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A Estética da Mulata na Literatura Brasileira Imprimir E-mail

Neste breve ensaio a jornalista e pós-graduanda em Estudos Literários Magali Moser analisa a reprodução estereotipada da mulata na Literatura Brasileira.

A ESTÉTICA DA MULATA NA LITERATURA BRASILEIRA

Magali Moser
Jornalista e pós-graduanda em Estudos Literários/Furb

Boca carnuda, cintura fina, seios fartos, quadril avantajado e comportamento fogoso. A figura de mestiças tornou-se um símbolo do Brasil por trás do padrão de beleza e de uma imagem sexualizada. O estereótipo da mulata na literatura brasileira reforça o discurso de uma mentalidade preconceituosa como se elas fossem dotadas apenas desses atributos físicos e sensuais. Personagens como Rita Baiana, de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, a Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães ou Gabriela, de Jorge Amado, consolidam concepções dominantes do pensamento brasileiro da época e demonstram como os autores têm dificuldade de escapar do ideal social e estético do branqueamento. As narrativas suscitam a discussão sobre o belo e os padrões de estética predominantes.

Pioneiro na apresentação das reflexões sobre os conceitos de belo, Platão identificava a beleza como o bem, a verdade, a perfeição. Já Aristóteles, acreditava que o belo é inerente ao homem já que a arte é uma criação particularmente humana. Além disso, o subjetivismo humano permite o julgamento pessoal e individual sobre o que é o belo. Kant, em A Crítica da Faculdade do Juízo diz que existem quatro características para um juízo estético:

  1. O belo é expressão de uma satisfação desinteressada. Aquela que se define por ela mesma. Que não é vendida, que não é comprada, que não é imposta, que se legitimiza pela sua própria natureza;
  2. O belo agrada universalmente, sem conceito. Aquilo que é belo sempre será. A Vênus de Botticelli, na Galeria Degli Uffizi, em Florença, na Itália, continua bela, atravessando os séculos. O mesmo pode-se dizer de La Pièta, de Miguel Ângelo, na Igreja de São Pedro, no Vaticano. Sempre foi bela;
  3. O belo é a forma da finalidade de um objeto percebido sem representação de fim. Um isqueiro, por exemplo, é belo não pela intensidade da chama, mas porque guarda uma forma ou uma concepção que independe da sua atribuição ou finalidade. Podemos conhecer uma pessoa muito bela, mas extremamente chata.
  4. O juízo estético é universal e por isso necessário, mas uma necessidade meramente subjetiva.

O processo de construção da identidade da mulata, numa sociedade onde a beleza sempre aparece relacionada a um único padrão, faz a mulher negra assimilar aquele modelo como recurso obrigatório e necessário para ser aceita na sociedade. Sem perceber, ela se submete muitas vezes à ditadura da beleza.

Para Kant, “belo é o que agrada independentemente de conceito”. Considerando a dificuldade de fornecer ao belo um conceito universal e a profunda carga subjetiva desta definição, a estética desponta como sentimento de perfeição. Romances disseminam um comportamento declaradamente preconceituoso e racista contra a mulher negra, reforçando uma imagem negativa defendida pela ideologia do embranquecimento.

Em Preconceito de Cor e a Mulata na Literatura Brasileira, Teófilo de Queiroz Júnior aborda o modo como a sociedade projetou nas produções artísticas aspectos da sua organização social, além de aperfeiçoar a idéia da literatura como conservadora da ordem social vigente. Ao verificar como o preconceito de cor se perpetua na literatura, o autor mostra que a mulata aparece geralmente como personagem secundária das histórias e que seu estereótipo é criado através da descrição de características físicas, quase caricatural.

Como tipo literário, é direta e intensamente associada às suas características étnicas, tomadas como indicação de seu caráter, que a mulata se define. Em sua descrição se assinala, com freqüência, o colorido da pele, distribuído por tons vários, expressos por confrontos diversos, o bem torneado de braços e pernas, mãos e pés pequenos, a cintura fina, o busto insinuante e bem moldado, a boca sensual, de dentes sadios, iluminados por sorrisos fáceis, sonoros e comunicativos, os bastos cabelos negros, os olhos grandes e belos, quase sempre negros – eis o tipo de mulata mais comumente registrado literariamente. Assim dotada, com tantos recursos estéticos, a mulata foi confrontada à negra, ainda presa a uma destinação de trabalhos pesados, da mesma forma que serviu de paralelo à branca – esta última preservada pela moral e pelas leis para funções mais nobres de esposa e mãe de família (pg 30)

Mulatas voluptuosas aparecem associadas ao desejo carnal dos homens. Por isso, a exaltação da beleza da mulata evidencia a sutileza do preconceito ao qual a mulata é vítima. A utilização do estereótipo da mulher negra tem origens no período colonial, mas atravessa os tempos como reflexo do controle social de uma época. O machismo do homem branco em torno da mulata exemplifica as relações de dominação-subordinação herdada por um sistema escravocrata. Mostra como a mulher branca é voltada para o papel de esposa e a mulher negra com forte estigma sexual cujo corpo serve de espaço de prazer masculino.

Bibliografia

KANT, Emmanuel – Crítica da Faculdade do Juízo - Ed. Forense Universitária, 1995
NUNES Benedito - Introdução à Filosofia da Arte – Ed Ática, 1991
QUEIROZ JÚNIOR, Teófilo – Preconceito de Cor e a Mulata na Literatura Brasileira – Ed. Ática, 1982

 
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