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Salim Miguel Imprimir E-mail

fotoDisponibilizamos aqui o depoimento “Na fábula da narrativa e nos estigmas da carne”, escrito pelo Editor do Sarau Eletrônico, Viegas Fernandes da Costa, para o Dossiê Salim Miguel, organizado e publicado pela revista Litteris, vinculada pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Na fábula da narrativa e nos estigmas da carne

Viegas Fernandes da Costa
Escritor Editor do Sarau Eletrônico

fotoEm setembro de 2008 conheci Salim Miguel. Pedem-me um depoimento, e poderia começá-lo assim, mas não seria de todo honesto. É bem verdade que em setembro de 2008 saímos de Blumenau, o historiador Darlan Jevaer Schmitt e eu, para entrevistarmos o escritor Salim Miguel em seu apartamento, às portas da UFSC, na Ilha de Santa Catarina. Íamos a serviço do Sarau Eletrônico, página eletrônica da Biblioteca Universitária da FURB, que começava (e continua até o momento em que digito estas linhas) a publicar entrevistas com diversos escritores nascidos ou radicados em Santa Catarina. Salim, tanto pela extensão quanto pela qualidade de sua produção intelectual, foi logo um dos primeiros nomes lembrados e, finda a entrevista, percebemos que não tínhamos somente conseguido um depoimento dos mais ricos, mas também iniciado uma relação de parceria e amizade que perdura até hoje.

À época havia a expectativa do lançamento de um novo romance seu, intitulado “Jornada com Rupert” – que há muito repousava inconcluso em uma gaveta e ao qual Salim resolvera dar nova chance – , cuja história ambienta-se no contexto da colonização germânica no Vale do Itajaí. De pronto acordou-se que lançaríamos o livro na Biblioteca da FURB, em Blumenau, o que de fato aconteceu em 13 de novembro daquele mesmo ano, alguns dias antes da grande tragédia socioclimática que castigou o Vale do Itajaí como nunca antes na história, e sobre a qual Salim Miguel chegou a escrever em artigo publicado no Jornal do Brasil. Já na data do lançamento, a chuva era muita e prenunciava más notícias para a região. Cogitamos, inclusive, transferir o evento, e por pouco não conseguimos buscar Salim e Eglê – sua namorada desde 1947, e sobre a qual confessou na citada entrevista: “na verdade eu não seria quem sou sem a Eglê”. O próprio Salim já duvidava que com toda aquela água que despencava das nuvens também em Florianópolis, ainda iríamos buscá-lo para o lançamento de “Jornada com Rupert”. Ao fim, entretanto, tudo correu bem, e o interesse que o autor desperta demonstrou-se na quantidade de pessoas que se fizerem presentes ao evento – antecedido por uma conversa na qual discorreu sobre sua trajetória intelectual.

Digo tudo isso para me reportar aos eventos iniciais de uma proximidade física com o ser humano Salim Miguel, e não apenas com a figura pública que escreveu livros, integrou o Grupo Sul, participou da produção de “O preço da ilusão” – primeiro longa metragem de ficção catarinense – e, entre muitas outras atuações no cenário das artes e do jornalismo, foi preso pela Ditadura Militar Brasileira. Primeiramente, então, a recepção afetuosa em seu apartamento, para uma longa entrevista. Nunca antes havíamos nos visto, nunca antes conversáramos pessoalmente, senão pelas páginas dos seus escritos; ainda assim, Salim soube diluir todas as fronteiras que pudessem se interpor entre os dois jovens que o procurávamos e sua vasta experiência de quase oitenta anos intensamente vividos. Solícito, paciente, de memória prodigiosa, confiou-nos sua história e, ao mesmo tempo, em gesto de nobre humildade, colocou-se atento a tudo que pudéssemos trocar. Curioso, inquiriu por nossa biografia, pela Universidade em que trabalhávamos – e onde há alguns anos estivera, palestrando – e por Blumenau, cenário do romance que breve lançaria. Não à toa, lendo mais tarde este seu romance, “Jornada com Rupert”, em carta da personagem Ilze (auto-exilada no Rio de Janeiro, assim como o próprio Salim o fora após a experiência traumática com a ditadura) a seu pai, encontro a curiosa auto-referência que cito: “queria me mostrar a revista Sul, de Florianópolis; folheei-a e fiquei surpresa de encontrar o tal turco que vinha bisbilhotar em Blumenau.” Sim, quem mais seria este “turco” bisbilhoteiro senão Salim Miguel, o próprio? “Maktub” ("estava escrito") fiara seu reencontro com a cidade que, iconoclasticamente, descrevera por meio de Rupert, talvez afirmaria a memória de seu pai, o professor de primeiras letras que uma inflamação nos olhos impedira de rumar para os Estados Unidos e fizera embarcar no navio cujo destino era mesmo o Brasil, terra ignota para aquela família de libaneses. Sim, “Maktub” trouxera Rupert para ser lançado em Blumenau, naquela noite úmida e perigosa. “Não aceite que te chamem de turco”, era a exortação de seu pai. Entretanto, irreverente, Salim não perderia a oportunidade de brincar com suas próprias origens, com a imagem do outro sobre si, como aquela que, ainda na infância, fez-lhe uma professora primária sua que, ao perceber que ele era o aluno que melhor se saía nos estudos de português, chamou a atenção da turma e disse: “vejam só, chegou ontem aqui, mal sabia algumas palavras de português misturadas com árabe e alemão; hoje fala, lê e escreve melhor que vocês! Não se envergonham diante deste turco?” Era um elogio, claro, mas a confusão quanto à identidade de suas origens ofendeu o menino de então. Confusão que perseguiu o escritor por longo tempo e que hoje dá lugar ao líbano-biguaçuense que reivindica para si, mas que não o impede de apresentar-se como o turco bisbilhoteiro em “Rupert”.

Estabeleço aqui uma pausa para perceber que começo a ter dificuldades em separar, agora, personagem, pessoa e autor. À medida em que conhecemos Salim Miguel, percebemos que sua vida é mesmo sua obra; e sua obra ficcional, uma reinvenção de suas memórias – como atesta, inclusive no título, seu romance mais recente: “Reinvenção da infância”. Seja com suas experiências com o Grupo Sul, autoficcionalizadas principalmente em “A vida breve de Sezefredo das Neves, poeta”, seja sua infância em Biguaçu e sua primeira grande amizade intelectual, com o poeta-livreiro cego João Mendes (“Nur na escuridão” e “Reinvenção da infância”), ou ainda seu dilema enquanto autor que busca sua identidade narrativa (“As confissões prematuras”), o principal da obra de Salim Miguel, quando não suas impressões de leitura, trata-se justamente disso: de autoficção. Por isso, quando diz que “temas ou personagens é que me perseguem”, fico em dúvida se tais temas e personagens perseguem-no na condição de autor ou se na de sujeito histórico. Dúvida que tende a diluir-se na segunda opção, porque assim vejo Salim Miguel: personagem complexo de si mesmo, persistente e que se reinventa em cada narrativa. E ao afirmar isto posso me reportar ao parágrafo que abre este pequeno depoimento, onde digo que não seria de todo honesto se afirmasse que o conheci em 2008, quando fui entrevistá-lo. Não, meu primeiro contato com Salim Miguel personagem, autor e pessoa, foi nas páginas de “Nur na escuridão” onde, já no primeiro capítulo somos apresentados à angústia de um pai de família libanês que desembarca com toda sua família e pertences no porto do Rio de Janeiro, sem conhecer uma palavra de português ou qualquer outro idioma que não fosse o árabe, desprovido de informações sobre o Brasil e, no bolso, apenas um papel com o endereço incorreto de um parente seu. O torvelinho de pessoas, a barreira da língua e da cultura, os filhos, esposa e pertences espalhados na calçada e a indefinição de um destino, dão a idéia das dificuldades que estes personagens enfrentarão na construção de suas histórias em terras catarinenses. Dificuldades de uma história construída na fábula da narrativa e nos estigmas da carne.

Sempre considerei este início de “Nur na escuridão” uma das passagens mais intensas da literatura brasileira, e disse-o a Salim, quando conversamos por telefone há algumas semanas. Ele, por sua vez, surpreende-se por ser referenciado principalmente por este romance.

Autor de dezenas de obras, jornalista de vasta experiência, intelectual com contribuições diversas e intensas, Salim Miguel vê-se defrontado novamente por “Maktub”. Quando nos recebeu, lá em 2008, à porta do prédio onde reside, tateava a maçaneta. Uma retinopatia roubara-lhe boa parte da visão, e o eco do livreiro-poeta João Mendes, seu primeiro grande companheiro de leituras, ressoa hoje em sua pessoa. Ainda assim, mantém-se com a curiosidade e a vivacidade de uma criança, vivo em seu estar-no-mundo, convictamente ideológico, perseguindo suas memórias para, reinventando-as, reinventar-se.

“Maktub” Salim! “Maktub”!

* Depoimento escrito originalmente para a Revista Litteris, n° 8, setembro de 2011. Site: http://www.revistaliteris.com.br/
** Fotos de Darlan Jevaer Schmitt.

 
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