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As metáforas do singrar em Singradura de Flávio José Cardozo Imprimir E-mail

capaO livro de contos do autor Flavio José Cardozo, intitulado “Singradura”, é composto por 20 contos, e chama a atenção pela temática, que se utiliza muito da relação homem-mar e de histórias do cotidiano das pessoas simples que habitavam a ilha de Santa Catarina. Neste breve ensaio a professora Luzia Antonelli Pivetta, especializada em Estudos Literários, discute as metáforas contidas na obra, especialmente a partir do conto que dá nome à obra.

As metáforas do singrar em Singradura de Flávio José Cardozo

Luzia Antonelli Pivetta
Especialista em Estudos Literários e professora em Brusque (SC)

capaO livro de contos do autor Flavio José Cardozo, intitulado Singradura, é composto por 20 contos, e chama a atenção pela temática, que se utiliza muito da relação homem-mar e de histórias do cotidiano das pessoas simples que habitavam a ilha de Santa Catarina. Vagam por sua narrativa personagens marcantes como Mané Flor (Manoel Flores), um banjoísta que perdeu a visão e já não encontra mais sentido pra vida; Ti’Orquídea, uma negra lavadeira que vive à espera do reconhecimento dos seus clientes; Marinês, “cara de anjo” (p. 188), que cansa da vida simples com Emanuel e vai morar no circo, depois volta, mas nada consegue com ele. Marcelina, grávida, que ao fugir com seu homem descobre que ele também é o homem de sua irmã. E Marília, moça que vive numa vila de pescadores a divagar entre a areia e o mar.

A linguagem faz com que as palavras carreguem uma pluralidade de significados, tornando sua ficção intensa, uma das principais características dessas narrativas. É por meio dessa linguagem metafórica que se inferem muitos dos finais que o autor criou, nos quais deixa implícitas muitas das revelações, permitindo ao leitor deduzir seus significados. Cada conto possui uma singularidade própria, em que os personagens singram em suas histórias e refletem por meio delas a vida de pessoas comuns.

Talvez o vigésimo conto da obra publicada em 1970, e que dá nome a mesma, seja um dos melhores exemplos de como essa linguagem é rica. O narrador relata a história de Marília, uma jovem que aparentemente está louca e espera seu príncipe encantado à beira do mar, que segundo sua imaginação se chamaria Bernaldo.

Já no início, quando apresenta a personagem Marília e sua relação com o mar, o autor descreve o fenômeno da maré alta por meio de metáforas: “em que tudo tão sólido há de restar indistinguido no verdelhão violento, feito açúcar que se anexa de corpo e alma e abdica docilmente da unidade própria” (p.213). Num plano de significados reais, quando as águas da maré sobem, tapam tudo o que há por ali, tudo se transforma em mar, como o açúcar que se dissolve ao entrar em contato com qualquer líquido, porém, não perde sua doçura.

Marília também abdicará de si mesma para viver sua loucura, mas sua essência carregará com ela, “seu cheiro virgem e sua espera calada” (p. 213) permanecerão no mar.

Seu nome talvez seja o indício metafórico mais forte de sua relação com o mar, e de seu destino: Mar e Ilha, Marília. Dois símbolos que se pertencem e que necessitam estar próximos um do outro para se completarem, daí talvez se possa inferir o porquê de seu fascínio pelo oceano. Ilha pode significar isolamento, que era o que a personagem buscava em sua “pedra-esperança” (p. 213) dentro do mar, e a ideia mitológica de busca do paraíso perdido pode ser facilmente atribuída à ilha e à personagem. O mar pode simbolizar a dinâmica da vida, lá se nasce e lá se morre, a encarnação da Grande Mãe, “e o mar te embalará como a uma criancinha nascida hoje” (p. 217), por isso, a protagonista deseja o mar, só suas águas podem envolvê-la no esquecimento.

Será Bernaldo, o francês, o barqueiro da morte, “olhos acesos que são fachos na tempestade” (p. 214), que conduzirá a alma de Marília, o Caronte da Ilha, que pede a ela que o espere “de branco e fita no cabelo” (p. 214), que a chama para singrarem juntos, para que ela conheça aquele mar no qual se debruça sonhadora? O Herói com H maiúsculo no trecho: “é herói, Herói numa só palavra” (p. 214), pode nos fazer acreditar nessa possibilidade, nessa referência à figura de Caronte, transportando na sua barca os mortos que se preparam para a travessia final. Outras características de Bernaldo reveladas na obra - “seu idioma é de anseio” (p. 214), atracará no porto muito “mais depressa do que é humano” (p. 215) - podem nos levar a pensar nessa ligação com o barqueiro do Hades.

Assim como “Ismália”, Marília põe-se na torre a sonhar, aqui representada pela pedra “desligada dez metros deste mundo” (p. 213) sobre a qual se “estira e olha o céu” (p. 219). No entanto, aceita o convite de ver a lua no espelho do mar, para assegurar-se de que o satélite é outro ao refletir-se naquele espelho, como a personagem do poema de Alphonsus de Guimaraens, que quer a lua do céu, e quer a lua do mar, e depois de todo o delírio também morre “sua alma subiu ao céu/seu corpo desceu ao mar”, Marília prepara-se para um verdadeiro noivado do sepulcro, que só se realizará com sua morte.

A voz em sua cabeça pode ser considerada a própria morte, seu desejo de morte, chamando-a, prometendo-lhe um beijo que “será suspirado por toda a gente da cidade e das freguesias, pelas damas de escol e pelas rendeirinhas amigas” (p. 215). Algo supremo que somente ela desfrutará “na alcova azul” (p. 217) (o mar mais uma vez), onde serão um só, “na maciez das noites” (p. 217).

Talvez o que mova os desejos de Marília seja a perspectiva de juntar-se ao mar como a Ilha, de renascer como um novo ser e recomeçar uma vida menos ilusória e enganadora. O ininterrupto movimento das águas, quando Marília se debruça na pedra e sente “os ruídos [...] que são o roçar das águas ao pé das vigias” (p. 219), pode significar a força dos sentimentos e paixões em que se debatem e naufragam os corações humanos.

Ela, errante, “anda perdida por curvas de praia, sentada em pedras com a cabeça erguida na busca de fantasmas ou de queixo enterrado no coração” (p. 218); não quer ninguém, mas desperta desejos: “as carnes tenras se agitam sob a pouca veste praieira e fica belo vê-la fazendo sombra na areia e silhueta na distância” (p. 218). Principalmente em Pedro, o pescador honesto, futuroso e sadio que depois das várias tentativas de conquistá-la passa a sentir ódio, “uma fome canina de violar todas as leis” (p. 219), e será o protagonista de sua desgraça (ou de sua salvação).

No dia em que se dá o desfecho da história de Marília, ela continua a ouvir as vozes do chamamento e vai até a pedra. A noite não demora a chegar, e seu último delírio é representado pela frase: “não apagaremos nunca, tu e eu” (p. 219), o fato não será esquecido. O intrigante é que ela parece saber o que a espera, como se aquele sacrifício fizesse parte de sua sina, pois é Pedro quem se aproxima como “bicho concentrado em sua emboscada” (p. 219), ela percebe o “ataque felino” (p. 219). No entanto, não se assusta nem se surpreende, só vai debater-se e lutar contra a investida quando Pedro com sua voz a desperta do sonho, e a ilusão se destrói. Há uma luta corporal em que ele violentamente bate na personagem e ela “se recolhe em concha” (p. 220), se encurva para receber a raiva de Pedro, e desfalece.

Pedro vai embora e ela permanece ali. Será o mar então que “roubará todo o sonho e toda a espera” (p. 220) de Marília, com o fenômeno da maré alta, que já fora anunciado no início do conto. Ela será encoberta, virará mar e ilha, não perderá sua essência, mas morrerá para juntar-se às águas como tanto desejara: “tão milagroso de longe, mas assim de perto tão natural e senhor sereno dos elementos” (p. 216). Encontra, enfim, a paz eterna.

A viagem da personagem através dos pensamentos, que a levou à morte, permanecerá para sempre. A história, assim como a maré, sempre retorna. A metáfora do singrar, então, se completa, pois Marília singrou tanto em sua imaginação que acabou singrando eternamente no (e com o) mar.

Levando-se em consideração que a obra se chama Singradura, e que a frase “e a singradura viverá bilênios” (p. 220) encerra o último capítulo do livro, será que o autor não nos deixou aqui outra metáfora?

REFERÊNCIAS

CARDOZO, Flávio José. Singradura. Porto Alegre: Globo, 1970.

*  Texto originalmente publicado na Revista Linguagens V.2 n.3 2008.

 
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