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Personagens em foco Imprimir E-mail

Personagens em foco: uma abordagem analítico-comportamental de Amir e Hassan na obra “O Caçador de Pipas”

Adriana Campestrini
Kátia Regina Silveira
(Acadêmicas do Curso de Letras / FURB)

É sob o âmbito da ótica estruturalista de abordagem, que se desenvolve o presente artigo, sinalizando conceitos extraídos da teoria literária que corroboram a análise descritiva e interpretativa das personagens Amir e Hassan na obra “O caçador de pipas” do autor Khaled Hosseini.  Além da transcrição de trechos da narrativa que firmam as diversas situações discorridas, o trabalho disponibiliza ao leitor um conhecimento prévio do romance em epígrafe. Uma reflexão analítica que também contempla uma correlação do comportamento das personagens com situações da vida real.

Importa-se, inicialmente, retomar a idéia estabelecida ao longo da história da literatura sobre a compreensão do papel funcional da personagem na ficção. Por séculos, discussões e controvérsias estabeleciam uma íntima correspondência entre esse elemento da narrativa e o ser humano.  A personagem era especialmente concebida pelo poeta para transformar-se num modelo humano moralizante. No entanto, tal concepção baseada na teoria da “mimesis aristotélica”, tomou novos rumos a partir do século XX, promovendo a personagem à condição de ser de linguagem. Segundo Bonnici e Zolin (2003, p. 38) a personagem é:

Um ser construído por meio de signos verbais, no caso do texto narrativo escrito, e de signos verbi-voco-visuais, no caso de textos de natureza híbrida como as peças de teatro, os filmes, as novelas de televisão etc. As personagens são, portanto, representações dos seres que movimentam a narrativa por meio de suas ações e/ou estados.

Assim, de acordo com a nova proposição, torna-se possível um trabalho mais acurado de análise das personagens, buscando na construção do texto, os caracteres que manipulam a atitude, a função, a psicologia, enfim, a vida desses seres de ficção que o autor imagina.

Além dessa retomada histórica, convém rever conceitos teóricos que, na medida em que forem aferidos pela própria análise, sedimentarão a aprendizagem adquirida nas aulas de Teoria Literária, potencializando a base de conhecimento para futuras ações.

Conforme o grau de importância para o desenvolvimento do conflito dramático, a personagem pode ser classificada em principal ou secundária. Para Beth Brait (1993), a personagem principal é aquela cuja ação é fundamental para a constituição e o desenvolvimento do conflito dramático, desempenhando geralmente a função de herói na narrativa. As personagens principais, os protagonistas que configuram a análise deste artigo são Amir e Hassan.  Baba1, o pai de Amir, também é um elemento de destaque, assumindo a função de personagem principal no romance, no entanto, este artigo analisa-o indiretamente já que o foco em destaque é a descrição e interpretação das personagens Amir e Hassan. As demais também citadas neste trabalho são personagens secundárias, as quais apresentam função subalterna, atraindo em menor escala a atenção e o interesse do leitor. Todavia, conforme o curso dos acontecimentos na história, algumas delas podem revelar-se importantes para o desenvolvimento do conflito. Viabilizam-se as seguintes neste artigo: Rahim Khan, Soraya e Sohrab.

Quanto ao grau de densidade psicológica, Brait (1993) classifica a personagem em: plana, plana com tendência a redonda e redonda. O presente artigo deter-se-á ao conceito e interpretação das personagens plana e redonda, uma vez que estas representam o baixo e o alto grau de densidade psicológica que categorizam respectivamente os dois protagonistas em análise: Hassan e Amir.

De acordo com as proposições teóricas de Bonnici e Zolin (2003), as personagens planas apresentam um conjunto limitado de traços psicológicos que se mantêm inalterados ao longo da narrativa. Podem também ser identificadas através da sua categoria social. Neste caso, são ainda denominadas de personagens planas tipos. Representam a relação linear entre seus atributos psicológicos e suas ações. Já as personagens redondas representam a não linearidade entre a sua psicologia e as suas ações, envolvendo-se no domínio de conflitos, situações e tensões semelhantes à vida real. Marcam-se pela imprevisibilidade. Conforme assere Brait (1993, p. 41): “As personagens classificadas como redondas, por sua vez, são aquelas definidas por sua complexidade, apresentando várias qualidades ou tendências, surpreendendo convincentemente o leitor.”

Assim, com o amparo das possibilidades diversas oferecidas pela teoria literária, no que tange ao estudo da personagem, procede-se a análise dos protagonistas da obra O caçador de pipas, reconhecendo, todavia, a impossibilidade de diagnosticar neste artigo todo o universo que abrange o objeto em discussão.

Parte-se das palavras que funcionam como um fio condutor da trama, a primeira frase do romance proferida pela personagem Amir: “Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975.” (OCP, p.9)2

A partir dessa introdução, torna-se possível traçar algumas considerações. Primeiramente, percebe-se que o protagonista Amir é também o narrador do romance, ou seja, a história é narrada pela personagem principal através do uso da primeira pessoa do discurso. Amir está diretamente envolvido com os acontecimentos narrados. Confere ênfase a sua experiência, aos seus sentimentos, percepções e emoções, fazendo com que o leitor se instale ao seu lado, observando com interesse e expectativa suas ações ao longo da narrativa.  O leitor é movido pela sua imprevisibilidade.

O garoto é filho de baba, um homem poderoso da cidade de Cabul no Afeganistão, local onde se passa a maior parte da trama. Sabe ler, escrever, contar histórias e ser prepotente e superior ao dar ordens. Mas é introspectivo e covarde. Não sabe lutar, nem defender-se.  A construção dessa personagem na narrativa é marcada pela sua complexidade de características, conflitos e contradições, classificando-se, conforme destaca a teoria, na categoria de personagem redonda.  Reflete de modo denso dramas muito próximos da própria condição humana. Tais características e atitudes manifestam-se ao longo deste artigo.

Hassan, por sua vez, é o menino de lábio leporino, um humilde empregado da casa e amigo de infância de Amir desde que os dois eram bebês. É um exímio soltador e caçador de pipas. Faz de tudo para agradar ao seu grande amigo. É uma pessoa íntegra, fiel e sábia. Hassan é o modelo do ser cristão. Todos esses atributos conferem-lhe uma relação linear entre a sua psicologia e as suas ações na sequência da narrativa, possibilitando-se classificá-lo como uma personagem plana tipo. Suas características são invariáveis, a contar pela condição social desprestigiada na qual se insere, a marcante personalidade, a inabalável moral, a ideologia religiosa, entre outras.

Amir e Hassan pertencem a etnias e classes sociais diferentes, porém apresentam uma coisa em comum, são órfãos de mãe desde bebês, sendo criados por figuras masculinas, num ambiente de relações dominantemente masculinas. E dividem todas as brincadeiras nos primeiros anos de vida. Hassan, todavia, costuma assumir os erros do amigo e este os méritos. Amir, apesar da profunda amizade, deixa transparecer a sua insistente obsessão em implicar com Hassan, desafiando sua fidelidade. Mas o amigo Hassan não mente e jamais o trai. Teoricamente é a estabilidade psicológica e comportamental que define a personagem plana erguendo-se durante a narrativa. São momentos em que o leitor acaba denunciando sua preferência pela pureza de caráter de Hassan.

A obra conduz à imediata percepção da relação de afetividade que Hassan estabelece naturalmente com Amir: “E, sob o mesmo teto, dissemos nossas primeiras palavras. A minha foi baba. A dele, Amir. O meu nome.” (OCP, p.18) Amir atesta a sua posição em relação a Hassan desde esse primeiro momento, não deixando dúvidas de que ele era o garoto afortunado e que via na figura do pai o seu mais importante alicerce. Um referencial que, com o passar dos anos, acaba sendo questionado pelo próprio Amir, chegando a admitir que em nada se parecia com o pai.

Instaura-se aqui o ponto nevrálgico de toda a trama: o caráter perturbador e covarde de Amir erguido através da relação instável, duvidosa e obscura com o pai. Uma insegurança inicialmente gerada pela culpa de ter matado a mãe durante o parto, mas que se alarga em situações de carinho estabelecidas entre baba e Hassan. Quer que o pai o admire da mesma forma que admira Hassan, sem cobrar vitórias. Emerge o ciúme, a necessidade de ser superior a Hassan perante o pai.

Deste ponto em diante, pode-se analisar as circunstâncias vivenciadas pelo protagonista Amir, uma sucessão de traições e dramas decorrentes do seu perfil psicológico. A primeira, aos doze anos, no inverno de 1975, quando por medo e despreparo, Amir se omite a salvar Hassan da violência psicológica e sexual que este sofre nas mãos de um temido garoto afegão chamado Assef. Após caçar a última pipa cortada por Amir no campeonato anual, Hassan é abordado por três garotos mais velhos, entre eles Assef. Este deseja tomar-lhe a pipa caçada. Hassan, fiel a seu amigo, não permite a ação de Assef. Precisa da pipa intacta para entregá-la a Amir que, como um troféu pela vitória na competição, mostraria orgulhoso à baba.  “Por você, faria isso mil vezes!” (OCP, p. 73) – palavras que Hassan costumava proferir a Amir.  E pela pipa do amigo, Hassan entrega a fragilidade e pureza de seu corpo a Assef e guarda para si aquele momento de extrema dor e humilhação. Nasce a culpa que aprisiona a personagem Amir ao longo da narrativa. Cumpre-se a fidelidade de Hassan.

Torna-se viável, nesta altura, observar a introdução da personagem antagonista Assef.  Conforme discorre Gancho (1991, p.15), o antagonista “é o personagem que se opõe ao protagonista, seja por sua ação que atrapalha, seja por suas características, diametralmente opostas às do protagonista. Enfim, seria o vilão da história”.

Outro momento que endossa o traço psicológico tenso da personagem Amir é quando este premedita um suposto roubo de seu relógio e dinheiro na tentativa de incriminar Hassan perante baba.  Uma mediação proposital que culmina com a saída definitiva de Hassan da sua casa, entretanto, jamais da sua vida.  Amir mente e Hassan o protege de baba, assumindo um roubo que jamais cometera. Ergue-se a culpa no íntimo de Amir, confirmando sua segunda traição.

Transcorrem-se assim uma sucessão de fatos e tragédias tanto na vida de Amir, quanto na de Hassan. A invasão russa de 1981 não apenas transforma a vida dos afegãos, mas também prepara um novo destino para Amir e seu baba. Deixam o Afeganistão, escapando do regime soviético e vão para os Estados Unidos.  As demonstrações de força, coragem e persistência de baba ao enfrentar a fuga de seu país, fazem Amir refletir sobre a sua própria condição de vida. Enquanto observa o pai enfrentando os problemas com diplomacia e bravura, Amir foge dos seus, flagelando-se na culpa.  E, reconhecendo sua fraqueza, traduz o que restara ao pai: “[...] um filho que era uma decepção, e duas malas.” (OCP, p. 128)

Amir sente nos Estados Unidos uma possibilidade para esquecer o trágico passado. Suas palavras e ações confirmam a ânsia de se esconder da verdade, mascarando-a através da fuga:

“Nos Estados Unidos era diferente. Aqui era como um rio, correndo, sem pensar no passado. Eu podia entrar nesse rio, deixar os meus pecados mergulhados lá no fundo, permitir que a água me levasse para algum lugar ao longe. Algum lugar onde não houvesse fantasmas, nem recordações, nem pecados.” (OCP, p. 140)

A primeira vez que Amir assume uma decisão contrária à vontade do pai, acontece logo após a sua formatura nos Estados Unidos. Enquanto baba sonha com a ascensão do filho entrando numa faculdade de medicina, Amir manifesta seu desejo de ser escritor. É um momento em que a personagem deixa o seu “eu” interior sobressair-se, uma condição que até então se esvaía pelas imposições de baba. Sinaliza-se, ainda que de forma tênue, uma possibilidade para Amir libertar-se do aprisionamento estabelecido na infância.

Os anos passam, baba é diagnosticado com um câncer no pulmão. A doença do pai faz com que Amir se compadeça e passe a demonstrar sentimentos que pouco conhecia. É uma circunstância desafiadora que acaba conduzindo-o ao fortalecimento, algo que antes a mente cerceava-lhe. Nasce também o amor no coração de Amir. Conhece Soraya com quem se casa mais tarde. A bela moça encanta a baba também, fazendo com que este se orgulhe do filho pela terceira vez. A primeira, na infância, decorrente da vitória no campeonato de pipas de 1975 em Cabul. Já a segunda vez, acontecera na cerimônia de formatura do adolescente nos Estados Unidos.  Percebe-se novamente nessas formulações a relação tensa, o conflito psicológico entre Amir e baba erguido desde a infância, remetendo o foco ao ponto nevrálgico da narrativa já mencionado neste artigo.

Com a morte do pai, Amir depara-se com a dor e o medo de uma nova realidade: “[...] fui o filho de baba. Agora, ele tinha ido embora. Nunca mais poderia me mostrar o caminho a seguir. E eu ia ter que descobrir isso sozinho. Essa idéia me deixou aterrorizado.” (OCP, 177)

Após quinze anos da morte de baba, Amir recebe um inesperado telefonema de um grande amigo de seu pai, Rahim Khan, que mora no Afeganistão. Este recomenda a Amir que volte ao seu país de origem. Rahim sabe do passado conflitante de Amir e lança-lhe uma esperança de cura através das seguintes palavras: “Há um jeito de ser bom de novo.” (OCP, p. 194) Germina a oportunidade para Amir redimir-se do insólito passado e reconstruir a dignidade arruinada pela culpa avassaladora instaurada na infância.

Revelações comoventes marcam o encontro de Amir e Rahim Khan, como a morte de Hassan e sua esposa, a verdadeira paternidade de Hassan e finalmente a existência de um filho de Hassan na cidade de Cabul. Por um instante, Amir reafirma sua fraqueza de caráter, rebelando-se contra a verdade anunciada por Rahim. Ao saber que baba é o pai de Hassan, Amir insurge-se contra o passado de mentiras que tivera. Nota-se que a verdade duramente desvelada, deixa-o estático, revolto. É um momento em que a estrutura alicerçada do pai é desmantelada, levando-o a comparar-se a ele. Ambos haviam traído. Baba traíra Amir e este traíra Hassan.

Contudo, desprovido de escolha e meio de apagar sua história de vida, decide por fim enfrentá-la. Amir segue em busca do filho de Hassan, Sohrab, seu sobrinho. Compreende que esta é a oportunidade prenunciada por Rahim Khan ao telefone, a oportunidade de voltar a ser bom novamente. Segue em busca de Sohrab que vive sob a clausura e os abusos sexuais do oficial talibã Assef.   É a história repaginada de Hassan em que o protagonista, agora, é seu próprio filho. A cena perturbadora, testemunhada na infância, apresenta-se novamente à mente de Amir, fazendo com que este decida conquistar não apenas a liberdade de Sohrab, mas também a sua própria. E a alcança de forma desafiadora, perigosa, sem a proteção de baba, nem de ninguém.

A luta entre Amir e Assef provoca graves ferimentos físicos em Amir, no entanto, incomparáveis ao peso das lesões psicológicas que carregara ao longo da vida. A cura de Amir através de um grande sofrimento já era presumida por Rahim Khan: “[...] um homem que não tem consciência, que não tem bondade, não sofre. Tenho esperanças de que o seu sofrimento termine com essa viagem ao Afeganistão.” (OCP, p. 297)

Mas ainda enfrenta o desafio de levar Sohrab aos Estados Unidos, deparando-se com a oposição das autoridades americanas locais. Amir é aconselhado por um advogado a deixar Sohrab temporariamente num orfanato. Sohrab, entretanto, com medo de receber o mesmo tratamento cruel que recebera de Assef no Afeganistão, tenta o suicídio cortando seus pulsos. O garoto deseja a morte a viver ao lado de pessoas em que não mais confiaria, como o próprio Amir. Urge o arrependimento sincero de Amir. Em meio à dor e ao desespero, volta-se às orações que desaprendera, clama pela vida de Sohrab, suplica seu perdão, pede paz.  Ergue-se a personagem redonda, na sua complexidade, surpreendendo o leitor. É a reconstrução do caráter de Amir através da culpa e do arrependimento.

Relembrando a infância, Amir reconhece que não é mais Hassan quem deve provar sua honestidade e fidelidade ao amigo inseparável, mas ele, o imprevisível Amir, que precisa a todo custo assegurar suas melhores intenções a Sohrab.

Segue-se um período de compreensão, paciência e superação até que um dia, num campeonato de pipas, um pequeno sorriso de Sohrab enche Amir de alegrias. Cerra-se a culpa. Nasce o perdão.

Volta-se assim a pensar no fio condutor da narrativa, seja através do drama da culpa e da traição vivenciada pela personagem Amir, seja pelos traços antagônicos que compõem a personalidade das duas personagens principais. São dissonâncias facilmente perceptíveis, não apenas na obra, como também na vida real. Pode-se considerar o ser humano o próprio intertexto para a história, na proporção em que esta abarca elementos psicológicos e comportamentais bastante arraigados na vida comum dos seres. Há, talvez, muitos “Amir” e poucos “Hassan” entre os homens.

E ao discorrer-se sobre a intertextualidade da obra, resgatam-se subsídios que comprovam a dialogicidade que subjaz da superposição de textos ou de uma obra e um filme.

Na obra em análise, podem-se estabelecer algumas intertextualidades, a começar pelo próprio filme desenvolvido a partir do romance em questão. O filme, entretanto, conduz a uma percepção menos dramática do mundo interior das personagens e dos conflitos, o que implica um julgamento distinto ao obtido durante a leitura do livro. Outrossim, há de se considerar a profusão de recursos extra-textuais, a fantástica manipulação cinematográfica responsável pela produção do filme e todo o aparato instrumental que, reunidos, acabam por intervir na reação do público.  Bonnici e Zolin (2003, p. 303) fazem observações nesse sentido ao escrever:

O cinema apresenta, assim, uma linguagem específica que deve ser analisada em relação as suas técnicas e sistemas de significação, avaliando-se questões como iluminação, trilha sonora, mise-en-scene3,  enquadramento, corte e montagem. Esses elementos não podem ser analisados isoladamente, mas sim dentro do sistema de significação construído pelo filme. Todas essas técnicas fazem parte de um sistema de construção de significados.

Nesse contexto, percebe-se que as emoções são mais intensas no filme, como no momento em que Amir adulto lê a carta deixada por Hassan. A simplicidade, a pureza e, sobretudo, a fidelidade de Hassan imperam naquele instante, fazendo com que Amir corrompa-se pela culpa que a consciência reitera. É uma cena ímpar no filme que instiga o ser humano à sentimentalidade máxima.

Obras que retratam amor e ódio, raiva e perdão, paz e guerra, traição e fidelidade fazem intertexto com O caçador de pipas.  Entre elas, a história apresentada no livro A Filha da Minha Melhor Amiga, de Dorothy Koomson, um romance que retrata a forte relação de amizade entre duas companheiras desde o tempo da faculdade. Uma relação que é destruída num instante de traição, marcando suas vidas para sempre.  Uma trama que envolve traição, sofrimento, culpa compadecimento e perdão. Questões estas, fortemente abordadas na obra em análise. Outra intertextualidade possível de se estabelecer é a história do grande conquistador romano Caio Júlio César4  no tempo da Roma antiga.  Este é assassinado por sessenta conjurados, sendo um deles seu próprio filho adotivo e sobrinho Brutus. Surpreso, Júlio César diz: “Até tu, Brutus, meu filho?”5 Da mesma forma, poderíamos imaginar Hassan falando a Amir: “Até tu, Amir, meu amigo?”.

Ainda que este artigo não avance para o estudo detalhado do âmbito do enredo e suas diversas sub-partes, importa, todavia, sublinhar a verossimilhança subjacente da narrativa, tornando o enredo verdadeiro para o leitor. É o fio saindo de dentro do texto, envolvendo-o. São suas dores, fracassos, fraquezas, omissões ou mesmo suas venturas sendo reveladas através dos sentimentos das personagens Amir e Hassan. Num momento, o leitor é Amir, noutro é Hassan.

Estabelece-se assim uma inter-relação entre a obra e o leitor através do diálogo que ambos viabilizam, conferindo aproximação e reciprocidade entre eles. Tal princípio, formulado no conceito de dialogismo de Bakhtin6, pode ser assim compreendido:

O dialogismo parte do princípio lingüístico segundo o qual todo ato de linguagem sempre leva em conta a presença, ainda que invisível, de alguém para quem se fala ou escreve. Ora, se tudo o que se diz ou escreve é criado tendo em vista, ainda que subconscientemente, um interlocutor, então todo ato de linguagem participa, mesmo que num grau pequeno, da intenção de convencer, de persuadir o ouvinte/leitor; e também prevê, ou imagina prever, a(s) possível(is) reação(ões) desse ouvinte/leitor. (BONNICI; ZOLIN, 2003, p. 126)

E, seguindo a lógica do diálogo, vale entender a questão da alteridade que se abre na relação textual, essa visão do sujeito em relação ao um outro. Partindo do princípio de que a alteridade comporta o processo de aceitação e percepção dos valores do outro, torna-se possível formatar uma nova conduta crítica com relação à diversidade de atitudes interpessoais na obra.  O embate entre o texto narrativo e o leitor, induzindo-o ao julgamento, faz parte da prática da alteridade. É possível estabelecer, através da relação alteritária, uma relação mais pacífica com o texto, com o outro, com o que é diferente, aprendendo a conviver também com o contrário. “Enxergar o ponto de vista do Outro é uma forma de Diálogo.” (BONNICI; ZOLIN, 2003, p. 129).

Frente ao diverso, o leitor reveste-se inicialmente de preconceito e preocupação, inferindo um julgamento nem sempre pertinente. Na obra O caçador de pipas, é possível pré-conceber um quadro analítico das condições psicológicas e comportamentais das duas personagens principais a partir das situações inicias da trama.  Uma opinião que se constrói ao conhecer-se a pureza de caráter e fidelidade do menino Hassan, ao lado das inquietudes do amigo Amir, mas que avança com o curso da história, assegurando outras interpretações que a alteridade possibilita.

Afirmar, portanto, que Amir é o modelo típico do mau caráter, do anti-herói, seria precipitar uma inferência que ao fim da história conduz o analista a arriscar uma compreensão mais humana, alicerçada na formação do ser Amir no berço das suas relações conturbadas com o pai, caráter e ações, conclui-se, conseqüentes.

A presente análise, ainda que suscetível a futuras aferições e possibilidades para novos resultados, sela este artigo reportando-se à reflexão despertada pela personagem Amir e que contempla o ponto de honra que se ergue nos momentos finais do romance - o esperado perdão: “[...] fiquei imaginando se era assim que brotava o perdão, não com as fanfarras da epifania, mas com a dor juntando as suas coisas, fazendo as suas trouxas e indo embora, sorrateira, no meio da noite.” (OCP, p.354)

REFERÊNCIAS

BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá : Eduem, 2003. 314 p, il.
BRAIT, Beth. A personagem. 5.ed. São Paulo: Ática, 1993. 95p. (Princípios, v.3).
GANCHO, Cândida Vilares. Como Analisar Narrativas. São Paulo: Ática, 1991. 70p, il. (Princípios, 207).
HOSSEINI, Khaled. O caçador de pipas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 365p.


1 “papai” na língua árabe
2 A partir desta inserção será utilizada a sigla OCP para identificar as citações retiradas do livro  “O caçador de pipas”, do autor Khaled Hosseini, 2005.
3 Expressão francesa que significa “encenação”
4 Gaius Julius Caesar (seu nome em latim): grande líder militar e político da República Romana. Reinou como    ditador romano durante o período de outubro, 49a.C a 15 de março, 44 a.C quando foi assassinado.
5 Segundo a história, estas foram suas últimas palavras antes de morrer: “Tu quoque, Brute, filii mei?” (em latim)
6 Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1875-1975) – lingüista  russo  e grande filósofo da  linguagem, seu trabalho é considerado  influente  na  área  de  teoria  literária,  crítica  literária,  sociolingüística,  análise  do  discurso  e semiótica.

 

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