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“A literatura em perigo”, de Tzvetan Todorov Imprimir E-mail

capaO búlgaro Tzvetan Todorov tornou-se referência nos estudos literários a partir de seus trabalhos de análise das estruturas narrativas. Em seu livro “A literatura em perigo”, aponta para a necessidade de se resgatar parte do espírito do século XIX, que reconhecia na literatura uma verdade sobre o mundo. Para o autor, o texto literário tem muito a dizer sobre o ser humano, principalmente porque se permite incursionar para além do censurável, revelando assim o indivíduo, o particular.

“A literatura em perigo”, de Tzvetan Todorov

O búlgaro Tzvetan Todorov tornou-se referência nos estudos literários a partir de seus trabalhos decapa análise das estruturas narrativas. Nascido em 1939 em Sófia, migrou para a França em 1963 a fim de aprofundar seus estudos em literatura, onde conheceu Gérard Genette e Roland Barthes – com o qual trabalhou. Muito de suas pesquisas iniciais e da sua adesão ao estruturalismo, deu-se pela condição política em que se encontrava a Bulgária no tempo da sua graduação em Letras. Com o país integrando a Cortina de Ferro, a inteligência búlgara via-se na condição de legitimadora da ideologia soviética. Assim, a opção de muitos acadêmicos e intelectuais pelo Fomalismo Russo funcionava como uma espécie de válvula de escape ao stalinismo. Ao analisarem a gramática do discurso literário, esses acadêmicos e intelectuais viam-se desobrigados a fazer apologia à ditadura do proletariado, bem como se preservavam do risco de tecer críticas ao conteúdo doutrinário das obras que eventualmente viessem estudar. É nesse contexto que Todorov inicia sua caminhada acadêmica e, ao ingressar na universidade francesa, juntamente com Roland Barthes, contribui para mudar o caráter dos estudos literários da França, até então quase que exclusivamente focados no aspecto nacional de uma obra ou autor.

Em seu livro “A literatura em perigo” (2007), Tzvetan Todorov esboça um breve inventário sobre sua trajetória enquanto leitor e crítico literário e persegue, quase que arqueologicamente, a história dos olhares sobre a literatura ocidental para poder propor, primeiramente a si próprio e depois a seus leitores, uma nova abordagem da literatura, considerando principalmente aquilo que esta tem a dizer à sociedade, observado mais seus sentidos e menos suas estruturas formais, promovendo assim uma profunda ruptura inclusive com sua própria obra, o que requer grande honestidade e independência intelectual. Tal posição fica clara, por exemplo, no capítulo “A literatura reduzida ao absurdo”, onde Todorov discute o ensino de literatura no nível secundário francês e compara-o a um edifício em construção que, depois de pronto, deveria se ver livre dos andaimes, já que importa mesmo o prédio, sua arquitetura e funcionalidade. Entretanto, o que se percebe nos estudos literários é a manutenção dos andaimes e a transformação destes em objeto de estudo; um equívoco reforçado a partir da segunda metade do século XX, não só pela crítica formalista, mas também por aquilo que Todorov chama de concepções niilistas e solipsistas da literatura (dado ambas repousarem “na ideia de que uma ruptura radical separa o eu e o mundo”), relativizando as verdades contidas nos textos literários e desvinculando-os da realidade externa ou autoral que os produziu. Ou seja, Todorov defende a compreensão do texto enquanto produção inserida social e temporalmente, bem como a relação do discurso literário com outros discursos, o que o leva a afirmar que “não é por acaso que, ao longo da história, suas fronteiras foram inconstantes”. Neste sentido, o crítico búlgaro parece aproximar-se daquilo que o filósofo francês Michel Foucault chamou de ordens discursivas. A verdade da literatura, as regras que regem a produção dessa verdade, são observadas nos diversos discursos (historiográfico, filosófico, científico etc), e suas fronteiras disciplinares ora se tornam mais nítidas, ora mais diluídas, como se percebe atualmente, principalmente se observarmos os diálogos entre a literatura e a história e suas supostas “crises identitárias”.

Em sua abordagem arqueológica, Tzvetan Todorov discute as diferentes concepções de literatura na história ocidental, para marcar sua trajetória. Marcar não no sentido teleológico, evolutivo, que esta palavra pode dar a entender, mas para demonstrar as diferentes concepções a respeito da arte e da literatura, bem como procurando reforçar o caráter relacional da literatura com os demais saberes e o mundo. O primeiro marco estabelece-se entre a estética aristotélica – e sua função de mímesis – e a Europa Cristã, que atribuia à arte o caráter de glorificação. Com o Renascimento, o artista equipara-se a Deus, pois a ele cabe a função de criar. No século XVIII, segundo Todorov, há uma espécie de deslocamento, do criador para o observador, ou seja, “o objetivo da poesia não é nem imitar a natureza nem instruir e agradar, mas produzir o belo (...)” que “se caracteriza pelo fato de não conduzir a nada que esteja além de si mesmo”. Esse deslocamento implica em uma espécie de laicização da ideia de divindade, já que “a Deus apenas devemos nos contentar em fruir, isto é, temos de amá-lo em si mesmo”. O que se percebe, portanto, a partir do século XVIII, é uma espécie de soberania do artista, uma transcedência da arte em relação à teologia e ao mundo, o que corresponde ao mundo laico que o humanismo propõe construir. Porém é no século XX, e sob influência do pensamento de Nietzsche, que se observa uma ruptura definitiva entre as ordens discursivas e a verdade. O princípio da impossibilidade de se conhecer a verdade, segundo Todorov, lançou os estudos literários a uma “concepção absurdamente reduzida do literário”.E é essa concepção reduzida daquilo que a literatura pode dizer a respeito do mundo que o autor propõe modificar.

Em “A literatura em perigo”, Tzvetan Todorov aponta para a necessidade de se resgatar parte do espírito do século XIX, que reconhecia na literatura uma verdade sobre o mundo. Para o autor, o texto literário tem muito a dizer sobre o ser humano, principalmente porque se permite incursionar para além do censurável, revelando assim o indivíduo, o particular. Incursão que o escritor realiza, adontando o ponto de vista do outro. “Que melhor introdução à compreensão das paixões e dos comportamentos humanos do que uma imersão na obra dos grandes escritores que se dedicam a essa tarefa há milênios?” – indaga; e esta pergunta de Todorov ganha ainda mais importância nestes tempos de biopoder, em que o indivíduo dá lugar à ideia de população, cujo controle se dá por meio dos saberes estatísticos e funcionais.

Ao libertar a literatura “do espartilho asfixiante” das críticas formalistas, Todorov devolve-lhe seu caráter humanista, reconhecendo-lhe uma verdade e uma capacidade de estar no mundo. O que não é pouca coisa.

Texto: Viegas Fernandes da Costa

 
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