha boca. Isso era um dos problemas com Hassan. O desgraçado do garoto era tão puro que a gente sempre parecia hipócrita perto dele.
Comprei o rei e joguei a última carta, o ás de espadas. Ele tinha que comprá-la. Ganhei, mas enquanto embaralhava as cartas para uma outra partida, tive a clara suspeita de que Hassan tinha me deixado ganhar. (OCP, p. 64)

Entre essa amizade, há a grande competição pela atenção de baba. Embora Hassan não seja reconhecido como filho, baba constantemente compara seu primogênito ao filho de seu pecado. Apesar do assunto não ser comentado abertamente, Amir percebe a preferência de seu pai pelo outro, uma vez que Hassan, devido à tamanha boa fé, assemelha-se muito mais ao pai que o próprio Amir. É nessa carência de atenção e compreensão que tem início o conflito do romance. Amir participa de uma disputa sozinho, tentando atrair para si a qualquer custo o olhar do pai. Baba, porém, insiste em não aceitar, muito menos compreender as diferenças que existem entre eles.

Ao perceber que a única maneira de ser reconhecido pelo pai é fazendo o que este julga ser normal para um menino, Amir aprende a soltar pipas e torna-se vencedor em um campeonato local. Para que baba se orgulhasse ainda mais dele, seria bom mostrar a prova da vitória: a última pipa cortada por Amir no céu de Cabul.

É então que Hassan, não se contendo de tanto orgulho do amigo, corre em busca daquela pipa. Em meio ao trajeto de volta, já de posse do prêmio, Hassan é abusado sexualmente por Assef - o vilão da história, que conta com a cumplicidade de dois outros amigos.  Amir, criança, ainda em fase de aquisição de personalidade, assiste ao crime à distância e omite socorro ao amigo, num gesto inocentemente covarde e impensado. Além disso, adota uma postura de quem nada sabe, nada viu. A culpa da omissão, porém, o persegue. Numa tentativa incessante de defender a si mesmo, Amir manipula situações até que consegue afastar de si o amigo.

Analisando a narrativa quanto à classificação da personagem, lembrando que o foco de estudo é Hassan, revela-se que ele é personagem protagonista herói, pois, “é o protagonista com características superiores às de seu grupo.” (GANCHO, 1991, p.14). Para o leitor, Hassan é um mártir: aquele que é perseguido e discriminado, mas que defende seus ideais, mesmo que estes lhe levem à morte.

Quanto à caracterização da personagem, Hassan firma-se como personagem redondo, por apresentar um grau de complexidade maior que os outros e ser descrito por uma gama de aspectos, tais como sua aparência física, classe social, possuidor de uma boa conduta, que tenta propagar o bem através de seus exemplos. (GANCHO,1991, p.18).

Tal complexidade é evidenciada quando as expectativas do leitor não são confirmadas na narrativa, ou seja, cada vez que se espera determinada ação ou reação, a personagem age de maneira surpreendente. Desta forma, a atenção do leitor é atraída com mais intensidade, sugerindo um maior envolvimento de sua parte com a história, como se pode observar a seguir:

- O que você faria se eu desse com isso na sua cabeça? – perguntei, jogando o fruto nas mãos, para cima e para baixo.
[...]
- O que você faria? – repeti.
Hassan ficou sem cor. Perto dele, o vento soprava as folhas grampeadas da história que eu tinha prometido ler. Atirei a romã em cima dele. Ela bateu em cheio no seu peito com um jorro de polpa vermelha. O grito que ele deu estava cheio de surpresa e de dor.
[...]
Não sei quantas vezes o atingi. Tudo o que sei é que, quando finalmente parei, exausto e ofegante, Hassan estava todo lambuzado de vermelho, como se tivesse passado diante de um pelotão de fuzilamento. Caí de joelhos, cansado, sem forças, frustrado.
Foi então que Hassan apanhou uma romã e veio andando na minha direção. Abriu a fruta e a esmagou na própria testa.
- Pronto! – disse ele, com voz rouca, e com o suco vermelho escorrendo pelo rosto como se fosse sangue. – Está satisfeito agora? Está se sentindo melhor?
Depois, virou as costas e começou a descer a colina. (OCP, p.96)

Para um maior aprofundamento na análise deste romance, faz-se necessário que alguns pontos sejam esclarecidos, como a questão das diferentes etnias existentes no Afeganistão. O próprio romance nos mostra que os hazaras ainda sofrem discriminação e perseguição:

[...] encontrei um dos livros de minha mãe. O autor era um iraniano chamado Khorami. Soprei a poeira que o cobria, levei-o comigo para cama naquela noite e fiquei espantadíssimo ao ver um capítulo inteiro sobre a história dos hazaras. Um capítulo inteiro dedicado ao povo de Hassan! Foi aí que fiquei sabendo que meu povo, os pashtuns, tinha perseguido e oprimido os hazaras. Li que estes tentaram se rebelar contra os pashtuns no século XIX, mas foram ‘dominados com violência indescritível’. O livro dizia ainda que meu povo matou os hazaras, expulsou-os das terras, queimou as suas casas e vendeu as suas mulheres como escravas. Dizia também que essa opressão de um povo pelo outro se deveu em parte ao fato de os pashtuns serem muçulmanos sunni, ao passo que os hazaras são shi’a. (OCP, p.16)

Destaca-se que esta perseguição aos hazaras torna-se mais intensa após o domínio do Talibã. De acordo com Hosseini (2005), os hazaras pertencem à classe social mais baixa do país e não têm direito de exercer sua cidadania. Partindo dessa informação, observa-se a intertextualidade presente entre OCP e o fato histórico Holocausto. Assef, o vilão da história, se acha no direito de abusar sexualmente de Hassan, sobretudo por ele ser inferior:

[...] Sobre Hitler. Aquilo sim, é que era um líder. Um grande líder. Um homem de visão. [...] se tivessem deixado Hitler terminar o que começou, o mundo hoje seria um lugar melhor.
O Afeganistão é a terra dos pashtuns. Sempre foi e sempre será. Nós é que somos os verdadeiros afegãos, os afegãos puros e não esse “nariz achatado” aqui. Essa gente polui a nossa terra, o nosso watan. Sujam o nosso sangue! (OCP, p. 46 e 47)

Essa opressão social que os hazaras vivenciam no país certamente influencia no comportamento natural de Hassan, que desde muito cedo, mostra-se honesto, generoso e obediente, não ultrapassando os limites sociais que lhe são impostos. Sua índole impecável transcrita no romance faz intertextualidade com o ser humano idealizado pela visão cristã, conforme os escritos bíblicos:

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ Eu, porém, lhes digo: não se vinguem de quem fez o mal a vocês . Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado. (Mt 5: 5)

A preocupação de baba foi sempre voltada ao filho legítimo, que de acordo com o que se podia ver, não dotava de habilidades físicas para defender-se: “[...] Sabe o que acontece sempre que os vizinhos implicam com ele? Hassan intervém e põe todos para correr. Já vi isso com meus próprios olhos. [...] Um menino que não sabe se defender vai se tornar um homem incapaz de enfrentar o que quer que seja. (OCP, p. 30) O que baba via em Hassan e deixava de ver em Amir era irreal, pois Amir foi a única pessoa a ser defendida por Hassan durante todo o romance. Diz-se que a boa índole deste havia sido traçada desde o seu nascimento:

Apenas Sanaubar, deitada em um colchão manchado e sem lençóis, tendo Ali e a parteira para ajudá-la. E não precisou de muita ajuda, pois já ao nascer, Hassan foi fiel à sua natureza: era incapaz de machucar quem quer que fosse. Uns poucos grunhidos, um ou dois empurrões, e Hassan saiu. Saiu sorrindo. (OCP, p.18)

Essa incapacidade de ferir aos outros abre caminhos para que ele próprio seja ferido, tanto psicologicamente quanto fisicamente. Contrariando os conceitos de baba, que o julga capaz de defender-se como ninguém, Hassan se deixa apanhar:

Assef se ajoelhou por trás de Hassan, agarrou-o pelos quadris e ergueu um pouco o seu traseiro. Continuou segurando com uma das mãos e, com a outra, abriu a fivela do próprio cinto. Baixou o fecho ecler da calça jeans. Fez o mesmo com a cueca. Se ajeitou atrás de Hassan. Este não lutou. Nem mesmo se lamentou. Virou a cabeça lentamente e pude ver o seu rosto de relance. O que vi, ali, foi a resignação. Era um olhar que eu já tinha visto antes. O olhar de um cordeiro. (OCP,p.81)

O cordeiro simplesmente aceita a sua sina. Seu sacrifício vale a pipa que seu amigo merece por ter ganho o concurso local. O amigo que tudo vê é incapaz de tentar defendê-lo e ainda assim, silenciosa e secretamente, ele o perdoa. Essa é a idealização do ser humano de acordo com os princípios deixados por Jesus Cristo. Porém, não existe na Terra criatura humana capaz de ser fiel a ponto de fazer tanto bem, de oferecer um sacrifício real pelo bem do outro, de ser tão generoso em meio a tanta crueldade.

O ser humano real, proveniente de qualquer cultura, dotado de valores, sentimentos e senso crítico, age de forma racional, na qual se equilibram o Bem e o Mal. As pessoas não são completamente boas ou ruins, mas vivem com essas forças em equilíbrio. Hassan, no entanto, demonstra apenas uma das forças, que lhe traz conformidade: “Em um desses momentos, vi algo que nunca vou esquecer: Hassan servindo bebidas a Assef e Wali, em uma bandeja de prata. [...]” (OCP, p. 105).

O gesto de servir aos seus malfeitores aponta a característica mais forte da personagem: a humildade. Humildade essa que torna Hassan submisso a ponto de assumir erros que não cometeu, no intuito de proteger Amir: “-Você roubou esse dinheiro? Roubou o relógio de Amir, Hassan? – perguntou ele. A resposta foi uma única palavra, dita em voz baixa e rouca: - Roubei.” ( OCP, p. 110)
Nem mesmo a esposa de Hassan mereceu tal proteção, como ele próprio descreve na carta destinada ao grande amigo:

Outro dia, fui com Farzana jan ao mercado para comprar batatas e naan. Ela perguntou ao vendedor quanto custavam as batatas, mas ele não ouviu. Acho que é um tanto surdo. Então Farzana jan falou um pouco mais alto e, de repente, um jovem talib veio correndo e bateu nas coxas dela com o bastão que carregava consigo. A pancada foi tão forte que ela caiu no chão. E ele ficou gritando, xingando e dizendo que o Ministério do Vício e da Virtude não permite que as mulheres falem alto. Ela ficou com uma grande mancha roxa na perna por vários dias, mas o que eu poderia fazer, a não ser ficar parado ali, vendo minha mulher ser espancada? [...] (OCP, p. 217)

O passar dos anos poderia ter abrandado o amor que Hassan sentia por Amir, mas só fez com que as memórias dessa amizade permanecessem vivas: “Hassan queria saber muitas coisas. Se você estava casado. Se tinha filhos. Que altura tinha. Se ainda empinava pipas e ia ao cinema. Se era feliz. [...]” (OCP, p. 209)

Por tanto querer saber do amigo, Hassan escreve-lhe uma carta falando dos sonhos que o perseguem e que espera a volta de Amir à Cabul, onde o encontraria fiel à sua espera. (OCP, p. 218 e 219). A profecia cumpre-se em parte quando Amir de fato retorna à sua terra. Hassan - o amigo fiel, porém, já não existe. Amigos como ele só existem em  histórias como esta.

Referências bibliográficas

Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, 1991.
BONNICI, Thomas e ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem, 2003.
BRAIT, Beth. A personagem. 5ª e.d.São Paulo: Ática, 1993.
GANCHO, Cândida Vilares. Como Analisar Narrativas. São Paulo: Ática, 1991.
HOSSEINI, Khaled. O caçador de pipas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.                                                                     
MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1985.


1 Doravante, a sigla OCP substituirá o título do romance O caçador de pipas.
2 Maneira carinhosa usada para se referir ao pai de Amir, cujo nome não foi destacado na narrativa.

 

Artigos já publicados

D. João Carioca, de Lilia Moritz Schwarcz e Spacca

Comentário sobre a feliz parceria entre a historiadora Lilia Moritz Schwarcz e o cartunista João Spacca de Oliveira, que resultou no livro “D. João Carioca: a corte portuguesa chega ao Brasil (1808-1821)”, uma história em quadrinhos publicada pela Editora Companhia das Letras e que trata dos motivos e conseqüências da transferência da corte portuguesa ao Brasil em 29 de novembro de 1807.

Leia mais...