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Maicon Tenfen: "Quero contar uma boa história, mas não apenas uma boa história" Imprimir E-mail

Nesta entrevista, concedida ao Sarau Eletrônico em junho de 2008, Maicon Tenfen fala da sua história e da sua formação enquanto escritor, reflete a respeito da literatura e aborda a produção literária no Vale do Itajaí.

“QUERO CONTAR UMA BOA HISTÓRIA, MAS NÃO APENAS UMA BOA HISTÓRIA”

Licenciado em Letras pela Universidade Regional de Blumenau, e mestre e doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Maicon Tenfen atua como professor universitário, editor executivo da Edifurb e mt1cronista dos jornais Diário Catarinense (Florianópolis) e Jornal de Santa Catarina (Blumenau). Autor de contos, crônicas e romances, publicou os livros Entre a Brisa e a Madrugada (1996), Um Cadáver na Banheira (1997), O Segredo da Montanha (1998), O Impostor (1999), O Filho do Feliciano (2000), Mistérios, Mentiras e Trovões! (2002), Mania de Grandeza (2005) e A Culpa é do Mordomo (2006). Por duas vezes conquistou o primeiro lugar no Concurso de Contos Paulo Leminski. Nesta entrevista, concedida ao Sarau Eletrônico em junho de 2008, Maicon Tenfen fala da sua história e da sua formação enquanto escritor, reflete a respeito da literatura e aborda a produção literária no Vale do Itajaí.

(Entrevista: Viegas Fernandes da Costa / Fotos: Gabriel Severo Venco Teixeira da Cunha)

Gostaríamos de começar falando da tua infância, sobre tua família.

Eu nasci no dia 31 de dezembro de 1975, muito próximo da meia-noite. Então teve foguete, teve festa, evidentemente não por causa do meu nascimento, mas devido à virada de ano. Sou de Ituporanga, uma cidade pequena que atualmente conta com aproximadamente 20 mil habitantes. E, além disso, nós residíamos na zona rural. Meus pais são agricultores até hoje. Na época em que nasci meu pai trabalhava como laminador, ele afiava fitas, serras de serrarias, depois ele teve uma fase de caminhoneiro, e depois acabou voltando para as suas origens, que é a lavoura, o campo. Eu me criei lá, ajudando a plantar cebola e, em uma outra fase, fumo, tabaco. Na minha casa o livro era uma coisa que circulava muito pouco durante a minha infância. Muito pouco mesmo! A própria Bíblia! Ela existia lá em casa, mas praticamente não era manuseada, não era lida. A nossa família era uma família de Católicos Apostólicos relaxados. Iniciei-me na leitura por causa das histórias em quadrinhos. Eu tinha vizinhos e primos que tinham as revistas e acabavam me emprestando.  Provavelmente não teria passado das histórias em quadrinhos se não tivesse estudado no Seminário São Francisco de Assis, em Ituporanga, para onde fui não por vocação ao sacerdócio, mas para resolver um problema comum na época, que era dar acesso à educação a pessoas que viviam longe das cidades, dos colégios. Eu tinha até a quarta série, dali para a frente o internato seria uma boa solução. Então acabei indo para o seminário, e lá nós tínhamos uma biblioteca muito boa, muito equipada, muito bem organizada. E tínhamos que fazer as leituras, leituras bíblicas, evidentemente, por que era uma escola religiosa; a leitura espiritual, que também vinha nessa linha; e uma outra leitura, que era a minha preferida e que, de certa forma, me aproximava um pouco do universo das histórias em quadrinhos, que era a chamada leitura recreativa: contos, romances, crônicas, poemas etc. Então passei a ler livros! Depois eu saí do seminário e continuei lendo livros. E acho que de tanto ler livros, chegou a vontade de também escrever meus próprios livros, minhas próprias histórias. Já no seminário fiz minhas primeiras tentativas, sem sucesso evidentemente, o que é normal, até chegar aos 17, 18 anos, quando então resolvi escrever uma narrativa mesmo, com início, meio e fim. Resolvi me organizar, me disciplinar, e escrever até o fim. E foi aí que surgiu o livro Entre a Brisa e a Madrugada. Antes do seminário sempre estudei em escolas públicas.

Quais eram os autores que mais te chamavam a atenção naquela época?

Quando eu lia quadrinhos, muitos eram da Turma da Mônica, Luluzinha e Bolinha, Disney evidentemente, do gênero infantil. Mas o que eu gostava mesmo era do Fantasma e do Mandrake, as duas criações máximas do Lee Falk, e também aquelas revistas de super-heróis, da Marvel principalmente. Tinha a DC Comics, que eu lia um pouco, mas era a Marvel que durante uma época eu acompanhei mesmo. Depois acabei descobrindo os quadrinhos italianos, Tex, Zagor, dos quais até hoje sou colecionador. E o meu primeiro contanto com os livros foi através dos clássicos adaptados para a juventude, como, por exemplo, Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, todos esses livros do Alexandre Dumas, em versões traduzidas e condensadas, ou então Robinson Crusoé. Esse tipo de livro. Muitos livros depois, já em outra fase, a Coleção Vaga Lume que, na época, eu cheguei a ler todos. Depois acabei descobrindo o Karl May, um autor que foi muito popular há algumas décadas atrás, e eu acho que peguei o finzinho do sucesso dele.

Como é que se dá a decisão de sair de Ituporanga e vir para Blumenau?

Para responder esta pergunta eu vou pensar um pouco na antropologia do Joseph Campbell. O Campbell diz que na história de cada um só há, basicamente, duas coisas a se fazer: ou você invade ou você é invadido. Como graças a Deus eu não fui invadido, então eu achava que deveria invadir. Haveria de chegar o momento em que eu deveria fazer como muitos dos heróis que tinha lido na minha infância, de me despedir dos meus pais e ir para o mundo de verdade buscar os meus objetivos e os meus sonhos. Então isso já ficou muito claro para mim desde que eu era criança: que ia chegar o momento em que eu ia embora, buscar outras aspirações. De certa maneira fui estimulado pelos meus pais para fazer isto. E por que Blumenau? Por uma razão bastante prática. Nessa época eu já estava “destinado” a ser escritor, mas eu não sabia ainda qual o curso que deveria fazer. Podia ser Jornalismo, que era uma opção que eu tinha; podia ser Letras, mas havia muito preconceito na época, como hoje ainda há, em relação às licenciaturas; podia ser até mesmo Direito, mas Direito eu logo descartei. Acabei então optado por Letras. Não tinha Jornalismo em Blumenau. Tinha em Itajaí, mas era apenas uma entrada por ano, e naquele semestre em que eu iria fazer o vestibular, não tinha Jornalismo. Acabei então fazendo Letras porque eu não queria perder tempo. Acabei vindo para Blumenau com a vaga idéia de depois ir para outro lugar, mas acabei ficando, e estou aqui até hoje.

Com exceção d’O Filho do Feliciano, tuas obras retratam um mundo urbano, violento e midiático. Por que a escolha por esta temática?

É uma boa pergunta, porque como fui criado em um ambiente campesino, seria natural esperar algumas narrativas ligadas ao campo, como de fato há, mas a temática urbana é bastante forte. Acho que isto se dá pela idéia de que a cidade é labiríntica, e ela tem possibilidades de desenvolvimento de personagens e de temas, por exemplo, que o campo não teria. Então a minha idéia é falar de temas como o do personagem que está perdido, ou então sobre a solidão povoada, em que a pessoa vive mt2no meio de tanta gente, mas, no entanto, está sozinha. Essa coisa de tentar buscar algum tipo de raiz, algum tipo de essência, mas sem a possibilidade para tal. Acho este um tema bastante rico, é uma tragédia: você quer buscar as suas essências, mas não sabe onde buscá-las, ou não tem como buscá-las. Acho que a cidade é um tipo de ambiente que proporciona o desenvolvimento desses temas. Talvez seja por isso que trabalhei com temáticas urbanas. Agora, é também uma verdade, não posso negar, que fui muito influenciado pelo cinema. E o cinema que me influenciou nesta época era de temática profundamente urbana. Martin Scorsese, Quentin Tarantino, alguns filmes brasileiros como Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, que tinham temáticas mais urbanas.

Falávamos da tua vinda para Blumenau. O que há de autobiográfico no livro Um Cadáver na Banheira? Houve o rapto da esposa?

Na minha história pessoal tenho um fato curioso. Quando eu tinha 19 anos acabei conhecendo a minha esposa, e a gente começou a namorar. Quando ela completou 16 anos – eu já morava e estudava aqui em Blumenau – acabamos vindo para cá. E a gente saiu meio fugido da região. Depois a situação acabou sendo normalizada, estabelecida. Então foi isso. Acredito que foi um fato marcante na minha vida. E quando eu estava escrevendo Um Cadáver na Banheira, resolvi trabalhar também com isso, aproveitar essa experiência. Evidentemente houve exagero. Tentei trabalhar a trama ficcional da maneira mais interessante possível, exagerando muitas coisas. E outro fato do Um Cadáver na Banheira que é real, mesmo, é o negócio do mercado editorial, que era uma outra experiência forte pela qual eu estava passando. Porque eu tinha acabado de publicar meu primeiro livro e fui enganado, como tantas outras pessoas foram enganadas por editores, ou pseudo-editores, caloteiros, que num determinado momento resolveram ganhar dinheiro em cima dos sonhos alheios. Isso para mim foi muito grave, e por isso resolvi colocar esta questão na trama de Um Cadáver na Banheira.

Neste livro, inclusive, aparece um personagem que é um poeta pernóstico. Este também está relacionado com fatos verídicos, ou é apenas um personagem?

Não, é real! Porque a idéia de Um Cadáver na Banheira, também, é ser aquilo que os franceses chamam de Roman à Clef, que é o romance de chave, ou seja, você retratar uma realidade com personagens cifrados, com nomes diferentes, mas que representam pessoas da comunidade. Então muita gente que leu Um Cadáver na Banheira na época em que ele saiu, em 1997, identificou rapidamente muitos personagens que povoam a cidade de Blumenau. E claro, pessoas que o leram depois, ou que vivem fora daqui, não vão ter acesso a essa chave. Então são meios de leitura diferentes. Mas boa parte dos personagens que aparecem no livro são referências diretas a pessoas da época com as quais convivi ou que via atuar na sociedade blumenauense, no meio literário ou no mercado editorial.

Como avalias o atual mercado editorial brasileiro?

É um mercado editorial realmente fraco, que tem o seu maior trunfo na quantidade de habitantes. O Brasil é um país muito grande e com pessoas que falam e são alfabetizadas na mesma língua. Então este é o trunfo do mercado editorial. Em compensação nós temos um percentual enorme de analfabetos legítimos e de analfabetos funcionais, pessoas que sabem decifrar o código da escrita, mas que não lêem ou, se lêem, não entendem e não estão nem um pouco interessadas em adquirir livros. Então é um mercado fraco, que não tem muita saída. Agora, o que eu percebo nos últimos anos é uma tentativa, às vezes bem sucedida, de editoras do eixo Rio – São Paulo profissionalizar este mercado. Por exemplo, em editoras como Companhia das Letras, Objetiva e a própria Record, que já mais antiga, eu vejo uma tentativa de profissionalizar este mercado, o que não é fácil justamente por causa da baixa demanda que a gente tem no consumo de livros.

E quanto a Santa Catarina?

De todos os estados brasileiros que têm um PIB parecido com o nosso, Santa Catarina é o pior em termos de mercado editorial. Impressionante! Nós não temos um sistema de distribuição, nem interno nem externo. Nós não temos contatos. Apesar da Internet, nós ainda vivemos em ilhas que não se comunicam. É a ilha de Florianópolis, ilha de Blumenau, ilha de Criciúma, ilha de Chapecó, ilha de Lages, ilha de Videira. A gente não consegue se comunicar direito. O que sai publicado em Joinville a gente não toma conhecimento aqui, e vice-versa. Este é um problema muito sério mesmo! O nosso maior problema aqui é a comunicação.

Concedeste uma entrevista ao blog Falações, do escritor Marcelo Labes e, recentemente publicaste uma crônica no Jornal de Santa Catarina, depoimentos que geraram uma grande polêmica. No texto afirmaste que as entidades literárias de Blumenau são autoritárias. Na entrevista te referias principalmente à poesia, e dizias que atualmente não há boa poesia na região e que as entidades de escritores locais não prestavam um serviço de fomento da qualidade literária. É isto mesmo? Como avalias, primeiramente, o papel destas entidades? Elas têm relevância? E num segundo momento, como avalias a literatura produzida hoje no Vale do Itajaí?

Quando eu concedi a entrevista ao Marcelo Labes, lá por julho ou agosto de 2007, a idéia era fazer uma espécie de levantamento a respeito da poesia produzida principalmente em Blumenau, e destaquei alguns nomes que eu considero importantes e principalmente o fervor que havia na questão da poesia dos anos 90. Acho que os meados dos anos 90 foram um grande momento para a poesia aqui de Blumenau, tanto em termos de publicação, de divulgação, mas principalmente, e é o que importa, de debate, de troca de idéias, de experimentalismo. De repente algum desse experimentalismo não foi tão interessante, mas pelo menos havia essa efervescência, essa inquietação de trazer uma poesia diferente, de trazer um código poético diferente para a cidade, dialogando com o passado às vezes em tom de respeito, às vezes em tom de paródia, às vezes em tom de desprezo. Então foi um momento muito rico. E destaquei alguns nomes que pude acompanhar o desenvolvimento, a publicação dos livros, a participação em jornais etc. E foram alguns, provavelmente não vou me lembrar de todos. Mas por exemplo, Marcelo Steil foi um nome muito importante, o Dennis Randünz, o Mauro Galvão, o Tchello d’Barros, sem falar no Lindolf Bell, que ainda estava vivo, mas que já tinha escrito a sua obra. E aí veio a pergunta do Marcelo Labes: “e hoje como é que está?”. E eu disse: “sou sincero em dizer que no momento não estou vendo aquela efervescência, aquele debate todo a respeito de concepções de poesia, e de ousar, e de experimentar, e de criticar. Não estou vendo isso. O que vejo é uma espécie de poesia quase ginasiana, uma poesia primária, uma poesia que não chega nem aos pés daquilo que foi produzido nos anos 90. E essa poesia está muito mais ligada à questão do ego do que à prática da literatura em si”. E para mim existem culpados para o fato disto estar acontecendo, e eu coloquei: são as instituições acadêmicas. Dentre estas instituições acadêmicas estão o curso de Letras, do qual eu faço parte, e portanto é uma autocrítica também – a gente não está conseguindo trabalhar da maneira como deveria ser, apesar dos nossos esforços; a Academia de Letras de Blumenau, que desde a sua origem têm uma função muito mais social do que literária; e a Sociedade de Escritores de Blumenau, que começou com propostas bem interessantes, mas que acabou descambando para o social, para o efêmero, para a massagem de egos. Então essa foi a minha opinião. São instituições bregas, são instituições que não contribuem e que de certa maneira até sufocam a possibilidade de surgir um novo nome. Em tempo, ainda não haviam surgido os livros de poesia lançados este ano. Eu me baseei naquilo que havia sido publicado até então. O que aconteceu? Houve então reações bastante furiosas por parte, mt3principalmente, da Sociedade de Escritores, o que é natural e talvez até bom, positivo, porque gera um debate, mesmo que o nível do debate tenha permanecido baixo. Uma coisa que aconteceu e me deixou espantado – e digo isso porque é algo que eu posso provar – foi que membros da Sociedade de Escritores de Blumenau, em nome desta sociedade, entraram em contato com o reitor da Universidade de Blumenau, a FURB, solicitando a ele que conversasse comigo, que sugerisse que eu me calasse a respeito das minhas idéias em relação a estas instituições, e assim por diante. Então esse foi um elemento que em um primeiro momento não apareceu. Em meu depoimento ao Labes esse viés autoritário, embora eu já tivesse percebido isso, não apareceu. Mais tarde achei que seria necessário trazer também isto à tona, daí o porquê da minha coluna no Jornal de Santa Catarina. E de certa maneira eu estava solicitando algum tipo de explicação ou, pelo menos, esperando que alguém me dissesse que aquilo foi um mal-entendido, enfim, que alguém assumisse alguma posição em relação àquilo. E ninguém assumiu! Até agora, seja através de artigos publicados nos jornais, ou através de e-mails, ninguém assumiu posição alguma! Muito pelo contrário, houve uma situação mais grave ainda, e eu cito. O poeta Jairo Martins, que pertence à Sociedade de Escritores, tentou, através de e-mails, justificar essa atitude que fora tomada pela Fátima Venutti, que então era presidenta da sociedade, e pela poeta Rosane Magaly Martins, que me parece que também é membro desta entidade. Então eu vejo isto como uma coisa extremamente grave, embora particularmente não me sinta afetado de forma alguma. Mas acho grave que uma instituição dita de escritores tenha tomado uma atitude tão anacrônica, mesmo em um país como o Brasil, de solicitar a censura, o patrulhamento ideológico, dentro de uma universidade que é, teoricamente, o espaço onde as idéias devem transitar livremente, e depois ainda “assinar embaixo”, tentar justificar. Eu achei isso bastante complicado. A minha opinião, hoje, em relação a estas instituições, principalmente à SEB, é que elas são bregas, e eu reitero a palavra brega, porque elas assumem uma função de coluna social e, o mais grave, apresentam essa coisa do autoritarismo. Felizmente na nossa universidade o reitor soube se posicionar de uma maneira polida, mas muito firme no que diz respeito ao livre trânsito das idéias, e nada grave aconteceu. A não ser o fato de que esse pedido foi formalmente feito, e isso é extremamente perigoso. Então mais uma demonstração de que a gente está passando por um momento muito pobre na literatura, seja através da produção, mas principalmente através da maneira como as instituições, os escritores e os veículos de comunicação se relacionam quando o assunto é artes e literatura.

No início da tua carreira, em entrevista a um programa de televisão, disseste que a tua preocupação enquanto escritor era a de apenas escrever uma boa história. Que não seria função da literatura fazer sociologia ou filosofia. Literatura é apenas escrever uma boa história, ou há algo mais? O que é uma boa história?

Evidentemente dez anos ou mais se passaram. O meu primeiro livro é de 1996, então já lá se vão doze anos de produção e publicação! Então é claro que a cabeça da gente muda, a gente “evolui”, vai amadurecendo e vendo as coisas. Mas eu continuo dizendo que na minha concepção pessoal de literatura, a narrativa, que é o que eu pratico, já que não escrevo poesia, é contar uma boa história. Eu retiraria o apenas. Se não época eu falei apenas contar uma boa história, hoje eu tiro o apenas. Então, é contar uma boa história! O que seria uma boa história? É uma história em que o leitor possa participar de uma maneira ativa e interessante do processo e que ele não fique à margem, como quando você tem, por exemplo, uma narrativa muito hermética ou uma estrutura que se pretende revolucionária e diferente de tudo quanto já se fez onde, no máximo, você consegue espantar o leitor, entediar o leitor, aborrecer o leitor. A idéia seria você ter personagens bem desenvolvidos, uma trama bem desenvolvida, um aproveitamento simbólico das situações. Isso não quer dizer que a literatura não vá, por exemplo, falar metaforicamente da sociedade, da nossa vida política, das questões religiosas. Isso não quer dizer que a literatura não possa, por exemplo, apresentar uma visão de mundo que seja até mesmo uma espécie de lição para o leitor, se assim ele quiser entender. Porque mesmo quando o escritor não quer fazer isso, ele fatalmente o faz. Porque se a imparcialidade, a objetividade total do texto, não existe nem no discurso acadêmico, e acho que isso todo mundo já admite, imagine na literatura, que é a expressão máxima da subjetividade, a expressão máxima do indivíduo. Então eu continuo com a idéia de que um bom conto deve contar uma boa história, um bom romance é aquele que conta uma boa história. Mas não apenas! Por trás daquilo você vai encontrar uma cosmogonia capaz de lhe fazer refletir sobre muitas coisas, sobre a sua própria vida, sobre a sociedade e o mundo em que você vive.

Além de escritor, lecionas em uma universidade e tens doutorado em Literatura. Enquanto acadêmico, quais as tuas preocupações teóricas e teus objetos?

No mestrado desenvolvi uma dissertação a respeito daquilo que chamei de narrativa de mercado, que é o best seller, o livro inserido na cultura de massas. E peguei como exemplo, como objeto de estudo, depois dos levantamentos teóricos, o fenômeno Paulo Coelho. Trabalhei sobre a orientação da professora Tânia Ramos, da Universidade Federal de Santa Catarina. A idéia foi descobrir, ou pelo menos descrever, alguns dos processos que fizeram com que certos textos tivessem certa aceitação. Mas processos estruturais, independente do marketing e das questões externas ao texto. Descobrir elementos que faziam do texto um best seller. E na minha tese de doutorado eu continuei mais ou menos pelo mesmo viés, reforçando o aspecto estrutural do meu estudo. Então mergulhei mais ainda no texto, não peguei nenhum autor específico, procurei trabalhar com a maior quantidade possível de autores, de narradores, e procurei desenvolver o foco narrativo e o tempo narrativo, dois elementos que são muito importantes dentro da narrativa. E procurei mergulhar fundo mesmo! Como é que funciona o motor da narrativa? Como é que funcionam os subterrâneos da narrativa? O tipo de técnica, de escrita que você pode utilizar para atingir os seus objetivos de contar uma boa história e que, de repente, possa ser mais do que uma boa história. Então as minhas preocupações, para agora usar um jargão acadêmico, foram eminentemente formalistas e estruturais naquilo que diz respeito à narrativa.

E com esta análise estrutural que fazes, que vai além de ser apenas um opinião sobre o “gosto” ou “não gosto”, principalmente dessas obras de maior domínio popular e sobre as quais a gente sabe que muitas vezes recai um grande preconceito, como é o caso do Paulo Coelho, cujos livros muitos consideram subliteratura, pode-se dizer que ela apresenta uma literatura de qualidade, ou é realmente uma literatura empobrecida também nos seus aspectos estruturais?

mt4Eu procurei trabalhar com a menor quantidade possível de preconceito, que é um fator que existe dentro da academia. O acadêmico é, acima de tudo, um preconceituoso. Então procurei controlar o preconceito, e cheguei a uma conclusão. Existem algumas narrativas best sellers que realmente são muito boas, que têm novidade. Não são novidades radicais, como as que você encontra, por exemplo, em um movimento de vanguarda. Evidentemente que não. Mas elas trazem alguns elementos muito interessantes. Agora, quando você tem um modelo de narrativa que pela simples razão de ter dado certo é repetido à exaustão, com fins puramente mercadológicos, aí sim a gente tem um empobrecimento. Até porque boa parte dessas narrativas que repetem um modelo consagrado normalmente fracassam em termos de vendas. Uma ou outra vai conseguir se estabelecer, mas depois vem uma série de fracassos. Quantos Sidney Sheldon existem por aí? Quantos Paulo Coelho? E é tudo gente que não deu certo, cujo texto não funcionou, também porque faltou aquela autenticidade original. Quanto ao Paulo Coelho, por exemplo, digo que não gosto do tipo de livro que ele faz, vejo alguns problemas sérios na elaboração do texto, na trama, mas para mim é inegável que ele tem uma autenticidade. Principalmente nos primeiros livros ele veio com uma proposta “verdadeira”, na qual ele mesmo acreditava. E fez aquilo com naturalidade. Depois, claro, vêm as imitações, e às vezes o próprio autor vira um plágio de si mesmo.

O que explica, de certa forma, que o Paulo Coelho não é mais o mesmo.

Exato! Paulo Coelho, principalmente no Brasil, não tem mais aquela mesma repercussão. Talvez porque a fórmula já ficou um pouquinho gasta. O que é verdade é que ele conquista cada vez mais repercussão no exterior. Mas uma prova de que o Paulo Coelho não é mais o mesmo no Brasil é o fato de que o escritor mais vendido no Brasil, até onde sei, é o Luis Fernando Veríssimo, e a biografia do Fernando Moraes, muito boa por sinal, que foi recentemente publicada, ainda está só na quarta posição dos livros de não-ficção mais vendidos, quando era de se esperar que estivesse no topo.

Na tua opinião, quais são os grandes nomes da literatura catarinense atual?

Existem alguns nomes muito interessantes e realmente destacáveis, mas não daria para citar todos. Na área do romance nós temos o Salim Miguel. O Salim Miguel tem uma obra que não é exatamente aquilo que nós poderíamos chamar de acessível, porque ele tem umas preocupações com estilo, com linguagem, e agora, no final da vida, ele conseguiu a divulgação da sua obra em esfera nacional através da Editora Record. Isso eu acho importante: você ter um autor que tenha tanto um texto bom, quanto certo destaque, até para que você possa discutir esse autor. Isso não quer dizer que você não vai citar um autor que ainda não tem o destaque merecido, e aí vem o segundo nome, que para mim é o Silveira de Souza. O Silveira de Souza é um cara que atingiu no conto uma excelência, uma perfeição; ele explorou meandros no conto que só ele conseguiu. Infelizmente ele ainda não tem o reconhecimento que mereceria. Talvez porque ele é do conto, não sei. Existe um preconceito de mercado que diz que conto não vende. Então cito estes dois: Salim Miguel e Silveira de Souza. Tem o Cristóvão Tezza, que é praticamente um autor paranaense. Ele se criou e vive há muitos anos em Curitiba, mas ele é catarinense e tem uma obra muito interessante. Agora, recentemente, com o Fotógrafo. E eu acho que ele chega em um momento de ápice, e de grande ousadia, n’O Filho Eterno, que é um livro forte, um livro que tem uma verdade que o escritor não atinge todas as vezes. Uma coisa muito profunda, apesar de ser um estilo acessível, simples, uma coisa bem próxima do chamado leitor comum. Cito também aqui do Vale do Itajaí dois nomes que são importantes, que é a Urda Alice Klueger, com o romance histórico, que tem uma narrativa que eu poderia dizer que é de caráter romântico coisa e tal...  Mas a Urda de certa maneira mitificou o Vale do Itajaí com a sua obra quando escreveu o Verde Vale e depois o livro sobre as enchentes. A obra dela tem uma importância muito grande por causa disso. E claro, o Lindolf Bell na área da poesia. Eu não gosto de tudo que o Lindolf Bell escreveu, muito pelo contrário. Tem algumas coisas do Lindolf Bell que eu não gosto, mas ele tem alguns poemas em que ele realmente chegou no âmago, na verdade da poesia, naquilo que só a poesia pode dizer. Um dos grandes poemas dele é a Canção para o índio xokleng. Este é, realmente, um texto bárbaro e que tem muito a ver com a nossa região.

Em um determinado momento migraste para o jornal. Aliás, quando vieste a Blumenau, já tinhas uma coluna no Jornal da Noite, que era a Crônica do Cebolão. Depois do Jornal da Noite, que foi uma experiência bastante efêmera, partiste para uma coluna semanal no Diário Catarinense e, agora, com uma coluna diária no Jornal de Santa Catarina. Como é que se deu este teu ingresso na crônica de jornal e como vês esta exigência de escrever uma crônica nova todos os dias? Qual a resposta dos teus leitores às crônicas que publicas nos jornais?

A princípio eu queria ser só cronista. Quando eu comecei a me interessar mais profundamente por literatura, quando eu estava no Ensino Médio, comecei a descobrir Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, o próprio Veríssimo, ou seja, os grandes cronistas brasileiros. Eu li bastante Stanislaw Ponte Preta, que infelizmente parece que está ficando esquecido. E eu já começava a intuir, lá na minha cabeça de adolescente, que esse negócio de ser escritor no Brasil não era fácil. Primeiro você tem uma grande dificuldade para encontrar uma editora para publicar o livro e, depois, para encontrar leitores. Uma solução que vislumbrei na época era a literatura feita no jornal, que é a crônica, misto de literatura e jornalismo. Houve uma época em que eu só lia crônicas! Houve uma época em que eu só escrevia crônicas! Quando eu já morava aqui em Blumenau, morava sozinho, fazia uma espécie de exercício disciplinador de cronista: todos os dias escrevia uma crônica. Isso para ver se eu seria capaz de um dia sustentar uma coluna diária. Estranhamente, ou nem tanto, nunca consegui manter esta rotina por muito tempo. Começava, mantinha por três ou quatro dias, e depois esfriava. Passava mais uma semana, começava de novo. E nesse processo comecei a me descobrir como alguém que gostava de contar histórias, que gostava de narrar. Procurei, na época, acho que foi em 1996, o Jornal da Noite e me ofereci para escrever uma coluna neste jornal que saía toda semana. Na época era uma coisa engraçada. Eu fazia o texto à máquina, já que eu não tinha computador, e toda semana pegava um ônibus e levava o texto ao jornal. Hoje isso é inconcebível. E eu ficava feliz com a minha coluna no jornal, mostrava para a minha mãe, levava para Ituporanga para mostrar aos amigos e me enchia de orgulho de mim mesmo, embora tenha escrito coisas muito ruins naquela época. Fui mantendo durante um tempo essa coluna, até que chegou o dia em que houve uma campanha à prefeitura de Blumenau. Foi o ano da vitória histórica e inesperada do Décio Lima, o azarão, aquele que ninguém esperava que fosse virar o jogo. A disputa estava entre o Dalírio Beber e Wilson Wandall. E o jornal apoiava claramente, explicitamente, escancaradamente, a candidatura do Wandall. E eu, como cronista, na época, não queria me meter nesse tipo de discussão, até porque eu acreditava que isso não me dizia respeito. Então escrevia minhas historinhas, minhas coisinhas, minhas platitudes sobre a vida e coisa e tal. Mas um dia, e por uma razão política, fiquei muito chateado. Fiz a crônica durante a noite, à toque de caixa, já que eu trabalhava e estudava. Datilografei, peguei o texto, fui correndo lá para o jornal, entreguei na última hora e, no dia que saiu o jornal, a coluna não saiu! Saiu uma foto enorme do Wandall cobrindo o que seria a minha coluna e o resto da página. Olha, sempre achei o Wandall muito feio e isso piorou ainda mais a minha opinião! Então decidi: “não escrevo mais, não volto mais lá, e para mim chega!” Tinha gente muito legal lá, mas não me interessava mais. E fiquei meio revoltado com isso, não queria mais saber de crônica. Depois publiquei o Entre a Brisa e a Madrugada, depois veio o Um Cadáver na Banheira, veio a Editora Hemisfério Sul, com a Urda Klueger, e começamos a trabalhar com a editora, também comecei a lecionar, e fiquei na prosa narrativa: contos e romances. Em 2002 eu havia lançado um livro chamado Mistérios, Mentiras e Trovões!, que é basicamente um livro de contos, mas que pode ser lido também como uma novela, e recebi um convite do Marcos Espíndola, que trabalhava no Santa mas passou para o Diário Catarinense, e que conhecia meu livros. Ele me convidou para fazer a crônica da Revista de Verão do Diário, apenas doze números, um por semana, durante a temporada de verão. Como eu estava lá em Florianópolis, na UFSC, fui até a redação do Diário e conversei com o Marcos. Ele me disse: “só tem um detalhe, as crônicas têm que ter alguma relação com praia, verão, sol, que é o clima da revista”. Imagina, eu que me criei lá no Alto Vale, numa roça de cebola! Ele falando e eu pensando com meus botões: “como é que eu vou falar sobre a praia?” E quando ele terminou de falar eu disse: “Marcos, você chamou a pessoa certa, porque sou perito em praia!” Tudo mentira! Voltei para casa e comecei a escrever. E isso ressuscitou em mim o cronista que estava adormecido, meio abatido por uma experiência infeliz no passado. Depois fui convidado para escrever no caderno Variedades, onde já estou há quase seis anos. E neste momento a crônica começa a ter uma importância muito grande nos jornais catarinenses, que até então não tinha. É um fenômeno até interessante. E digo mais: a crônica é uma coisa importante em todos os jornais do Brasil. Acredito que isto se dá porque a televisão e a internet estão fortes, e a notícia pura e simples chega com muito mais rapidez e facilidade para o público através delas do que pelo jornal. Então o texto de opinião, o texto diferente, que vai ter algo de literário, torna-se importante no jornal impresso porque este precisa ter um diferencial para continuar sobrevivendo. E o Jornal de Santa Catarina colocou também cronistas rotativos, um a cada dia da semana; o Jornal A Notícia, que já fazia isso no passado, voltou a fazer. Assim nós temos 15 ou 18 pessoas nos três grandes jornais de Santa Catarina, sem falar nos jornais menores, que estão fazendo a crônica. Então a crônica está em alta, neste momento, em Santa Catarina. E o Edgar Gonçalves, que é o editor chefe do Jornal de Santa Catarina, me convidou para fazer uma coluna diária. Eu já havia feito alguns trabalhos com o Jornal de Santa Catarina. Tinha feito a Revista de Verão, eventualmente alguma coisa que saía no Diário, era reproduzida no Santa, quando tinha alguma relação com Blumenau. Eu queria escrever no Santa, mas estava pensando em uma coluna semanal. Eis que recebo o convite para escrever uma coluna diária! O convite veio em abril de 2007, e fiquei pensando nisso, não aceitei de imediato. Comecei a refletir como seria a minha rotina, fazer uma coluna por dia não seria fácil! Lembrei-me lá do passado, de quando fazia minhas oficinas particulares e disciplinadoras, nas quais fracassava, e fui me enchendo de certo receio. Ao mesmo tempo eu sentia atração de ter este espaço em um veículo de comunicação de grande abrangência e poder participar do debate através de uma crônica diária. No final acabou vencendo o sim. Mas houve um problema, já que não sou jornalista formado, e hoje o sindicato dos jornalistas tem essa coisa de que para se trabalhar em jornal tem que ser jornalista formado, mesmo que seja para fazer uma crônica que na minha opinião tem mais relação com a literatura do que com o jornalismo. Parece que houve uma negociação entre o jornal e o sindicato, até que veio a liberação para eu começar a coluna, em setembro de 2007. Acho que hoje já estou acostumado. Então todo dia é escrever, todo dia tenho que escrever uma página. Às vezes é difícil, às vezes a crônica sai sozinha, às vezes é bem complicado, principalmente quando vou discutir um assunto com o qual não tenho muita familiaridade e tenho que pesquisar bastante. Mas estamos aí, e meu objetivo é permanecer. Vamos ver o que o futuro nos reserva.

E existe uma resposta por parte dos leitores?

Tudo depende do tema e da forma como ele é abordado. Existem temas que não despertam muita atenção. Assuntos que dizem respeito diretamente à cidade, como inauguração de supermercado, as vaias a Ideli Salvatti no ginásio Galegão, ou essas discussões sobre escritores locais que muitos conhecem, despertam reações bem imediatas e muitas vezes bem apaixonadas. Ou então um tema polêmico por excelência, como a questão das células-tronco, ou outros grandes debates, sempremt5 despertam reação imediata. Agora, uma coisa que pude perceber, e estive conversando com o Conselho do Leitor do Santa sobre isso, é que o cronista, o articulista, o colunista em geral, não foi feito para ser amado pelo público. Esta é uma idéia totalmente pífia! Uma idéia que está muito ligada a esta prática da literatura como coluna social. Também o colunista não nasceu para ser um pária. Então, se eu puxo o saco do leitor, e em Blumenau seria fácil fazer isto, é só exaltar as características positivas que a cidade tem e esquecer as características negativas, ou se fico só apedrejando, bancando o polêmico, não é isso. O cronista vai ter um meio-termo. E não é porque eu sou de esquerda que vou ter que agir sempre conforme os ditames da esquerda, ou vice-versa. Uma situação vai ser discutida de acordo com as convicções e argumentos da pessoa que está escrevendo. E com sinceridade! Posso até errar, como já errei muito! Mas posso te dizer, com a consciência tranqüila, que eu escrevo com sinceridade! Eu não quero me pautar nunca em um partido político ou em uma teoria política. Eu quero, sim, sempre avaliar cada caso em particular. É por isso que reservo a manhã inteira para fazer a crônica, para ter tempo de verificar as informações, telefonar para alguém se for preciso, pedir uma orientação. Não quer dizer que estou certo em tudo isso, mas faço com sinceridade.

O escritor, neste mundo que convencionamos chamar de pós-moderno, tem uma função, um espaço definido, alguma capacidade de intervenção social?

Eu acredito que sim, porque todos nós temos capacidade de intervenção social em maior ou menor escala. Agora há pouco falávamos do Paulo Coelho. Pois bem, embora seja um romancista ruim, em determinado momento ele escreveu uma carta, intitulada “Muito Obrigado Mister Bush”, criticando a guerra no Iraque. A carta é até simplória na discussão das idéias políticas, no entanto a quantidade de pessoas que leram aquilo ali e que de repente formularam as suas opiniões sobre aquilo, faz com que eu responda sim. A voz do escritor é ouvida, as pessoas querem saber o que o escritor está pensando sobre determinado assunto. Isso, por outro lado, é uma coisa perigosa, porque se o escritor percebe – e alguns perceberam – que tem este poder, a coisa pode ficar complicada. Eu acho que escritor, embora tenha voz, nunca deve se levar por demais a sério. O ideal é, em algum momento do texto, deixar alguma brecha, alguma pista, para dizer ao leitor que esta é apenas uma opinião, para que ele reflita sobre o assunto. Caso contrário, teremos uma pregação ou algo do tipo.

E para terminarmos, quais os projetos para os próximos meses?

Eu quero lançar a terceira edição do Entre a Brisa e a Madrugada. Estou lançando um livro inédito, chamado Breve Estudo Sobre o Foco Narrativo, que é parte da minha tese de doutorado, onde discuto a focalização da narrativa. E tenho também um livro de contos, que já está pronto mas ainda não tem o título definido. Eu acredito que este livro talvez seja uma espécie de divisor de águas naquilo que escrevo. Algumas mudanças já começaram a acontecer no Mistérios, Mentiras e Trovões!, mas mesmo ali eu ainda estava muito preso ao meu projeto inicial. Já faz seis anos que não publico um livro inédito. Publiquei livros de crônicas, mas estes estão em outra esfera. No que diz respeito à narrativa, o último livro é de 2002. Faz bastante tempo! Por isso coloquei nesse livro, como primeiro conto, A Vida e a Morte de Nick Fourier. Porque representa a morte de uma série de convicções da escrita. E aí a gente pode se encontrar com uma das primeiras perguntas que fizeste, onde eu disse: quero contar uma boa história, mas não apenas uma boa história! Acho que este livro vem com isso. Vem com uma história que pretende ser boa, mas que pretende ser algo mais. Mas eu nunca vou querer cair no filosofismo ou no sociologismo.

 
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