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Marley & Eu: o espaço e o tempo na vida de um cão Imprimir E-mail

capaNeste breve ensaio, a estudante de Letras Daniela Cristofolini analisa a espacialidade e a temporalidade no livro Marley & Eu, do jornalista John Grogan. A obra conta a história real do autor e da relação que este estabeleceu com seu cão de estimação.

Marley & Eu: o espaço e o tempo na vida de um cão

Daniela Cristofolini
Graduando em Letras / FURB

Publicado em 2006, o romance Marley & Eu: a vida e o amor ao lado do pior cão do mundo, escrito por John Grogan é dividido em 29 capítulos, onde o autor enfatiza sentimentos e emoções que passam pela vida das pessoas, e como é importante para uma pessoa ter um cão de estimação.

Para análise deste romance, vale destacar duas unidades da narrativa, o espaço e o tempo.

Marley & Eu é uma história verídica e emocionante, o foco da narrativa se passa dentro do contexto de uma família americana e seu animal de estimação. John Grogan e sua esposa Jenny são um casal de jornalistas recém casados que têm em comum o amor por cães e, logo, decidem comprar um filhote. O casal resolve ficar com um filhote de labrador amarelo, o mesmo foi escolhido por ser o mais “espertinho” da ninhada. A mãe do filhote era calma e agradável, mas quando o casal deixa a propriedade eles encontram uma fera indomável, sendo este, o pai de Marley.

O casal passa por muitas discussões para escolher um nome ao cão. Depois de inúmeros nomes resolvem chamá-lo de Marley, em homenagem ao cantor Bob Marley, que na época era a trilha sonora do casal. Marley já entra na história da família desde o começo desta, participando de todos os acontecimentos, desde a primeira gravidez, as mudanças de emprego, a chegada dos filhos e, assim, crescendo como membro da família.

Na primeira tentativa de gravidez de Jenny, ela sofre aborto. Marley estava do lado dela compartilhando as tristezas. O tempo passa e Jenny e John ganham três filhos: O primeiro chama-se Patrick, o segundo Connor, e o terceiro uma menina, cujo nome é Colleen.

Desde o começo, John e Jenny percebem que Marley não é um cão comum, ele não obedece, tinha pavor de chuva e se ficasse sozinho em casa nessas ocasiões destruiria tudo. Fora levado ao veterinário muitas vezes, passara por uma escola de adestramento, tomara comprimidos calmantes, mas nada resolveu. Por outro lado, Marley era um cão encantador.

São inúmeras as aventuras de Marley, como: ter aparecido em um filme, ter comido um anel que John deu a sua esposa, ter destruído uma quantidade de coisas e babar em cima de todas as visitas.

O tempo foi passando e Marley chegando a sua velhice, com isso, muitos problemas foram surgindo como: não ter mais forças nas patas para subir a escada.

O inverno era muito ruim para Marley, pois a neve era intensa e ele estava perdendo muito pelo. Os filhos do casal, já estavam crescidos e o amavam muito.

Uma doença muito grave leva a família Grogan a tomar uma decisão muito difícil, injetar um líquido para que Marley se fosse para sempre. Marley foi enterrado entre duas cerejeiras, eram as mesmas árvores por onde certo dia, Marley e John passaram disparando com um tobogã. Mas apesar da dor intensa, da saudade, Marley deixa uma lição no coração da família, Marley os ensinou que é preciso viver a vida com alegria, aproveitar cada momento e seguir o coração, ensinou apreciar as coisas simples e, apesar da velhice, ensinou a manter o otimismo diante da diversidade. Mas acima de tudo ensinou a amizade e a lealdade incondicional.

Depois de um breve resumo do romance, percebe-se que vale analisar o espaço e o tempo. Primeiramente, analisar-se-á o espaço.

O espaço compreende o conjunto de referências do caráter geográfico e/ou arquitetônico que identificam o (s) lugar (es) onde se desenvolve a história. Ele se caracteriza, portanto, como uma referência material marcada pela tridimensionalidade que situa o lugar onde os personagens, situações e ações são realizadas. (BONNICI E ZOLIN, 2003, p. 108).

Segundo Massaud Moisés (1974, p. 108), “se se trata de história urbana, o cenário será predominantemente o construído pelo homem, ou seja, o interior de uma casa (sala de visitas, sala de jantar, quarto de dormir sótão, mansarda, cozinha, etc.) ou as ruas” [...].

Em vez disso, levantei-o dentro da caixa e levei-o para meu quarto, colocando-o no chão ao lado da minha cama. Deitei-me na beira da cama e deixei meu braço pendurado para dentro da caixa. Ali, com a mão sobre ele, sentindo o seu peito subir e descer enquanto respirava, desmaiamos de sono. (GROGAN, 2006, p. 36)

Em um determinado espaço, o que caracteriza determinada situação dramática é o ambiente. De acordo com BONNICI e ZOLIN (2003, p.44) “o ambiente é, portanto o “clima” a “atmosfera” que se estabelece entre as personagens em determinada situação dramática” [...].

Havia um lugar, no entanto, uma pequena nesga de areia pouco conhecida, sem avisos ou cartazes, sem proibições, ou restrições em relação a quadrúpedes amantes de água. A praia estava escondida em bolsão não-incorporado do Condado de Palm Beast entre West Palm Beach e Boca Raton, estendendo-se por uma centena de metros, por trás de uma duna coberta de relva ao final de uma rua sem saída. Não havia estacionamento, banheiros salva-vidas, apenas um pedaço inexplorado de areia branca displicente estendida do mar sem fim [...]. (GROGAN, 2006, p.208)

Um ambiente pode apresentar várias situações, ele pode ser uma cena de alegria, tristeza, amor, e também um cena dramática. Segundo BONNICI e ZOLIN (2003, p. 44) “conforme o conflito dramático se desenvolve a partir das ações das personagens, o quadro relacional estabelecido entre elas muda, alterando a situação dramática e, portanto, o ambiente”. No romance percebe-se o seguinte trecho:

Foi nesse ambiente volátil que cheguei certa noite em casa. Abri a porta e vi Jenny esmurrando Marley. Ela estava chorando descontrolada e espancando-o nas costas, nos ombros e pescoço.
- Por quê? Por quê você faz isso? – ela gritava com ele.
- Por quê você destrói tudo?
Nesse momento vi o que ele fizera. O sofá estava arrebentado, o tecido rasgado e o estofamento puxado para fora. Marley estava com a cabeça baixa e as patas esparramadas como se estivesse dentro de um furacão. Ele não tentou fugir ou evitar os murros, apenas ficou ali parado, aguentando a surra, sem chorar ou reclamar. (GROGAN, 2006, p. 149)

O segundo foco a ser analisado no romance é o tempo.  O mundo é constituído por datas, horas, meses do ano, tempo histórico, ou seja, o tempo se desenvolve através da história.

Massaud Moisés (1974, p. 102) define a existência de dois tipos de tempo fundamentais: o cronológico ou histórico, e o psicológico ou metafísico. “O primeiro corresponde à marcação das horas, minutos e segundos, no relógio” [...] “ o tempo psicológico caracteriza-se por desobedecer ao relógio e fluir dentro das personagens como um tempo sem duração, sem começo, nem meio, nem fim” [...].

O romance em destaque é marcado pelo tempo cronológico e o tempo psicológico. O tempo cronológico é marcado pela duração, datas, meses, anos estações, etc. O tempo escoa como se o ficcionista pudesse cronometrar todas as ações das personagens, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia.

À medida que os dias se transformaram em semanas e as semanas em meses, Marley aceitou Patrick como seu mais novo amigo de infância. Certa noite, enquanto eu estava desligando as luzes para ir dormir, não conseguia achar Marley em lugar algum. Finalmente, resolvi olhar no quarto do bebê, e lá estava ele, deitado ao lado do berço de Patrick, os dois dormindo a sono alto, numa felicidade cúmplice e fraternal. (GROGAN, 2006, p. 119)

Destaca-se também no romance o tempo psicológico. O tempo psicológico é o que se passa entre alguns momentos da vida profunda da personagem que lhe é dado para presenciar. “Caracteriza-se, pois, o tempo vivencial destas, o modo como elas experimentam as sensações e emoções no contato com os fatos objetivos, e, também, com suas memórias, fantasias, expectativas”. (BONNICI e ZOLIN, 2003, p.45).

Marley me fez pensar na brevidade da vida, em suas alegrias efêmeras e nas chances perdidas. Ele me lembrou de que cada um de nós tem apenas uma chance de conquistar a medalha de ouro, sem replay. Num dia, estamos nadando no meio do oceano, certos de que vamos alcançar uma gaivota; no dia seguinte, mal conseguimos nos abaixar para beber água em nossa tigela. (GROGAN, 2006, p.254)

Ao analisar o filme baseado no romance, percebe-se que o tempo cronológico é bem perceptível, por exemplo, no dia em que John e Jenny adotam Marley, um pequeno filhote, e de repente, ele se torna um enorme cão de 40 kilos. Os dias se passam e Jenny consegue engravidar e, com o tempo, ela ganha mais dois filhos. Com isso, Marley vai ficando velho, e as crianças vão crescendo. A cada dia que se passa Marley se torna mais adorável à família rogan. Percebe-se claramente, também, o tempo psicológico. Quando Marley se vai para sempre, a tristeza toma conta da família de Marley. Mas Marley deixa em seus pensamentos bons momentos. Todo dia alguém lembra algo que Marley fazia, das suas travessuras a seu lindo brilho nos olhos.

O romance é narrado em primeira pessoa, por isso, contado pelo narrador protagonista. O autor é o protagonista da história narrada, ele registra seus pensamentos, emoções e sensações; suas e de sua família. Por isso, o autor pode ser classificado como um narrador autodiegético (“é co-referencial como protagonista (1988, p.762) da narrativa, narrando a sua própria história”). (BONNICI e ZOLIN, 2003, p. 40)

No romance pode-se perceber:

Naquela noite, depois que o levei para casa e coloquei-o para dentro, estendi um saco de dormir no chão na sala de TV ao lado dele. Ele não conseguia subir as escadas até o quarto, e eu não teria coragem de deixá-lo sozinho e indefeso. Eu sabia que ele passaria toda a noite agitado se não estivesse ao meu lado. (GROGAN, 2006, p. 266)

Portanto, o espaço e o tempo são bem perceptíveis no romance. O espaço onde Marley anda, o local de sua travessuras, quando é levado ao quarto para dormir, onde foi enterrado. O tempo é marcado através dos dias que se passam, Marley se torna adulto, e logo em seguida, chega à sua velhice. Marley parte de sua vida deixando muitas lembranças e lições à família. O romance mostra que apesar das dificuldades encontradas no caminho, a vida continua, e que em primeiro lugar, deve-se ter amor para viver. Ter um cão é uma maneira para aprender isso. Um cão não se importa se seu dono é rico ou pobre, se é inteligente ou não, simplesmente se o dono der seu coração, ele também dará. Mas infelizmente um cão, ou qualquer outro animal de estimação, não vive tantos anos como seu dono. Dar valor às coisas pequenas é um elemento importante para viver, amor e alegria têm um valor enorme na vida. Nem sempre é tão fácil conseguir levar essas três coisas em consideração, mas com certeza, um cão pode ensinar isso com muito amor.

Referências

BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: Universidade de Maringá, 2003. – 314p.
GROGAN, JOHN. Marley & Eu: a vida a o amor ao lado do pior cão do mundo.  Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta, Elvira Serapicos. -São Paulo: Prestígio, 2006. - 268 p. il.
MASSAUD, MOISÉS. Guia prático de análise literária. -4. ed. - São Paulo : Cultrix, 1974. - 284p.

 
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