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Notas sobre a literatura catarinense 08: As vivências e narrativas de Karl Kleine Imprimir E-mail

capaO polonês Karl Kleine emigrou para a Colônia Blumenau em 1856, acompanhando sua família. Durante sua vida, redigiu memórias a respeito das experiências que vivenciou ou observou a respeito da colonização do Vale do Itajaí na segunda metade do século XIX. Escritos originalmente em alemão gótico, foram traduzidos para a língua portuguesa e publicados em 2011 sob o título “Vivências e narrativas de um blumenauense”. Leia aqui a crítica do livro.

Notas sobre a literatura catarinense 08: As vivências e narrativas de Karl Kleine

Viegas Fernandes da Costa
Editor do Sarau Eletrônico

capaNas últimas semanas de 2011 a editora Cultura em Movimento lançou o livro “Vivências e narrativas de um blumenauense”, escrito pelo polonês Karl Kleine. Nascido em 1849 e falecido em 1922, Karl redigiu, ao longo de 35 cadernos, pequenas crônicas que tratam da colonização do Vale do Itajaí e das suas experiências de vida.

A primeira edição do livro foi organizada e publicada por Theo Kleine em 1996, sob o título “Erlebnisse und schilderungen eines blumenauers”. É importante dizer que a edição organizada por Theo surgiu a partir da transcrição dos manuscritos originais, escritos em alemão gótico, e não corresponde à integralidade dos escritos de Karl. Há trechos do original que foram suprimidos por Theo, que optou por apresentar um breve resumo daquilo que Karl escrevera nesses trechos. A tradução portuguesa que nos chega agora, realizada por Annemarie Fouquet Schünke, deu-se a partir da transcrição publicada em 1996, e não dos manuscritos originais, e apresenta as mesmas lacunas da edição alemã. A ressalva que fazemos aqui, entretanto, não anula a importância do trabalho. A tradução dos textos de Karl Kleine para o português e sua disponibilização através deste livro, constitui-se como uma significativa contribuição para a compreensão da colonização no Vale do Itajaí, principalmente porque apresenta o olhar do “colono” a respeito das relações sociais e do contexto administrativo na Blumenau do século XIX.

Theodor Karl Nikolaus Kleine emigrou para o Brasil em 1856, acompanhando sua família. Exerceu diversas atividades, dentre elas a de emissário postal, ajudante na demarcação de terras (tanto no Vale do Itajaí quanto no Planalto Catarinense), agricultor e professor. As crônicas reunidas em “Vivências e narrativas de um blumenauense” registram as memórias e experiências de vida do autor, desde a emigração da Europa até suas atividades como professor, na meia idade. Apesar de “memórias” (ou justamente por isso), o texto não se estabelece como escrita historiográfica, e muitas vezes assume características ficcionais. É o caso, por exemplo, dos episódios que tratam dos encontros do autor com o foragido da justiça Novededo, cuja série de coincidências envolvendo este e Karl são verossímeis na medida em que consideramos o contexto literário, mas dificilmente teriam sustentação histórica. É possível perceber ainda uma preocupação estética nas crônicas que, quando reunidas, dão ao livro um ar de novela. Karl em diversas oportunidades procura criar suspense ou graça, exagerando fatos, explorando detalhes e focando aspectos caricatos de alguns dos seus personagens, como no caso do farmacêutico Barthel ou do aventureiro Nante. O que importa, porém, não é saber se o autor exagerou ou ficcionalizou situações. O gênero da memória, por si só, não tem compromisso com a “verdade histórica”, mas com a maneira como a realidade foi percebida e organizada pelo sujeito que a autoriza através do texto. Se Nante era ou não um fanfarrão bêbado e mulherengo, ou Barthel um hipocondríaco mal-humorado, conforme apresentados no livro, isto não tem grande relevância. Sob a ótica do autor, era desta forma que os dois personagens se apresentavam e foram construídos em suas lembranças. Importante mesmo é compreender que enquanto discurso, “Vivências e narrativas de um blumenauense” é produto do trabalho intelectual do seu autor, bem como do diálogo que este estabelece com o tempo e a sociedade em que esteve inserido e a partir do qual escreveu. Assim, o que os relatos trazem de mais significativo é, talvez, aquilo que Karl Kleine enuncia, muitas vezes de forma acidental, a respeito do cotidiano, mentalidades e das relações sociais no contexto de um empreendimento colonial privado no interior de Santa Catarina.

Outro dado importante a ser considerado é o fato de não conseguirmos datar o momento em que as crônicas foram escritas. As diferenças na caligrafia dos manuscritos levam à hipótese de um transcurso considerável de tempo entre o primeiro e o último texto legado por Karl. É possível notar também certa “pressa” nos textos finais, principalmente naqueles que relatam suas experiências após o casamento, quando retorna à condição de colono e, mais tarde, assume o cargo de professor. Atentar para estes aspectos é importante porque, entre outras questões, indica um trabalho de seleção do autor a respeito daquilo que entendeu importante e/ou pertinente registrar. Nenhuma memória, quando narrada, é isenta de um processo seletivo. E esta seleção não se dá apenas em função das escolhas subjetivas, mas também a partir das pressões sociais e dos problemas que uma “memória” pode representar ao seu autor. Este parece ser o caso, por exemplo, do tratamento dispensado por Karl Kleine ao fundador da Colônia, Hermann Blumenau.

Quando dos relatos a respeito da chegada dos colonos a Blumenau, Karl não parece simpatizar com a pessoa do fundador. Apesar de ser descrito com “olhos inteligentes”, vemos um personagem que não parece se importar muito com as condições de vida dos seus imigrantes, tratando-os burocraticamente e dispensando-lhes pouquíssima atenção. Não há qualquer glamour na colonização, tampouco na condição de vida dos colonos. Blumenau era um empreendimento privado, capitalista, e nas memórias de Karl o fundador apresenta-se como um personagem pragmático, disposto a comercializar territórios e recuperar seus investimentos no empreendimento colonial. Ao longo das crônicas, o fundador e administrador da Colônia aparece muito pouco, detalhe que reforça o abandono ao qual os colonos estavam submetidos após adquirirem suas propriedades. A própria família Kleine passou por imensas dificuldades para manter sua subsistência material, realidade que só se alterou depois que o pai de Karl foi contratado por Hermann Blumenau para o cargo de escrivão. O fato parece ter interferido também no tratamento mais simpático conferido ao fundador no transcurso da narrativa, culminando com a apologia ao progresso da Colônia e à figura de Hermann Blumenau, no trecho que aqui destacamos e que reflete a ideologia positivista em voga no século XIX: “Em questão de pouco tempo, a paupérrima Blumenau de 1856 (...) transformou-se em uma imponente e próspera Colônia, em virtude da ajuda governamental e também pelo próprio potencial. Desenvolvia-se cada vez mais sob a excelente direção de seu diretor e fundador, não havendo outra igual nos estados do sul do Brasil. Em todos os segmentos da administração, reinava ordem e progresso.”

Significativo também, nas memórias de Karl Kleine, é o imaginário a respeito da floresta, obstáculo a ser vencido, local que abrigava animais selvagens e indígenas. Ao mesmo tempo em que a floresta exercia sobre o autor certo fascínio, atemorizava e bestializava. Civilização correspondia à domesticação da floresta, da sua fauna e dos seus habitantes primitivos. A propósito destes últimos, para os imigrantes não havia dúvida: constituíam perigo mortal e deviam ser exterminados. Em uma das crônicas em que Karl narra suas excursões à mata virgem como ajudante na demarcação de terras, há um trecho do relato que exemplifica o tratamento dispensado pelos colonos aos indígenas, que transcrevemos: “(...) havia um vulto na margem, parecia estar bebendo água na mão. Estava protegido pelos arbustos, tanto que não dava para reconhecer se era um dos nossos ou um bugre. Era possível percebê-lo somente quando se agachava para chegar até a água (...) Lohmeier levantou a espingarda. (...) O disparo atravessou o rio com estrondo e, em seguida, ouvimos um berreiro. No mesmo momento, o segundo disparo. O berreiro passou a lamento. Lohmeier pegou sua pistola e gritou: ‘– encosta, encosta! É um bugre!’” Não era um “bugre” (indígena), mas uma espécie de macaco chamado de bugio. Segundo o autor, depois de alvejado o bugio “Passou a mão no peito e a estendeu toda ensangüentada. (...) Ele gemia como uma pessoa agonizante. Seus gemidos nos atingiram profundamente. Percebemos nitidamente que ele chorava como gente.” No excerto podemos perceber que um bugio agonizante era capaz de remeter aos olhos dos “mateiros” mais humanidade do que um nativo.

Também quando narra sua estada no Paraná, onde trabalhou na construção de estradas e ficou incumbido de chefiar um grupo de índios Colorado contratados como mão-de-obra barata, Karl não poupou críticas àquilo que entedia como a preguiça e falta de compromisso dos indígenas, interessados apenas em gozar do conforto da civilização.

“Vivências e narrativas de um blumenauense” não deve ser lido como um livro que glorifica a colonização, ou que estabelece uma origem heroica onde persistência e superação devem servir de exemplo e entusiasmo para as gerações atuais, como parece dar a entender Hans-Dieter Didjurgeit (Cônsul Honorário da Alemanha) na apresentação da atual edição da obra; mas sim como a visão de um homem a respeito do tempo que viveu – um tempo humano repleto de preconceitos, dificuldades e interesses particulares – e interessado em legar à posteridade um monumento concretizado na publicação de suas memórias. Duplo monumento, porque duplamente construído. Ou seja, o primeiro edificado por Karl Kleine no momento em que escreveu suas memórias; já o segundo fala do tempo presente, do tempo da transcrição e publicação dos textos originais em 1996 e da edição em língua portuguesa de 2011. Este recente interesse pelas memórias de um colono chamado de “comum” e que tem como foco a colonização do Vale do Itajaí, publicadas com o endosso do Cônsul Honorário da Alemanha e cujo lançamento aconteceu no prédio do Consulado da Alemanha em Blumenau, talvez diga tanto sobre as disputas identitárias na Blumenau do início do século XXI, quanto o conteúdo das crônicas de Karl a respeito da região no século XIX. Fato que torna a leitura e o estudo de “Vivências e narrativas de um blumenauense” ainda mais relevante.

 
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