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“A biblioteca à noite”, de Alberto Manguel Imprimir E-mail

capaAlberto Manguel, em seu livro “A biblioteca à noite” (Companhia das Letras, 2010), passeia pela história das civilizações gráficas, ora olhando para os livros, ora para aqueles que se dedicam a lê-los, guardá-los ou até mesmo escondê-los ou destruí-los.

A biblioteca de Alberto Manguel

Viegas Fernandes da Costa
Editor do Sarau Eletrônico


capaComo um leitor diletante que caminha por entre as estantes de uma biblioteca vazia, com vagar e liberdade, perscrutando as lombadas de graves volumes que aguardam ser descobertos, Alberto Manguel, em seu livro “A biblioteca à noite” (Companhia das Letras, 2010), passeia pela história das civilizações gráficas, ora olhando para os livros, ora para aqueles que se dedicam a lê-los, guardá-los ou até mesmo escondê-los ou destruí-los.

Uma biblioteca é capaz de anunciar para muito além daquilo que anunciam seus livros. Uma biblioteca é, em si mesma, uma ordem discursiva que propõe uma disciplina, uma concepção de universo, uma ideia de caos e ordem. Uma biblioteca é, seja por sua arquitetura, pelas coleções que abriga ou que deixa de abrigar, pela forma como ordena seus títulos e autores, por suas condições de existência ou destruição e por suas condições de acessibilidade, indício da civilização que a constituiu e em que se constituiu. E são estes indícios de civilização, representados pelas diferentes bibliotecas, que Manguel tenta ler de forma particular, movido que é por uma questão fundamental: por quê?

Logo no prefácio, o autor indica o incômodo que o move para a necessidade da narrativa que pretende, ao escrever: “Tirando a teologia e a literatura fantástica, poucos duvidariam que os traços de nosso universo são a escassez de sentido e a falta de objetivo palpável. E ainda assim, com espantoso otimismo, continuamos reunindo todo tipo de informação que conseguimos recolher em rolos, livros e circuitos eletrônicos, enchendo prateleiras e prateleiras de bibliotecas, pouco importa se materiais, virtuais ou de outro tipo qualquer, dedicando-nos pateticamente a conferir ao mundo uma aparência de sentido e ordem, mesmo sabendo muito bem que, por mais que prefiramos acreditar no contrário, nossos esforços estão tristemente condenados ao fracasso”. É como esperar Godot, Manguel tem consciência disso. Seja como leitor, como bibliófilo ou como escritor, esta consciência – deveras pertubadora – provoca a tentativa de uma resposta, de uma justificação; e é este caminho, repleto de vicissitudes, quase esquizofrênico, que resolve tomar para si e para seus leitores. Caminho que se torna ainda mais complexo na medida em que novas tecnologias para o texto se impõem, e a respeito das quais afirma: “a imaginação humana não é monógama”. Entretanto, é a monogamia de um discurso apocalíptico que pressagia o fim do livro de papel que, de alguma forma, “A biblioteca à  noite” pretende, também, debater. “Se a biblioteca de Alexandria foi o emblema de nossa sede de onisciência, a web é o emblema de nossa sede de onipresença; a biblioteca que guardava tudo transformou-se na biblioteca que guarda qualquer coisa”, conclui Alberto Manguel, e é este um problema real. Se tudo passa a ser importante, tudo perde sua importância. Como ler esta biblioteca onde estamos todos nas estantes? E o que justifica, em pleno século XXI, alguém erigir uma biblioteca particular no interior da França, com coleções reunidas em diferentes lugares do mundo, por onde andou e viveu o autor? Monumento e lápide, biografia e testamento? Porque se uma biblioteca diz do seu tempo, diz ainda mais do seu autor.

Os visitantes costumam me perguntar se li todos os meus livros; minha resposta costumeira é que com certeza abri cada um deles. O fato é que uma biblioteca, seja qual for seu tamanho, não precisa ser lida por inteiro para ser útil; todo leitor tira proveito de um sábio equilíbrio entre conhecimento e ignorância, lembrança e esquecimento”, escreve Manguel. Talvez seja este o trecho que melhor define a proposta da obra: estabelecer uma espécie de inventário sentimental da sua biblioteca pessoal, tanto a física – “encarapitada sobre uma pequena colina ao sul do rio Loire” [França] – quanto a mnemônica. O que impera em “A biblioteca à noite” é a narrativa de uma catalogação aparentemente caótica, um ordenamento de temas, autores e obras capaz de enlouquecer qualquer bibliotecário contemporâneo e que lembra a disposição dos livros na biblioteca de Aby Warburg, citado na obra. Afinal, como escreve Manguel, “uma biblioteca não é apenas um lugar de caos e ordem: ela é também um reino do acaso”.

Assim, o livro “A biblioteca à noite”, em si, ergue-se na condição de uma biblioteca que reúne o conjunto das bibliotecas, reais e imaginárias, lidas ou sabidas, deste intelectual que dedicou a vida a perscrutar textos, a compreendê-los e escrevê-los.

 
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