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A volta dos franceses Imprimir E-mail

fotoHouve um tempo a literatura francesa ditava as regras estéticas para o mundo. Além de lidos por milhares de leitores europeus e americanos, poemas e romances inicialmente publicados em Paris eram homenageados, parafraseados ou descaradamente plagiados por escritores de todos os quadrantes e latitudes.

A volta dos franceses

Maicon Tenfen
Escritor e profº de Literatura na FURB

fotoHouve um tempo — século 19 e primeira metade do século 20 — que a literatura francesa ditava as regras estéticas para o mundo. Além de lidos por milhares de leitores europeus e americanos, poemas e romances inicialmente publicados em Paris eram homenageados, parafraseados ou descaradamente plagiados por escritores de todos os quadrantes e latitudes.

Com efeito, é difícil prever o que seria do imaginário ocidental sem Flaubert, Balzac e Maupassant. Vejamos o caso do Brasil. Enquanto Chateaubriand e Dumas eram os heróis espirituais de José de Alencar, é provável que Aluísio Azevedo jamais tivesse escrito O Cortiço sem antes ler A Taverna do mestre naturalista Emile Zola.

A Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 por Machado de Assis, não passa de uma respeitosa imitação da Academia Francesa. É por isso que, além de escritores, também médicos, advogados e outros profissionais que tenham publicado ao menos um livro podem se candidatar a uma cadeira do Petit Trianon (sede da academia no Rio de Janeiro, doada à instituição por ninguém menos que o governo francês!).

Apesar desses bons e velhos tempos de glória, a literatura francesa perdeu terreno com o fim da Segunda Grande Guerra e a reconfiguração política do planeta. A partir de então, os países de língua inglesa, bem como o idioma, tornaram-se a coalizão dominante, não só em termos econômicos e militares, mas também culturais, especialmente no que se refere ao cinema, à música e às letras.

Some-se a isso a maldição que foram os modismos inconsequentes como o Nouveau Roman, um gênero de narrativa que não pretendia narrar (?!), tampouco criar personagens ou se comunicar com o público. Os críticos amaram tamanha sofisticação, mas os leitores, sufocados pela chatice, puseram-se a correr para os livros anglófilos, tão ágeis e divertidos quanto os romances franceses do século 19.

Felizmente, depois dessa fase de estagnação, os escritores franceses estão voltando às vitrines das livrarias, inclusive das brasileiras. Mas olha que curioso: com exceção de autores como Michel Houellebecq e Jean-Marie Gustave Le Clézio (Nobel de Literatura em 2008), os novos nomes da literatura francesa pouco lembram o idioma de Voltaire: Marie NDiaye, Tahar Ben Jelloun, Ahamadou Kourouma e Atiq Rahimi.

A nova literatura francesa, essa que se recupera do ostracismo, está sendo feita por filhos de imigrantes africanos. Mais uma prova de que não dá para discutir literatura sem antes discutir política e sociedade.

 
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