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O tempo na vida de um caçador de pipas Imprimir E-mail

Andreza Antunes
Jonas Nunes
Michele Corrêa
(Acadêmicos do Curso de Letras / FURB)

Uma das unidades da narrativa que vale destaque para análise no romance O Caçador de Pipas é o tempo. Primeiramente, far-se-á um breve resumo da história para que haja um entendimento.

O quanto vale uma amizade? Este é o grande questionamento que permeia a bela história de “O caçador de pipas”. Um garoto rico chamado Amir e o filho do empregado de seu pai, Hassan, são grandes amigos em Cabul. Sua principal diversão é soltar pipas e Hassan tem um talento especial em encontrar as que eram cortadas em competições com linhas de cerol. Além desta brincadeira, Amir gostava de escrever histórias e seu amigo de escutá-las.

Hassan é o garoto pobre e ingênuo, amigo do filho do patrão, mas está de tal forma comprometido com sua amizade, que chega a dizer que comeria terra se lhe fosse pedido pelo amigo. Destaca-se também o papel do pai de Amir, Baba, como é chamado, que tem uma relação formal demais com o filho, sendo exigente.

Durante o campeonato anual de pipas, Amir conquista a admiração do pai ao bater seu recorde de pipas derrubadas. Quando Hassan, feliz com a vitória, vai buscar a última pipa para o amigo, o garoto é violentado sexualmente por um rapaz, que o descriminava. Pela demora, Amir vai procurá-lo e testemunha a cena sem tomar alguma atitude.

O sentimento de culpa por não ter defendido o amigo somado aos ciúmes do carinho de seu pai por Hassan, cegam Amir. A partir daí, tenta uma forma de expulsá-lo de sua casa até conseguir.

A história dá passos largos com a separação dos amigos. O Afeganistão é invadido pela União Soviética e Amir foge com seu pai para os Estados Unidos. Lá cresce como imigrante e só depois de adulto, já casado, publica seu primeiro livro.

O jovem Amir, protagonista de “O Caçador de Pipas”, muitas vezes é confundido como o grande vilão do drama. Mas ocorre a chance de redenção de sua história. “O Caçador de Pipas” torna-se ainda mais especial por retratar detalhes da cultura islâmica, especialmente suas tradições e tabus.

Valores como amizade e perdão são os grandes destaques. Hassan é o amigo fiel, de coração aberto, disposto a amar até o fim. Amir é frágil, mas tem a chance de mostrar a força que existe dentro dele – que é gerada pelo perdão dado a si mesmo. Seu pai, Baba, é a figura que contesta a tradição, mas não se desliga dela – por ser sua única força de vida (a sua fé).

Tendo abordado a idéia principal do romance, percebe-se que uma das unidades que se sobressai é o tempo, portanto nos remeteremos a analisá-lo.

Massaud Moisés (1997, p. 182), define a existência de três tipos fundamentais de tempo: o cronológico, o psicológico e o mítico. “O primeiro é marcado pelo ritmo do relógio, consoante as mudanças regulares operadas no âmbito da Natureza e empiricamente perceptíveis [...]”. O tempo psicológico é marcado pelo tempo interior, pelas sensações, idéias, pensamentos, pelas “vivências”. Tempo mítico: “É o tempo do ser, estando relacionado ao eterno, ao infinito, aos ritos e celebrações sagradas de todos os tempos.”

Genette (2003, p. 44) propõe, em relação ao tempo, uma distinção básica entre o tempo da diegese (história narrada, fábula) e o tempo da narrativa propriamente dita (discurso narrativo, história narrativa, trama).

Segundo Bonnici e Zolin (2003, p. 44-45), tanto a diegese quanto o discurso narrativo estão envoltos em um fluxo temporal, este que está sujeito a distorções temporais decorrentes da construção da narrativa.

O romance em destaque é marcado pelo tempo psicológico, que naturalmente vincula-se ao tempo cronológico. O tempo psicológico expressa a dimensão subjetiva do personagem. É o tempo filtrado pelas vivências, ao longo da qual experimentam sensações e emoções no contato com a realidade objetiva e no contato com suas memórias, fantasias e desejos. Como se pode observar no seguinte trecho do romance: “Lembro de ter desejado que Rahim Kham estivesse lá”. (OCP1, p.174)

O tempo cronológico equivale ao tempo do relógio e se expressa numa sucessão de eventos, como se pode observar no seguinte trecho:

Todo ano, no primeiro dia em que começa a nevar, faço a mesma coisa: saio de casa bem cedo, pela manhã, ainda de pijama, apertando os braços contra o peito para enfrentar o frio. Vejo a entrada, o carro de meu pai, o muro, as árvores, os telhados e as colinas cobertos por mais de um palmo de neve. (OCP, p.54)

Ao analisar o filme baseado no romance, o tempo cronológico é muito perceptível, por exemplo, no momento em que Amir encontra Sohrab, filho de Hassan, e o leva para os Estados Unidos para morar com ele e sua esposa. O tempo entre o encontro e a viagem aos Estados Unidos é rápida, de forma que se comparado ao livro, momentos cruciais são descartados na narrativa cinematográfica.

Encontra-se ainda, marcas do tempo mítico. O mítico sobressai-se na religiosidade do povo Afegão, este que recorre à divindade como um porto seguro: “Entretanto Allah foi bondoso conosco.” (OCP, p. 213)

O livro aborda o tempo mítico em vários momentos, mas para compará-lo com o filme, destaca-se o momento em que Sohrab foge do hotel, onde ele e Amir estão hospedados. Ao perceber que o garoto não está mais no quarto, Amir vai atrás dele e o encontra sentado perto de uma mesquita, conversa e o convence a voltar. Essa passagem também é retratada no filme, mas diferenciada. Amir entra na mesquita e clama a Allah, ao voltar para o hotel, encontra Sohrab sentado na escada.

O tempo da narração, associado ao registro dos acontecimentos, fatos e ações no discurso narrativo, desenvolve-se em três perspectivas: ordem, duração e freqüência.

O romance e filme analisados são uma narrativa in media res: discurso narrativo iniciado com a apresentação de um acontecimento que faz parte do desenvolvimento da diegese, ou seja, um acontecimento que faz parte da mesma, observado em: “Um dia, no verão passado, meu amigo Rahim Kham me ligou do Paquistão. Pediu que eu fosse vê-lo.” (OCP, p. 9).

Faz-se uso de um recurso chamado analepse (flashback) que Bonnici e Zolin (2003, p.45), classifica como “estratégia utilizada pelo autor para retornar a acontecimentos anteriores no tempo da diegese”:

Fiquei pensando naquele dia de 1974, no quarto do hospital, pouco depois da cirurgia no lábio leporino de Hassan. Baba, Rahim Kham, Ali e eu nos amontoamos em volta da cama, loucos para vê-lo examinar o lábio novo no espelho de cabo. (OCP, p. 220)

Ocorre também a prolepse (flashforward) que segundo Bonnici e Zolin (2003, p. 45), “representa antecipações no tempo que permitem a anteposição no plano do discurso narrativo de fatos que acontecerão posteriormente”. Como ocorre em: “Mas agora, sim. O meu corpo estava todo quebrado – só mais tarde ía descobrir em que estado ele realmente estava --, mas me sentia curado. Enfim curado. E ria”. (OCP, p.287 - grifo nosso)

Quanto à duração dos acontecimentos, o autor apresenta uma síntese, ou seja, narra brevemente acontecimentos, que tiveram duração mais longa no plano da diegese. O narrador resume fatos ocorridos durante um certo período de tempo, utilizando discurso indireto. Chama-se sumário e pode ser observado em: “E, desta vez, fiz o que não tinha feito em quinze anos de casado: contei tudo para a minha mulher. Tudo mesmo.” (OCP, p. 321)

No romance nota-se a elipse que Bonnici e Zolin (2003, p.45), define como “a omissão no discurso narrativo, de acontecimentos ocorridos no plano da diegese”. Pode-se perceber esse conceito em um trecho do romance: “ – Aconteceu alguma coisa com ele, Amir agha? – Como posso saber?”. (OCP, p. 86).

Um dos recursos utilizados para a construção do tempo psicológico é o monólogo interior, que seria um diálogo mental da personagem, na qual a mesma se questiona sobre uma determinada situação dramática, como em: “Desejei que ele revidasse, que arrombasse a porta, que me dissesse poucas e boas. Assim, seria mais fácil; tudo ficaria melhor. Mas não fez nada disso [...]”. (OCP, p.93).

Outro recurso é o fluxo de consciência, no qual passado e presente misturam-se na mente da personagem, o pensamento da mesma flui sem ser interrompido, como em: “Mordi a mão. Fechei os olhos. Uma recordação: Sabia que Hassan e você mamaram do mesmo leite?” (OCP, p. 79 – grifo nosso).

O tempo cronológico é evidente na narrativa. Consegue-se distingui-lo perfeitamente, com as passagens descritivas dos anos e das estações. O tempo psicológico, além de evidente é o que mais predomina, pois ao lutar com seu sentimento de culpa, com os ciúmes que sente do pai, Amir jan sofre emocionalmente. Uma simples ligação traz em sua mente e coração, todos aqueles conflitos que tentou esquecer, e é com toda essa emoção e sentimento, que conta sua história. A vida segue em frente, apesar das tragédias, assim como uma pipa jamais para de flutuar no céu.

Referências

BONNICI, Thomas e ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Eduem, 2003. p. 314.
MASSAUD, Moisés. A criação literária: prosa I. São Paulo: Cultrix, 16ª ed; 1997; p. 355.



1 A partir desta citação usar-se-á a sigla OCP para O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, 2005.
 

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