Menu Content/Inhalt
Home arrow Artigos e ensaios arrow Cavalos, poetas e “Carbajais”
Cavalos, poetas e “Carbajais” Imprimir E-mail
foto
O que faz um cavalo caminhando pela biblioteca? E que relação pode haver entre este cavalo, um poeta que escreveu um conto, o primeiro reitor da universidade e um construtor de relógios de sol? O Sarau Eletrônico explica.
 
 
Cavalos, poetas e “Carbajais”

Viegas Fernandes da Costa
Editor do Sarau Eletrônico da Biblioteca da FURB

“A campainha tocou, abri a porta, estava ali um rapaz de blusão, que se inclinou num ângulo de 45 graus e foi dizendo que era um poeta da América espanhola, a nacionalidade não importava, conhecia toda a minha obra e desejava ‘charlar’ um pouco. Que maçada! pensei. E expliquei-lhe que no momento não seria possível, eu estava com visitas (não era praticável introduzir no colóquio elemento tão heterogêneo). – Mas volte outro dia. Não deixe, porém, de telefonar antes, avisando-me. Novo cumprimento de 45 graus e o estrangeiro partiu sem mais palavra.”
 
O parágrafo que abre este texto é de autoria de Manuel Bandeira, e pertence à crônica intitulada “O Estrangeiro”, publicada no livro “Flauta de papel ”, de 1957. Parece mentira, mas Blumenau já serviu de destino a algumas figuras bastante surreais. Desde os primórdios da ocupação europeia no Vale do Itajaí, com Fritz Müller – que Charles Darwin chamou de “o príncipe dos observadores da natureza do Brasil” – , até os tempos que correm, vez por outra aparece em meio à antipática sisudez protestante desta cidade cenário um sopro de vida delirante. É de uma vida delirante que fala Manuel Bandeira, personificada em carne, estrada e palavra. Mas antes, porém, de tratarmos deste “delírio”, há de se lembrar do “Dicionário”, e de como um cavalo passeou pela Biblioteca da FURB.
foto

Madrugada de 14 de setembro de 2011, e o jovem diretor Ricardo Weschenfelder dava vazão à imagem que povoava seus sonhos: um cavalo branco passeava entre as estantes de uma biblioteca. O cavalo em questão era, na realidade, uma égua das cavalariças da Polícia Militar de Santa Catarina. A égua interpretava, entretanto, um personagem: o cavalo imaginado por Lindolf Bell em seu conto intitulado “O Guarda-Noturno”, e em cujo ventre podia-se ver a cidade adormecida. Brotara, o cavalo, de um verbete incluso em dicionário ilustrado, lido por um guarda-noturno indeciso entre o sono e a vigília. Ricardo Weschenfelder , entusiasmado com o conto de Bell, resolvera adaptá-lo para o cinema. Nascia assim o curta-metragem “Dicionário” (2012).

No filme de Weschenfelder o foco é a história de um operário da indústria cerâmica demitido da função depois de quebrar, rotineira e acidentalmente, diversas das peças que produzira. Desempregado, resolve se candidatar à vaga de guarda-noturno na biblioteca de uma universidade recém-construída; e é ali que, lendo um dicionário, passa a ter algumas visões, dentre às quais esta, equina, que descrevemos. Já o conto de Bell, ainda que também focado na presença do guarda-noturno, propõe possibilidades outras, principalmente se lido enquanto manifestação literária que dialoga com um território geograficamente marcado e datado.

fotoO Guarda-Noturno” foi originalmente publicado em 1976, na antologia “Assim escrevem os catarinenses ”. Quando Ricardo Weschenfelder escolheu o prédio que abriga a Biblioteca no Campus I da FURB para boa parte das locações de “Dicionário”, não suspeitava que Lindolf Bell havia retratado em seu conto esta mesma biblioteca, porém há época localizada junto à entrada principal da Universidade. Apesar do autor não ter nominado o território em que se desenrola a trama, uma série de elementos nos permitem localizar o texto. Blumenau inaugurou, em 1964, a primeira escola de ensino superior do interior catarinense, embrião da atual Universidade Regional. Seu primeiro reitor, Martinho Cardoso da Veiga, surge no conto como “um homem de pouco riso”. Curiosamente, a única foto de Martinho em que podemos vê-lo esgaçando os lábios em sorriso, é justamente uma em que este aparece ao lado de Bell, durante um evento artístico. Curiosamente, também, foi Martinho quem doou os primeiros livros que deram origem à Biblioteca – que hoje leva seu nome – visitada, em 2011, pelo cavalo Belliano–Weschenfelderiano.

Mas bem, ainda não dissemos a que vieram as palavras de Manuel Bandeira, lá do começo. Qual a relação entre a “vida delirante” que bateu à porta de Bandeira, um cavalo na biblioteca, Bell, Martinho e sabe-se lá o que mais? Afinal, que costura é esta que fazemos em terras de fiandeiras e peixinhos? Em se tratando de delírios, explique-se, tudo sempre faz sentido.

Não conhecia o conto de Bell, e se comecei aqui falando do ”Dicionário”, é justamente porque este me levou àquele. De Bell, até então, havia lido apenas poemas e críticas de arte. Ao ler “O Guarda-Noturno”, deparei-me com uma descrição, vislumbrada pelo protagonista da ficção a partir da janela da biblioteca. Descrição que tece as possibilidades de encontro entre Bell, Weschenfelder, Martinho, o Cavalo e a “vida delirante” da crônica de Bandeira. Ei-lo: “Na luz maior do pátio externo, para onde a janela se abre, o relógio do sol em pedra, inacabado em seu tempo inacabado. Ao redor de sua estrutura por pintar e cimentar em vários lugares, além da chuva fina, centenas de insetos, voando sem parar, numa dança mágica. A voz continua chamando. Agora parece vir também do tempo inacabado do relógio de sol, de dentro da própria chuva.” No filme de Ricardo Weschenfelder estão os insetos, porém o gnomon (popularmente chamado de relógio de sol) não aparece. Mas ele está lá, de fato, plantado no pátio de entrada da Universidade desde 1969 pelo uruguaio Félix Peyrallo Carbajal, o “rapaz de blusão” da crônica de Bandeira. Havemos de falar dele, portanto.

Carbajal nasceu no Uruguai em 1905. Filho de um músico bem sucedido, ficou órfão da mãe, que faleceu em seu parto, e do pai ainda na juventude. Deste herdou um bom dinheiro, com o qual deu início a sua vida de andanças pelo mundo. A propósito, falar da vida de Carbajal é o mesmo que flertar entre o surreal e o fantástico. Não sabemos até que ponto suas peripécias foram efetivamente vividas, ou se ficcionalizadas pela mente fértil de um mitômano – algo como “Peixe Grande” (2003), o filme dirigido por Tim Burton. Para quem deseja ter dimensão do que falo aqui, vale a leitura do livro “La muerte está servida ”, de Claribel Terré Morell , uma espécie de novela narrada em primeira pessoa, e que tem como protagonista-narrador Félix Carbajal.

Sem endereço, sem bens, e carregando apenas duas mudas de roupa (uma no corpo, outra na bolsa), Carbajal viajou por diversos países dos continentes europeu e americano, e travou relações com uma série de expoentes da cultura ocidental do século XX. A lista é mesmo muito longa, mas vale citar alguns nomes, como Gabriel García Marquez , Federico Lorca, Frida Kahlo, Pablo Neruda , Salvador Dalí, Bertrand Russel, Hemingway, Jorge Luis Borges, Vinicius de Moraes, Eduardo Galeano, Sartre, Simone de Beauvoir entre tantos outros. Na residência de vários chegou a residir, e a alguns teve como amantes. Boêmio, depois de finda a herança, vivia das palestras que proferia, da ajuda dos amigos que fazia pelo mundo e, mais tarde, durante sua estada na Nicarágua, onde recebeu o convite para construir um gnômon na praça do povoado de Metapa, como gnomonista. E foi construindo gnômons (quase duzentos espalhados por toda América Latina) que chegou a Blumenau em 1969, onde construiu o relógio de sol que o narrador do conto de Bell avistou pela janela da Biblioteca.

O mais impressionante, entretanto, foi reencontrá-lo em Blumenau e vê-lo coordenando os trabalhos de restauro do relógio de sol da FURB em 2004, aos 99 anos, um ano antes do seu falecimento. Por que motivos Carbajal escolheu Blumenau para terminar seus dias, desconheço. Hospedado em um asilo da cidade, o irrequieto ser franzino que bateu à porta de Bandeira em meados do século XX, em princípios do XXI frequentava praticamente todos os dias a Biblioteca da FURB, a mesma que serviu de cenário ao conto de Bell, que cita o impressionante relógio por ele plantado quase quarenta anos antes; a mesma que recebeu um cavalo entre suas estantes, fruto de um surrealismo ainda latente na cabeça de um jovem diretor; a mesma nascida da doação dos livros de um Martinho de pouco riso. Nesta biblioteca lia, principalmente, a enciclopédia Larousse com a ajuda de uma poderosa lupa, porque uma vida centenária deixa suas marcas nos olhos. E nesta biblioteca, por fim, foi descoberto por Claribel Morell, que há muito o acreditava morto.

Em meio à antipática sisudez protestante desta cidade cenário, um sopro de vida delirante sempre se é possível enquanto subsistir a profana liberdade de uma biblioteca, e enquanto suas portas estiverem abertas a cavalos, poetas e “Carbajais”.
 
foto
 
foto
 
foto
 
foto

(Imagens do projeto original do Gnômon de Blumenau, de autoria de Félix Peyrallo Carbajal)

* Crédito das imagens: Foto do cavalo na biblioteca (Darlan Jevaer Schmitt), Foto de Carbajal e Gnômon (Centro de Memória Universitária da FURB), Imagens digitalizadas do Projeto Gnomônica Blumenau (Centro de Memória Universitária da FURB).

 
< Anterior   Próximo >

Artigos já publicados

“Estação das chuvas”, de José Eduardo Agualusa

capaEstação das Chuvas é um romance típico de seu tempo e contexto. Discute uma Angola que se procura construir e afirmar à luz de uma unidade artificialmente construída pelas mãos europeias e, justamente por este seu aspecto sociológico, sem entretanto se tornar panfletário, merece leitura atenta e o coloca na estante de uma literatura pós-colonial que, se não pretende oferecer respostas, problematiza e estimula o debate.

Leia mais...